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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/06/2016 01/01/1970 4 / 5 5 / 5
Distribuidora
Downtown Filmes e Paris Filmes

Mais Forte que o Mundo - A História de José Aldo
Mais Forte que o Mundo - A História de José Aldo

Dirigido por Afonso Poyart. Roteiro de Afonso Poyart e Marcelo Rubens Paiva. Com: José Loreto, Cléo Pires, Milhem Cortaz, Claudia Ohana, Rafinha Bastos, Paloma Bernardi, Rômulo Neto, Robson Nunes, Paulo Zulu e Jackson Antunes.

No documentário Champs, lançado em 2015 e que resgata as trajetórias dos boxeadores Mike Tyson, Evander Holyfield e Bernard Hopkins, um dos elementos estabelecidos como sendo comuns entre aqueles que se aventuram no esporte diz respeito às origens humildes dos atletas, que encontraram, no ringue, uma forma de escapar da miséria – e, não à toa, Sylvester Stallone já demonstrara compreender isso ao criar seu Rocky Balboa.


Pois se Rocky vinha de uma realidade de pobreza, ainda assim era um aristocrata se comparado a José Aldo Jr, lutador brasileiro de MMA que inspirou esta cinebiografia dirigida por Afonso Poyart e co-roteirizada por este ao lado de Marcelo Rubens Paiva: nascido em Manaus, José Aldo (Loreto) cresceu ao lado das duas irmãs em um lar mantido com dificuldade pelo pai (Antunes), que, mesmo tendo seus bons momentos ao lado da família, era frequentemente transformado pelo álcool em um marido abusivo que descontava suas frustrações no corpo e no rosto da esposa Rocilene (Ohana). Farto daquela realidade – e tranquilo com relação à segurança da mãe depois que esta abandona o marido -, o rapaz se muda para o Rio e, com a ajuda do amigo Loro (Bastos), se estabelece na academia de Dedé Pederneiras (Cortaz) com a ambição de tornar-se lutador profissional.

Acompanhando alguns bons anos da carreira do protagonista, Mais Forte que o Mundo poderia facilmente ter se apresentado como uma coletânea episódica de incidentes em sua vida, mas evita este equívoco graças à ótima sacada de Poyart e Paiva, que estruturam a narrativa em torno da relação de Aldo com o pai e sua luta interna para encontrar algum tipo de paz. Vivido por Jackson Antunes como um homem que consegue exibir ternura em um momento apenas para se converter em um monstro em outro (“Quando seu pai está bem, ele é ótimo”, defende sua pobre esposa), seu Aldo é a inspiração e o pesadelo do filho – e quando este pergunta por que o pai nunca deixou a cidade, a resposta é o resumo perfeito de seu dilema: “Pra todo canto que eu vou, eu acabo indo junto”. Pois este é exatamente o drama de Aldo Jr., que, mesmo viajando milhares de quilômetros, não consegue deixar para trás os efeitos de toda uma vida atormentada pela incerteza quanto ao instante em que o pai voltará a cometer brutalidades que servirão de alimento para seus pesadelos recorrentes. (E esta mistura de peso e carinho é resumida por um breve plano-detalhe que destaca a mão do sujeito sobre o ombro do rapaz.)

Trazendo a marca de sua dura infância (e, de certa forma, da negligência do pai) no rosto, o protagonista é também afligido, mesmo que não perceba, pela ameaça de ser um “Júnior”, já que a possibilidade de se tornar uma nova versão do pai é como um vírus que ele luta para conter, mas sem muito sucesso, já que a raiva acumulada ao longo dos anos jorra constantemente ao menor sinal de provocação – e se esta semente de ódio é facilmente notada quando o vemos castigando um latão que faz as vezes de um saco de areia, pode também ser observada em outras ocasiões menos óbvias (até sua forma de morder uma maçã soa como um gesto de agressividade, num bom exemplo do ótimo trabalho de Loreto, que, de tão convincente, me fez acreditar se tratar de um lutador real).

Sem temer retratar Aldo Jr. como alguém distante do que poderíamos considerar como o retrato clássico do herói, Mais Forte que o Mundo (é sintomático que eu constantemente quase escreva “Ódio” no lugar de “Mundo”) sabe que o atleta é um homem cujos demônios interiores o transformam numa criatura destrutiva e autodestrutiva, sendo fascinante como os realizadores conseguem conferir um rosto – igualmente marcado por uma cicatriz – a este impulso, justificando o curioso crédito de "Consultoria psicológica, simbólica e mitológica” que surge nos letreiros finais).

