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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
10/03/2016 18/03/2016 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Paris Filmes

A Série Divergente: Convergente
The Divergent Series: Allegiant

Dirigido por Robert Schwentke. Roteiro de Noah Oppenheim, Adam Cooper e Bill Collage. Com: Shailene Woodley, Theo James, Miles Teller, Zoë Kravitz, Ansel Elgort, Maggie Q, Xander Berkeley, Bill Skarsgård, Jonny Weston, Nadia Hilker, Rebecca Pidgeon, Naomi Watts e Jeff Daniels.

A cada novo capítulo da série, Divergente comprova ser pouco mais do que um sub-Jogos Vorazes; uma narrativa juvenil que usa uma distopia, com suas metrópoles destruídas e líderes autoritários, como pano de fundo para uma aventura clichê e tola. Aliás, devo um pedido de desculpas à saga protagonizada por Jennifer Lawrence por fazer esta comparação, já que os dois projetos estão tão distantes um do outro quanto Marlon Brando estaria de Theo James.


Retomando a trama a partir da descoberta feita ao final de Insurgente, este novo capítulo traz a divergente Tris (Woodley) determinada a atravessar os muros de Chicago a fim de descobrir quem são os responsáveis pela mensagem deixada no aparato que serviu de centro ao filme anterior. Apoiada por Quatro (James), a garota percebe que a nova líder da cidade, Evelyn (Watts), está se transformando numa nova versão da vilã anterior, Jeanine – algo que o filme sutilmente indica ao trazer a seguinte fala: “Ela não demorou a cometer os mesmos erros que Jeanine” – e também ao incluir uma cena na qual Quatro aponta para a mãe que esta vem se transformando em uma cópia da líder deposta. Assim, Tris e o namorado escapam de Chicago ao lado de Caleb (Elgort), Peter (Teller) e Christina (Kravitz), sendo resgatados pelos habitantes/soldados de um mundo com tecnologia bastante superior e liderado por David (Daniels), que não demora a explicar a Tris que esta pode ajudá-lo em sua pesquisa genética envolvendo os “puros” e os “danificados”.

Neste momento, claro, Tris deveria interromper a explicação do sujeito e dizer algo como “Peraí, sr. Hitler. Como é que é?!”. Porém, como Caleb não sabe nem o que é um “aeroporto”, a possibilidade de Tris conhecer a história do nazismo é mínima – o que não a impediria de perceber a natureza de seu novo amigo de forma bem mais rápida. Aliás, este é um dos problemas da série: se Jogos Vorazes mantinha coesão em suas alegorias sobre autoritarismo e propaganda midiática, Divergente prefere atirar para todos lados, substituindo o comentário metafórico sobre segregação racial/sexual/ideológica por uma discussão óbvia (e, de modo geral, anacrônica) sobre pureza racial que só chocará aqueles que ainda encaram a Ku Klux Klan como algo relevante. Fora isso, o roteiro de Noah Oppenheim, Adam Cooper e Bill Collage não faz o menor sentido – dos grandes eventos (como David espera “limpar o genoma” da população, mesmo?) aos menores (como Tris sabia que precisaria de seis equipamentos para escalar o muro se não podia antecipar que Caleb e Peter se uniriam a eles?).

Os problemas no roteiro, contudo, são insignificantes se comparados à direção amadora de Robert Schwentke, que chega a tentar plagiar Mad Max: Estrada da Fúria ao incluir um plano em câmera lenta no qual vemos um carro saltando num deserto (e nem preciso apontar que a comparação aqui também não é favorável a Convergente). Cineasta sem imaginação que chega a telegrafar para o espectador a morte de determinado(a) personagem de tal maneira que qualquer impacto que esta poderia provocar é sabotado, Schwentke parece não ter ideia do conceito de “linguagem cinematográfica”, levando sua câmera a agitar-se durante uma conversa passageira entre Quatro e Evelyn, mas não em outros momentos nos quais o quadro móvel poderia ressaltar a tensão dos acontecimentos.

Sem dominar também a mise-en-scène ao conceber sequências de ação confusas e nada empolgantes, o diretor chega a demonstrar verdadeira preguiça ao coordenar passagens importantes como aquela na qual um subalterno de Evelyn percebe a fuga de dois personagens – que basicamente caminham no meio de uma multidão sem serem percebidos. (E não consigo nem tentar explicar o momento no qual Christina olha pelo binóculo e diz que a “costa está limpaembora tenhamos acabado de ver um plano subjetivo que trazia um carro dos inimigos passando diante do muro.) Como se não bastasse, a narrativa ainda é prejudicada pelo (aparentemente) baixo orçamento do projeto, já que os efeitos visuais são geralmente medíocres, soando como versões iniciais enviadas pelos técnicos que acabaram sendo aprovadas por engano pelos realizadores.

E o que dizer dos diálogos? Quando os heróis escapam de Chicago e se deparam com um terreno desértico (o que aconteceu com a área verde vista cercando Chicago no primeiro filme?), Caleb logo avista uma cratera e, do alto de sua posição como “Erudito”, proclama: “Este buraco parece radioativo”, o que, para todos os efeitos, o converte em um contador Geiger humano. Já em outro instante, para salientar o descontrole sedento de sangue da turba que segue Evelyn, podemos ouvir gritos de “Vamos executar mais alguns!”, o que, confesso, provocou meu riso, não choque. Esta obviedade dos diálogos, vale apontar, é acompanhada pela do design de produção: a escada na sala de David é helicoidal (percebem? Ele faz manipulação genética!), Tris passa a usar preto ao decidir agir depois de vestir branco o filme inteiro e, claro, os uniformes dos soldados comandados pelo personagem de Jeff Daniel são vermelhos (embora, neste caso, haja também uma justificativa diegética, já que é a melhor camuflagem no terreno devastado do planeta).

Já o elenco, coitado, faz o que pode com os personagens esquemáticos: Jeff Daniels muda de comportamento segundo as necessidades de cada momento, Miles Teller continua a se divertir com o egocentrismo de Peter, Ansel Elgort usa o autismo de Caleb como desculpa para sua inexpressividade e Theo James faz cara de bravinho o tempo todo. Já Shailene Woodley, uma atriz tão promissora, continua a desperdiçar um tempo precioso de sua carreira com uma franquia que simplesmente não justifica seu esforço e que tem conseguido apenas convertê-la em uma intérprete apagada e inexpressiva.

Habitado por indivíduos aparentemente imunes a quedas brutais de naves em alta velocidade, Convergente ao menos representa algo inédito em minha carreira, já que, depois de quase 22 anos, esta é a primeira vez em que incluo numa crítica o nome de um assistente de direção (John Wildermuth) e a observação de jamais ter visto figurantes tão ruins (responsabilidade do tal assistente): seguindo marcações de cena que não fazem o menor sentido nas sequências em que devem demonstrar pânico, os figurantes riem em cenas dramáticas e chegam a caminhar de forma artificial, o que deve representar algum novo tipo de recorde.

E, ainda assim, observá-los em sua falta de talento representou provavelmente o aspecto mais divertido de assistir a este longa.

11 de Março de 2016

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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