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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
24/09/2015 25/09/2015 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Universal

Evereste
Everest (II)

Dirigido por Baltasar Kormákur. Roteiro de William Nicholson e Simon Beaufoy. Com: Jason Clarke, John Hawkes, Josh Brolin, Naoko Mori, Michael Kelly, Ang Phula Sherpa, Pemba Sherpa, Elizabeth Debicki, Martin Henderson, Emily Watson, Sam Worthington, Ingvar Eggert Sigurõsson, Keira Knightley, Robin Wright e Jake Gyllenhaal.

“No Ar Rarefeito”, escrito pelo jornalista Jon Krakauer em 1997, é um dos melhores livros-reportagem que já li: detalhista em sua narração e sempre envolvente, o relato feito pelo escritor daquele que foi (até então) o maior desastre ocorrido no Evereste é tenso, comovente e inspirador. Transformado em um telefilme mediano ainda em 97 e em um excelente documentário de média-metragem em 98, o livro se concentrava nos esforços dos veteranos alpinistas Rob Hall e Scott Fischer para levar um grupo de escaladores menos preparados até o topo da montanha mais alta do mundo em uma expedição comercial inovadora, mas certamente irresponsável – e que acabou se transformando em tragédia quando uma violenta tempestade surpreendeu os aventureiros quando já desciam do cume.


O curioso é que esta nova versão roteirizada por William Nicholson e Simon Beaufoy não credita Krakauer como fonte, embora o empregue como personagem (vivido por Michael Kelly) – algo desonesto, mas não surpreendente, já que Hollywood certamente não veria motivo para pagar quem quer que seja para adaptar uma história amplamente documentada pela mídia (mesmo que o filme siga de perto a estrutura do livro). Reconhecendo o potencial dos fatos reais para gerar um bom exemplar de “filme-desastre”, Evereste adota as convenções do gênero ao escalar um elenco grandioso, atirá-lo em uma história em que cada personagem ocupa mais ou menos o mesmo tempo de tela e ancorar a narrativa através de um protagonista valente, estoico e com uma vida pessoal que facilita momentos dramáticos – algo bastante conveniente, já que o verdadeiro Rob Hall (Clarke) se encaixava relativamente bem nestas categorias.

Por outro lado, o longa evita clichês típicos destas superproduções ao resistir ao impulso de completar a trama com algum vilão artificial, compreendendo que os desafios geográficos e biológicos representados pela escalada já seriam mais que suficientes como antagonistas – e se o indivíduo interpretado por Josh Brolin, por exemplo, pode soar ocasionalmente arrogante, logo descobrimos que esta é uma maneira que encontra para ocultar a própria insegurança. Da mesma maneira, ainda que as expedições comandadas por Hall e Fischer (Gyllenhaal) sejam concorrentes, o roteiro se mantém fiel à afinidade que os dois homens tinham um com o outro e também à responsabilidade que sentiam para com seus clientes e que os levavam a colaborar na escalada mesmo que competindo nos negócios.

Esta atmosfera de camaradagem, diga-se de passagem, é construída com eficiência pelo elenco: Clarke e Gyllenhaal, por exemplo, estabelecem uma dinâmica que oscila entre a provocação bem-humorada e a amizade, ilustrando também com talento o respeito de Hall pela montanha (em uma passagem admiravelmente sutil, ele é visto recolhendo o lixo deixado por outros “turistas”) e os modos juvenis e extrovertidos de Fischer. Enquanto isso, Brolin e John Hawkes gradualmente forjam uma forte identificação entre seus personagens, que, por motivos completamente diferentes, mostram-se obcecados em atingir o cume, ao passo que Jon Krakauer provavelmente não deve ter ficado feliz em se ver convertido em um homem fraco e retraído. Fechando o elenco, Emily Watson, Keira Knightley e Robin Wright, três atrizes talentosíssimas, ficam relegadas a cenas nas quais falam ao telefone ou através de radiocomunicadores, já que até mesmo a alpinista encarnada por Naoko Mori se converte em uma quase ponta (e ainda há quem diga que Hollywood não é sexista e oferece oportunidades iguais para todos os sexos).

Dirigido com eficiência pelo islandês Baltasar Kormákur (do ótimo Sobrevivente, do mediano Dose Dupla e do fraco Contrabando), Evereste é uma obra que cria momentos palpáveis de tensão ao retratar a forma com que a tempestade atinge os alpinistas, surgindo como um soco forte e gelado quando já enfrentavam uma empreitada que seria normalmente difícil em condições meteorológicas perfeitas. Neste sentido, o design de produção de Gary Freeman e a direção de fotografia de Salvatore Totino se mostram fundamentais ao conseguirem combinar planos rodados em locação com outros capturados em sets de filmagem ou criados em computador, raramente permitindo que o espectador perceba quando a narrativa salta de um para outro (embora seja fácil supor que as fantásticas tomadas aéreas que revelam o cume sejam obra de efeitos digitais). Para completar, o projeto inclui imagens memoráveis de vilarejos construídos no meio das montanhas e de frágeis pontes de madeira penduradas sobre belíssimos vales que, por si só, já seriam dignas de nota.

Eficiente também em seu uso do 3D, o filme demonstra que Kormákur compreende bem a lógica da tecnologia que emprega, já que qualquer plano um pouco mais aberto surge com uma imensa profundidade de campo, salientando a magnitude das paisagens e, consequentemente, expondo a pequenez dos humanos diante da Natureza – o que me leva até a perdoar o uso pontual que o cineasta faz de rack focus (algo terrível em três dimensões).

O curioso é que, apesar de todas as suas virtudes técnicas, Evereste acaba sofrendo ao se ver obrigado a enfocar, depois de uma hora corretamente tensa, um terceiro ato que basicamente consiste de conversas e mais conversas via rádio e telefone. Além disso, como de hábito, os realizadores praticamente ignoram o heroísmo dos sherpas, já que veem mais sentido comercial em contemplar apenas os heróis brancos de sempre.

Ainda assim, um dos elementos mais importantes do fantástico livro de Krakauer acaba indo parar na tela e garantindo que o longa faça jus aos indivíduos que retrata: a obsessão fascinante que o Evereste exerce sobre homens e mulheres que, mesmo cientes da dor, do sofrimento, do frio e da grande possibilidade de morte que enfrentarão, não conseguem resistir ao impulso de plantar suas bandeiras no topo do mundo.

24 de Setembro de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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