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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/07/2015 17/07/2015 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Disney

Homem-Formiga
Ant-Man

Dirigido por Peyton Reed. Roteiro de Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd e Adam McKay. Com: Paul Rudd, Michael Douglas, Evangeline Lilly, Corey Stoll, Bobby Cannavale, Judy Greer, Abby Ryder Fortson, Michael Peña, Hayley Atwell, John Slattery, Martin Donovan, Anthony Mackie, David Dastmalchian, T.I..

Homem-Formiga havia acabado há cerca de uma hora quando me peguei tentando lembrar de algum momento realmente memorável do filme e, surpreso, visualizei a imagem de uma criança em uma colher de leite prestes a ser engolida pelo pai. Estava me lembrando, claro, de Querida, Encolhi as Crianças, longa que vi pela última vez há muitos anos – e o fato de ele ter me retornado à mente espontaneamente no lugar de outra obra que eu acabara de ver é um forte testemunho ao seu favor. E contra Homem-Formiga, infelizmente.


Escrito por Edgar Wright, Joe Cornish, Adam McKay e Paul Rudd, o filme traz este último como o ladrão Scott Lang, que, ameaçado de perder a guarda da filha após ser preso, é abordado pelo milionário Hank Pym (Douglas) para assumir a identidade do herói-título, usando a tecnologia criada pelo sujeito para invadir uma corporação e roubar uma perigosa invenção que poderá comprometer a segurança do planeta (e que é basicamente uma derivação do miniaturizador que ele mesmo criou há décadas). Auxiliado também pelos amigos (e pequenos infratores) Luis, Kurt e Dave (Peña, Dastmalchian e T.I.), Scott enfrenta não só o vilão Darren Cross (Stoll), mas também a perseguição do novo namorado de sua ex-esposa Maggie (Greer), o policial Paxton (Cannavale), enquanto aproveita para se aproximar da filha de Hank, a bela Hope (Lilly).

Sim, Homem-Formiga é, portanto, mais uma história de origem de um herói da Marvel, mas, assim como ocorria no primeiro O Homem de Ferro e em Guardiões da Galáxia, é beneficiado por contar com o senso de humor de um protagonista vivido por um ator carismático e com excelente timing cômico – e é divertido perceber como Scott surge até mesmo infantilizado ao erguer a mão para pedir para falar e ao surgir seguindo seu “mentor” enquanto veste uma calça de pijama. Aliás, se há algo que salva o filme é sua leveza: quando parece prestes a mergulhar num drama que se tornaria ainda mais ridículo graças a falas como “Ela ficou subatômica”, o longa emprega a irreverência do herói para amenizá-lo, como se piscasse para o espectador e dissesse “sim, também sabemos que nada disso é sério”. Neste aspecto, a abordagem é diametralmente oposta àquelas observadas nas adaptações da DC (a recente trilogia Batman e, claro, O Homem de Aço), que atingiram bons resultados apostando na solenidade e numa atmosfera sombria para conferir peso às narrativas.

Aqui, o vilão mata um associado que ousa discordar de sua opinião e sacrifica doces animaizinhos sem qualquer indício de remorso (uma crueldade que o diretor Peyton Reed ressalta de forma óbvia ao incluir um close da ovelha que será morta) enquanto o herói protagoniza montagens de treinamento que usam ações repetidas para indicar o aprendizado do sujeito sem permitir que o público tenha uma ideia clara de quanto tempo se passou. Ao mesmo tempo, o roteiro abusa dos diálogos expositivos não só para explicar as motivações de cada personagem, mas também para expor seus passados traumáticos, apresentando-se igualmente frágil ao incluir obstáculos desnecessários que criam uma tensão artificial (por que Scott se dá apenas 20 minutos para abrir o cofre da casa de Hank, chegando a colocar limite de tempo no sistema que usa para desarmar o alarme?).

Redundante até mesmo ao criar um eco narrativo entre as relações de pai e filha mantidas entre Hank & Hope e Scott & Cassie, Homem-Formiga é competente do ponto de vista técnico, claro, embora seja decepcionante perceber como o design de som não consegue imaginar nada mais original do que ruídos de helicópteros para acompanhar as asas dos insetos quando o herói está miniaturizado, pecando também pelo excessivo uso de efeitos digitais para ilustrar sua perspectiva diminuta (que saudades dos efeitos práticos, mecânicos, que traziam uma solidez e uma verossimilhança inigualável a obras do tipo, mesmo que “precários”). Em contrapartida, mais uma vez o filme usa o humor para prender o público, criando divertidos momentos nos quais a urgência da ação é recontextualizada quando vemos a verdadeira escala na qual tudo acontece (destacando-se, neste aspecto, a sequência envolvendo um trenzinho “Thomas e Seus Amigos”). E para que não pareça que sou contra o uso de efeitos digitais por uma questão de princípios, devo elogiar a maquiagem digital empregada para rejuvenescer Michael Douglas na cena que abre a projeção e que representa o melhor uso da tecnologia que já testemunhei até hoje.

Mas, por incrível que pareça, o que enfraquece mesmo Homem-Formiga e o torna tão facilmente esquecível (por mais divertido que seja enquanto o assistimos) é a necessidade de se encaixar no universo de longas que a Marvel vem criando em suas sucessivas “fases” (teoricamente, esta produção encerra a “Fase 2”). Mostrando-se constantemente preocupado em fazer menções gratuitas aos outros títulos e personagens do estúdio, o filme acaba parecendo mais um trailer para os próximos capítulos, chegando a perder o interesse em sua própria história assim que chega ao fim, quando se entrega a cenas extras durante e após os créditos finais que já preparam o público para os próximos longas. Com isso, a impressão é a de que cada lançamento da Marvel tem, como principal objetivo, apenas atuar como propaganda daquele que virá a seguir – e não é à toa que, com o tempo, vai se tornando difícil distinguir um do outro na memória. E sejamos honestos: com exceção do primeiro O Homem de Ferro, de Capitão América 2 e Guardiões de Galáxia, algum outro título da Marvel parece preparado para resistir ao teste do tempo e ser lembrado daqui a 20 ou 30 anos? O Homem de Ferro 2? 3?! Algum dos dois Thor? Ou mesmo Vingadores 1 e 2?

Com isso, é triste constatar que o grande responsável por diminuir Homem-Formiga nem é mesmo Hank Pym, mas os executivos de um estúdio tão ganancioso que, no processo de criar expectativa para seus projetos, não hesita em torná-los esquecíveis e descartáveis.

Observação: como apontado no texto, há cenas extras durante e após os créditos finais.

18 de Julho de 2015

Videocast (sem spoilers):

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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