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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
02/07/2015 03/07/2015 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Paramount

O Exterminador do Futuro: Gênesis
Terminator Genisys

Dirigido por Alan Taylor. Roteiro de Laeta Kalogridis e Patrick Lussier. Com: Arnold Schwarzenegger, Emilia Clarke, Jai Courtney, Jason Clarke, J.K. Simmons, Dayo Okeniyi, Byung-hun Lee e Matt Smith.

O Exterminador do Futuro: Gênesis é uma oportunidade desperdiçada. Depois dos medíocres capítulos A Rebelião das Máquinas e A Salvação, a franquia originada em 1984 por James Cameron e alçada a um nível ainda mais espetacular em 1991 com O Julgamento Final finalmente descartou os fracos roteiristas das partes 3 e 4 e abraçou um conceito ambicioso que combina reboot e continuação, inspirando-se não só em De Volta para o Futuro 2, mas também no novo Star Trek. Porém, ao contrário destes dois últimos, que exploravam bem suas ideias, Gênesis inicia de forma promissora apenas para ir se tornando mais estúpido a cada reviravolta, finalmente alcançando um resultado apenas risível que o estabelece como o pior exemplar da série.


Escrito por Laeta Kalogridis (Ilha do Medo, yay!) e Patrick Lussier (Fúria Sobre Rodas, oh-oh), o quinto longa da série inicia com uma extensa narração em off que, como nos dois anteriores, gasta um bom tempo apenas recapitulando tudo o que qualquer fã já sabia – e duvido que os espectadores que entraram no cinema sem ter ideia do que é um Exterminador tiveram a experiência facilitada pelas explicações. A partir daí, encontramos Kyle Reese (Courtney) no futuro enquanto, ao lado de John Connor (Jason Clarke), se prepara para o golpe final à Skynet. As máquinas, porém, enviam um T-800 (Schwarzenegger) para o passado com a missão de matar Sarah Connor (Emilia Clarke) e Reese se oferece para enfrentá-lo. No último instante, contudo, algo ocorre e, segundos antes de sua jornada, o sujeito vê algo assustador, ganha novas e estranhas memórias e, ao chegar a 1984, descobre que Sarah agora já não é mais uma garçonete frágil, mas uma guerreira auxiliada por um Exterminador que chama carinhosamente de “Papi”.

Esta, claro, é apenas a primeira das várias reviravoltas que ocorrem ao longo da projeção e que foram expostas sem dó pelo trailer do filme (ainda assim, não vou revelá-las nesta análise). Obrigando o público a reajustar suas expectativas diante do que julgava já conhecer a respeito daquele universo, esta revelação é intrigante e promissora: como o outro Exterminador se tornou protetor de Sarah? Quem o enviou? E em quais circunstâncias? Quais suas diretrizes? Ele poderia revelar todo o papel da Cyberdyne Systems no futuro da humanidade? Sarah poderia buscar Miles Dyson? Aliás, se a Cyberdyne começou a desenvolver a Skynet ao descobrir o braço do Exterminador original e este já não existe mais, isto já impediria a existência do projeto?

Infelizmente, por mais relevantes que sejam estas questões, o longa decide simplesmente ignorá-las, contentando-se em mostrar o T-800 resgatando Sarah do novo vilão e julgando, a partir daí, que nada mais interessa. Em vez disso, prefere apostar em reviravoltas e mais reviravoltas que normalmente envolvem alguém dizendo algo como “Fui enviado para o ano de...” e que resultam em mais questões que conseguem arruinar as anteriores sem nem mesmo respondê-las, o que é uma proeza. Com isso, Gênesis parece acreditar que a trama supostamente complexa substitui a necessidade de desenvolver melhor os personagens, que acabam se apresentando como figuras unidimensionais e desinteressantes.

