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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/09/2016 16/09/2016 3 / 5 2 / 5
Distribuidora
Paris

Bruxa de Blair
Blair Witch

Dirigido por Adam Wingard. Roteiro de Simon Barrett. Com: James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid, Brandon Scott, Wes Robinson e Valorie Curry.

Quando A Bruxa de Blair foi lançado, em 1999, a sensação era a de que um novo fôlego chegava a um gênero frequentemente prejudicado por realizadores que confundiam o susto provocado por um acorde alto na trilha sonora com algum grande e inovador ato criativo – e o gênero já havia se tornado tão clichê que acabara gerando uma franquia (Pânico) dedicada a empregar suas convenções de forma assumidamente metalinguística. Convincente a ponto de levar muitos espectadores à crença de que viam algo real (lembrem-se: a Internet engatinhava), A Bruxa de Blair empregou com tanta eficiência a estrutura de found-footage estabelecida quase 20 anos antes por Holocausto Canibal que acabou por criar um subgênero próprio, dando origem a títulos como [REC], Atividade Paranormal, Cloverfield e Apollo 18, entre tantos outros.


(Gerou também uma continuação, O Livro das Sombras, mas é melhor seguirmos o exemplo desta nova produção e esquecermos que aquela coisa existiu.)

Dirigido por Adam Wingard, que já havia se aventurado pelo found-footage em V/H/S e V/H/S 2, este novo capítulo da série acompanha um grupo de jovens que retorna à floresta na qual os três personagens do original haviam desaparecido depois que um cartão de vídeo é encontrado, possivelmente trazendo novas revelações sobre o destino do trio – uma pista que James (McCune), como irmão de Heather (a protagonista do filme de 99), não pode ignorar. O que vem a seguir vocês já sabem.

E este é o problema: sem a vantagem de trazer algo de novo em sua forma ou em seu estilo, Bruxa de Blair acaba por depender das inovações tecnológicas que o separam do anterior, fazendo um grande esforço para demonstrar como agora os personagens contam com câmeras GoPro (o que resolve um dos problemas mais comuns deste tipo de narrativa ao justificar como continuam gravando mesmo em momentos de pânico), drones, rádio-comunicadores e, claro, GPS. Por outro lado, é uma pena que o filme não aproveite realmente estes recursos: a visão aérea do drone jamais é utilizada para criar suspense e a câmera que é presa em uma árvore nada revela de interessante.

Aliás, descartar elementos depois de introduzidos é algo recorrente no projeto: a “infecção” que toma conta de uma garota não leva a lugar algum (e o que diabos era aquilo em sua perna?), a semente de um romance – algo já desnecessário desde o princípio – é ignorada depois de um bom tempo de investimento e a bandeira dos confederados presente na sala de um personagem é usada para criar uma tensão racial pontual que tampouco tem papel na história. (Por falar nisso, adivinhem quem é o(a) primeiro(a) a ser vitimado(a), seguindo a velha convenção do gênero?) E se o protagonista James parece um cara sensato e equilibrado na maior parte do tempo, estas características são abandonadas sem qualquer pudor quando o roteiro passa a considerar necessário um certo descontrole, quando então ele começa a gritar “Heather!” feito um imbecil insano.

O curioso é que até mesmo a disciplina estética do diretor (responsável pelos ótimos Você é o Próximo e O Hóspede) acaba por pesar contra o longa: se no original as câmeras eram operadas pelos atores, o que fragilizava visualmente a narrativa, mas conferia tensão e verossimilhança à experiência, aqui os enquadramentos cuidadosos de Wingard removem estas duas virtudes. Ele até tenta sugerir improviso na movimentação da câmera, mas o fato é que os planos jamais deixam de estrategicamente enfocar o elenco e de capturar detalhes relevantes do cenário e das atuações.

No entanto, Bruxa de Blair também conta com sua parcela de virtudes: a desorientação temporal e espacial provocada pela floresta é um conceito interessante; a introdução de alguns efeitos visuais pontuais é acertada (como o que ocorre com as barracas); a limitação imposta pelo facho das lanternas cria um suspense eficaz ao insinuar uma ameaça próxima e o design de som é rico ao mergulhar o espectador num ambiente cercado por galhos estalando, uivo de ventos e gritos distantes. Além disso, a aterrorizante imagem de figuras viradas para o canto dos aposentos, concebida pelo original, permanece eficiente e a direção de arte capricha nos detalhes da velha casa com suas madeiras podres, marcas de mãos nas paredes e corredores estreitos. Para completar, a circularidade proposta pelo roteiro pode não ser original, mas é instigante.

Contando com o benefício de imediatamente colocar o espectador na pele dos heróis ao empregar continuamente a câmera subjetiva e intensificar a identificação primária cinematográfica postulada por Christian Metz, Bruxa de Blair é sabotado, em contrapartida, pelo velho problema do subgênero found-footage: o fato de sabermos exatamente como tudo irá acabar.

E se há algo em que esta continuação faz jus ao original, é no anticlímax que acompanha o público para fora da sala de projeção. O que não é exatamente uma vantagem.

15 de Setembro de 2016

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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