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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/08/2015 31/07/2015 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Paramount

Missão: Impossível - Nação Secreta
Mission: Impossible - Rogue Nation

Dirigido e roteirizado por Christopher McQuarrie. Com: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Jeremy Renner, Ving Rhames, Sean Harris, Simon McBurney, Tom Hollander, Jens Hultén e Alec Baldwin.

Em certo momento de Missão: Impossível – Nação Secreta (ou M:I 5), dois personagens se entreolham em silêncio por alguns segundos antes que um deles assuma voluntariamente a posição de escudo do outro em um tiroteio por saber que não pode ser atingido pelos oponentes por motivos que não pretendo revelar. Trata-se de um instante rápido, quase imperceptível, mas que resume perfeitamente a lógica de toda a franquia ao trazer indivíduos absurdamente competentes no que fazem encontrando saídas absurdas para situações idem – e se uso a palavra “absurdo” e suas variações repetidas vezes, é porque esta é a alma da série, que transforma implausibilidade em diversão ao ser estrelada por um indivíduo que, não à toa, é descrito aqui como sendo “a manifestação viva do destino”.


Escrito e dirigido por Christopher McQuarrie, responsável pelo roteiro de Os Suspeitos (a versão de Bryan Singer) e que já havia comandado Tom Cruise em Jack Reacher, este Nação Secreta resgata da série de tevê o nefasto Sindicato, que, funcionando como a SPECTRE de Missão: Impossível, está por trás de praticamente todos os principais crimes e atos de terrorismo ocorridos ao redor do mundo. Determinado a destruir a organização comandada pelo implacável Solomon Lane (Harris), o herói Ethan Hunt (Cruise) acaba sendo capturado, escapando da morte graças à ajuda da misteriosa Ilsa Faust (Ferguson). Porém, quando a Força Missão Impossível é desmantelada pelo diretor da CIA Alan Hunley (Baldwin), Hunt se torna um renegado, passando a ser perseguido pelo governo norte-americano ao mesmo tempo em que tenta concluir sua perigosa tarefa. Para isso, ele é auxiliado pelos antigos companheiros Benji Dunn (Pegg), Luther Stickell (Rhames) e William Brandt (Renner).

Se você acompanha as aventuras de Hunt desde o original, dirigido pelo mestre Brian De Palma em 1996, sabe que esta é a quarta vez (em cinco filmes) em que ele se torna um “renegado” e que em ao menos três ocasiões um traidor se infiltrou em sua agência – e o fato de ele continuar a trabalhar ali é uma prova de sua persistência ou de sua ingenuidade ou de sua estupidez ou de todas as alternativas anteriores. Seja como for, este novo capítulo mantém várias das tradições da série: a equipe tem que invadir um local superprotegido; as máscaras que transformam uma pessoa em outra voltam a dar as caras (tumtumtsss); personagens fazem jogo duplo (ou triplo); a ação se espalha por várias cidades do planeta; e, claro, equipamentos com tecnologia avançada são empregados (meu favorito aqui é uma revista que funciona como laptop).

No entanto, o fato de reciclar elementos não significa que M:I 5 é previsível ou aborrecido, já que cada um deles ganha contornos de novidade através do invencionismo de McQuarrie como roteirista e diretor: a invasão, por exemplo, agora envolve um desafio subaquático, ao passo em que as várias sequências de ação são conduzidas com maestria invejável, surgindo dinâmicas, surpreendentes e – ao contrário de tantos colegas de gênero – jamais confusas, permitindo que percebamos exatamente o que está ocorrendo. Aliás, neste aspecto os efeitos visuais são fantásticos, já que mergulham o espectador no meio de uma perseguição de motos, mantendo-nos diante de Tom Cruise e Rebecca Ferguson enquanto ziguezagueiam a 160 quilômetros por hora em meio ao tráfego intenso sem que jamais percebamos todas as trucagens necessárias para que a câmera faça movimentos impossíveis e para que os atores pareçam estar se arriscando. E se a maioria dos filmes de ação reservaria a cena que traz Hunt pendurado do lado de fora de um avião para o clímax da projeção, aqui ela abre a narrativa, o que demonstra uma coragem admirável por parte dos realizadores.

E se não cria expectativa com relação à tal cena do avião, que, afinal, dominou a campanha de marketing do projeto, M:I 5 também não faz o público esperar muito para ver Tom Cruise fazendo aquilo que se tornou sua marca registrada: correr – algo que ele já inicia o filme fazendo. A energia do ator, diga-se de passagem, é algo admirável, já que Cruise demonstra sua intensidade habitual em cada movimento que realiza. No entanto, desta vez ele pode também explorar um pouco seu talento pouco utilizado para a comédia, tanto em momentos mais sutis (como o rápido desvio de olhar ao perceber que está lutando com alguém muito maior) quanto em outros nos quais surpreende com o humor físico (como ao tentar saltar sobre o capô de um carro enquanto se encontra fragilizado). O mais curioso, porém, é constatar como ao longo dos filmes anteriores Cruise converteu Ethan Hunt em um verdadeiro ícone – e, assim, é hilário perceber como seu parceiro Benji (que Pegg vive com o talento habitual) parece encará-lo como alguém capaz de qualquer coisa, não manifestando qualquer dúvida, por exemplo, de que ele seria capaz de prender a respiração por minutos e minutos e minutos. (E alguém se surpreende ao constatar que, além de tudo, Hunt é um excelente desenhista?)

Ainda assim, a grande revelação de M:I 5 é, sem dúvida alguma, a sueca Rebecca Ferguson, que combina os papéis de femme fatale e heroína de ação com eficiência inquestionável – e num ano que já nos trouxe personagens femininas tão memoráveis quanto a Imperator Furiosa de Mad Max, a Ilsa Faust (que nome) de Ferguson não decepciona, chegando a salvar o protagonista várias vezes. Por outro lado, se Jeremy Renner, Ving Rhames e Alec Baldwin são limitados pelo relativamente pouco tempo de tela, o britânico Sean Harris transforma o vilão Solomon Lane em uma mistura de Blofeld e Moriarty, sugerindo inteligência, crueldade e perigo em medidas iguais.

Por falar em “inteligência”, este talvez seja o capítulo da franquia que traz a trilha mais ambiciosa e inteligente: composta por Joe Kraemer, ela emprega o tema clássico e contagiante de Lalo Schifrin de maneira pontual e certeira nos momentos-chave da ação, usando também apenas seus acordes iniciais para indicar mudanças de cenário (como na transição para o Marrocos). Mas a grande sacada de Kraemer reside na forma brilhante com que utiliza acordes da ária “Nessun Dorma”, de Turandot, para comentar a dinâmica entre Ethan e Ilsa: além de refletir as semelhanças no caráter do casal (que, assim como aquelas entre a Princesa Turandot e Calaf, originam a atração mútua que passam a sentir), a referência é certeira ao surgir pela primeira vez numa cena em que Ilsa apresenta três opções a Ethan, já que isto ecoa os três enigmas da ópera.

Sempre ágil e divertido, Missão: Impossível – Nação Secreta mantém, portanto, a coesão de uma série que, em 19 anos e cinco filmes, vem exibindo um fôlego tão surpreendente quanto o de seu formidável protagonista.

14 de Agosto de 2015

Leia também as críticas de Missão: Impossível 2, 3 e 4.

Videocast (sem spoilers):

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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