Enriquecido pela sempre impecável preparação de elenco proporcionada por Fátima Toledo (que só encontra igual em Sérgio Penna), o filme se apresenta como um conjunto de performances memoráveis: como Rocilene, Claudia Ohana exibe uma vulnerabilidade tocante que contrasta com a força da Viviane interpretada por Cléo Pires, que vem cimentando seu lugar como uma espécie de Michelle Rodriguez brasileira (leia-se: que seduz sem sacrificar a faceta durona, perfeitamente capaz de demolir qualquer homem com meia dúzia de golpes certeiros – e que ela exibiu muitíssimo bem no subestimado Operações Especiais). Enquanto isso, Milhem Cortaz compõe Dedé como uma figura paterna para Aldo, combinando preocupação e dureza na medida certa, ao passo que Rafinha Bastos – e sei que muitos se surpreenderão – exibe um potencial como ator que espero ver explorado em produções futuras.

Mas se o elenco merece elogios, o mesmo pode ser dito sobre a excelente direção de Afonso Poyart, que eu já havia aplaudido ao escrever sobre 2Coelhos, seu trabalho de estreia: extremamente hábil ao lidar com sequências de ação, o cineasta demonstra talento tanto ao construir as cenas que envolvem lutas (que primam pela coreografia e pela decupagem que traz intensidade aos golpes e ao desgaste dos combatentes) como aquela que envolve uma perseguição de carro (e como é bom voltar a ver uma capotagem que não é fragilizada por efeitos digitais). Por outro lado, o diretor continua a exibir a mesma tendência aos excessos que observei em seu primeiro longa, já que jamais permite que seu filme respire, insistindo numa câmera que não consegue se manter estática nem ao enfocar rapidamente um gato que observa os personagens – e, da mesma forma, os planos que trazem a objetiva presa a porretes, garrafões d’água e cordas de pular são apenas distrações sem função, o mesmo se aplicando àqueles que enfocam um personagem através de um vaso sanitário ou atravessam uma rede de vôlei. O que Poyart parece não compreender (por mais competente que seja) é que a narrativa se beneficiaria imensamente de uma pausa como aquelas que o veterano George Miller inteligentemente oferece em Mad Max. Ao empregar o ramping (mudança no frame rate, alterando a velocidade normal para câmera lenta, por exemplo) em praticamente todas as lutas de Aldo, o cineasta basicamente anula qualquer efeito que o recurso poderia provocar nos combates mais importantes, o que é, no mínimo, um desperdício considerável que poderia ter sido evitado com um pouco mais da autodisciplina que, ironicamente, falta também ao protagonista do filme.

Porém, este não é o único tropeço do projeto, que ainda usa um dos temas inesquecíveis do mestre Ennio Morricone de forma absurda, sem compreender que uma música assim traz consigo todo um universo próprio que não encontra eco na luta entre dois indivíduos que se enfrentam pela primeira vez. Em contrapartida, Poyart é infinitamente mais bem sucedido ao usar “Baby”, de Caetano Veloso, para embalar um momento-chave da projeção que metamorfoseia uma luta em um encontro romântico – que, por sua vez, estabelecerá uma bela rima narrativa com outro que transforma movimentos de combate em um pedido de casamento. Da mesma maneira, é preciso aplaudir o design de som da produção, que converte os socos do treino de Aldo em uma batida da trilha composta por Samuel Ferreira e Felipe Junqueira, e também a montagem repleta de energia de Lucas Gonzaga, que jamais permite que a ação se torne incompreensível.

Comprovando a eficácia dramática de sua construção ao comover o espectador de forma inesperada nos minutos finais da projeção, Mais Forte que o Mundo é a confirmação de que Afonso Poyart é – como o homem que retrata aqui – uma voz que merece ser escutada e aplaudida.

Mas que certamente se tornará mais forte à medida que se tornar mais disciplinada.

Observação: os letreiros finais trazem dois erros que denunciam uma falta de atenção lamentável. Um deles é de digitação (falta um “n” na palavra “tornando”); outro, de concordância (“tem” no lugar de “têm”) – ambos imperdoáveis em uma produção tão cuidadosa em seus demais elementos. Feio demais.

26 de Junho de 2016

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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