E o pior: que se comunicam através de falas pavorosas que surgem como versões para tolos daquelas ouvidas anteriormente e que já não eram particularmente boas para início de conversa (Cameron nunca foi bom autor de diálogos). Como se não bastasse, Kalogridis e Lussier decidem que a melhor maneira de estabelecer uma dinâmica entre Sarah e Kyle é através da velha convenção do “eles-brigam-mas-se-amam”, o que aqui se torna ainda pior por sabermos que a garota tem plena consciência de que seu futuro envolve ir para a cama com o rapaz (e ouvi-la dizer “O fato de ter abraçado você nua não significa nada!” provoca risos, mas não pelos motivos que os roteiristas gostariam). Além disso, o roteiro investe na exposição excessiva, parando tudo a cada quinze minutos para explicar para o espectador o que está acontecendo, errando ainda ao tentar justificar cientificamente suas besteiras em ridículas falas que não convenceriam nem mesmo uma criança que jamais ouviu a palavra “quântico”.

O mais engraçado, diga-se de passagem, é que o filme jamais demonstra a mesma preocupação em soar plausível ao desenvolver a trama em si, já que, em certo momento, um personagem chega a dizer que matar Sarah e/ou Kyle antes que concebam John Connor não faria qualquer diferença na linha do tempo – um recurso estúpido para que o espectador tema pelo destino dos personagens mesmo sabendo que estes ainda não tiveram a oportunidade de trans... produzir o salvador da humanidade. E o que dizer de um vilão que, para ressaltar a própria vilania, chega a dizer “Não sinto pena, remorso ou medo!”? (Faltou apenas acrescentar “... e sou mau pra dedéu!”) Ah, sim: para completar a bagunça, Gênesis introduz uma contagem regressiva para ressaltar a tensão apenas para torná-la irrelevante no clímax, quando o tempo passa a transcorrer de forma aleatória. (E, por favor, não me perguntem a função do personagem de J.K. Simmons na história, pois eu não saberia responder.)

Como podem perceber, O Exterminador do Futuro: Gênesis tinha tudo para se revelar uma verdadeira tortura – e se isto não acontece, os créditos cabem a Arnold Schwarzenegger e a... James Cameron. Enquanto o primeiro exibe o carisma habitual e chega a arrancar algumas risadas com as tentativas de seu T-800 de parecer mais humano, o segundo foi, claro, responsável pela concepção dos planos do filme original que, recriados aqui, se apresentam como os melhores momentos da projeção. Por outro lado, a competência de Cameron como diretor de sequências de ação tornam os esforços de Gênesis ainda mais patéticos – e basta comparar as manobras feitas pelo helicóptero (real) em O Julgamento Final com aquelas (impossíveis e obviamente digitais) vistas aqui para perceber o contraste. Aliás, o diretor Alan Taylor chega a trapacear descaradamente para criar tensão em vários momentos – como na cena que, ambientada dentro de um ônibus, traz os personagens olhando preocupados para o teto do veículo ao ouvirem os sons produzidos pelo vilão que, claro, encontrava-se o tempo todo sob o assoalho, indicando que os heróis possuem uma percepção espacial de som completamente equivocada e que provavelmente exige cuidados médicos.

Prejudicado também por um elenco frágil (Emilia Clarke está longe de se mostrar imponente como Linda Hamilton, ao passo que Jai Courtney poderia trazer “medicamento genérico” tatuado na testa), esta continuação só ganha vida mesmo quando Schwarzenegger tem a oportunidade de monopolizar a tela – e é tocante, por exemplo, perceber a forma infantil com que o androide busca registrar suas lembranças de Sarah, indicando uma forma de saudade que, se explorada pelo roteiro, poderia resultar em questões fascinantes.

Em vez disso, no entanto, ficamos presos a um projeto vazio de ambições e cuja natureza de puro caça-níqueis é evidenciada até mesmo na estúpida cena que surge, sem surpresa alguma, durante os créditos finais.

03 de Julho de 2015

Videocast (sem spoilers):

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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