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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
12/11/2015 18/09/2015 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Warner

Aliança do Crime
Black Mass

Dirigido por Scott Cooper. Roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth. Com: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, W. Earl Brown, Peter Sarsgaard, Juno Temple.

Caso já não conhecesse a história do gângster norte-americano Whitey Bulger graças ao ótimo documentário Whitey: United States of America v. James J. Bulger, confesso que enfrentaria dificuldades para aceitar os eventos recriados neste Aliança do Crime. Bandido que não tentava disfarçar a brutalidade de seus atos e que tampouco era um gênio do crime, Bulger ainda assim conseguiu empregar o FBI como seu exército particular em disputas territoriais com a máfia italiana em Boston, criando um pequeno império que durou cerca de duas décadas graças à proteção daqueles que supostamente deveriam estar empenhados em caçá-lo.


Baseado em livro escrito por Dick Lehr e Gerard O’Neill, o roteiro de Jez Butterworth (007 Contra Spectre) e do estreante Mark Mallouk adota múltiplos narradores ao empregar ex-associados de Bulger (Depp) que, agora delatores, assumem a tarefa de descrever sua escalada no submundo do crime, suas motivações e os vários esquemas ilegais nos quais se envolveu ao longo dos anos – o que, por vezes, acaba resultando numa exposição excessiva que parece romper a importante convenção cinematográfica do “não conte; mostre”, culminando em problemas de ritmo pontuais. Por outro lado, os vários narradores acabam funcionando como uma das várias referências a um dos clássicos seminais do gênero, Os Bons Companheiros, servindo também para ao menos tornar as diversas elipses menos incômodas.

Com um trabalho de recriação de época (ou melhor: épocas) excepcional graças ao impecável trabalho da designer de produção Stefania Cella (A Grande Beleza), o filme é um curioso estudo sobre como o carisma pode ser uma arma perigosa quando exercido pela pessoa errada: amado por todos em sua vizinhança, Bulger era um sujeito que, mesmo com uma aparência ameaçadora, conseguia seduzir crianças e velhos, homens e mulheres, criminosos e agentes da lei com uma facilidade surpreendente, inspirando um sentimento de lealdade instrumental na manutenção de seu poder. E, neste aspecto, a escalação de Johnny Depp para interpretá-lo é certeira, já que trata-se de um ator que construiu toda uma carreira a partir de composições que, mesmo cobertas por quilos de próteses e maquiagem, exalavam um carisma similar ao do Whitey verdadeiro, atraindo o espectador para criações moralmente ambíguas como Sweeney Todd, Barnabas Collins, John Dillinger, Jack Sparrow, Willy Wonka e George Jung, entre outros.

Claro que aqui há um problema óbvio: ao contrário do que ocorria em boa parte dos demais longas de Depp, o personagem que interpreta aqui faz parte de um mundo realista e, assim, a maquiagem empregada para transformá-lo em Bulger inicialmente acaba funcionando mais como distração do que como ferramenta de composição. Surgindo calvo, com os dentes anteriores escurecidos, as sobrancelhas constantemente arqueadas e com lentes de contato que conferem aos seus olhos uma cor mais apropriada a um demônio, o Whitey de Johnny Depp torna-se ainda mais artificial por conhecermos bem o rosto por baixo das próteses. Ainda assim, à medida que a projeção avança e nos acostumamos com o visual do sujeito, o ator consegue nos envolver o suficiente para que deixemos de estranhar sua estética e passemos a apreciar sua performance.

Quando isso acontece, até mesmo sua aparência demoníaca começa a funcionar narrativamente, já que a direção de Scott Cooper constantemente o retrata como uma criatura que parece ter saído diretamente das trevas para atormentar a humanidade, enquadrando-o em ângulos baixos que o transformam num gigante assustador – e é por isso, também, que as cenas que buscam humanizá-lo geralmente soam pouco eficazes, permitindo que percebamos o esforço do cineasta para mostrar uma faceta vulnerável que simplesmente não combina com o personagem. Em contrapartida, Joel Edgerton concebe o agente do FBI John Connolly de forma um pouco mais tridimensional, contrastando sua vaidade crescente com uma insegurança patente ao conversar com Bulger ou ao ser confrontado por um promotor mais íntegro do que aquele com o qual costumava lidar. E se Rory Cochrane aproveita ao máximo a oportunidade para converter Steve Flemmi, braço direito de Whitey, num indivíduo complexo e interessante, Peter Sarsgaard praticamente rouba o filme em suas duas ou três cenas ao viver um homem cuja aparência frágil oculta uma natureza ao mesmo tempo perigosa e amedrontada.

Comprovando como Os Bons Companheiros permanece incrivelmente influente mais de um quarto de século após seu lançamento, Aliança do Crime não só se inspira obviamente na forma como o jovem clássico de Scorsese utiliza suas músicas incidentais, mas chega até mesmo a criar sua própria versão da inesquecível cena que trazia Joe Pesci aterrorizando Ray Liotta com seu “How am I funny?”, substituindo o caso envolvendo o policial por um questionamento acerca de uma receita culinária.

Mas mesmo sendo um bom esforço, esta obra protagonizada por Johnny Depp consegue mesmo é nos lembrar de como o sucesso artístico de Os Bons Companheiros é algo difícil de se alcançar.

12 de Novembro de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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