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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/09/2016 23/09/2016 4 / 5 3 / 5
Distribuidora
Sony

Sete Homens e um Destino
The Magnificent Seven

Dirigido por Antoine Fuqua. Roteiro de Nic Pizzolatto e Richard Wenk. Com: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Sensmeier, Haley Bennett, Luke Grimes, Matt Bomer, Cam Gigandet, Jonathan Joss e Peter Sarsgaard.

Quando Akira Kurosawa concebeu seu clássico Os Sete Samurais, talvez não imaginasse a natureza universal e duradoura da história que estava contando. Creditado por praticamente inventar a estrutura “equipe de anti-heróis contrastantes é montada para cumprir uma missão”, o longa de 1954 usava a jornada dos personagens-título para retratar o desejo de redenção e pertencimento nutrido por estes, advogando que, algumas vezes, sacrificar-se em prol do próximo poderia representar o feito capaz de definir a vida de uma pessoa. Assim, quando seis anos depois a obra ganhou uma refilmagem hollywoodiana, bastou ao diretor John Sturges substituir um ícone cultural por outro (cowboys no lugar de samurais) para que a produção ressoasse junto a um novo público.

Pois mais de meio século depois ainda há força nesta premissa: agora adaptada pelos roteiristas Nic Pizzolatto (True Detective) e Richard Wenk (16 Quadras, Os Mercenários 2), a nova versão de Sete Homens e um Destino mantém alguns diálogos e situações idênticos aos vistos nas anteriores, ganhando um novo contexto, porém, apenas ao “modernizá-los” através da diversificação de seu elenco, que substitui alguns dos sete homens brancos do filme de 1960 por integrantes de minorias. (É bom lembrar que, embora vivesse um mexicano chamado “Chico” naquele longa, Horst Buchholz era alemão.)

O Cinema, claro, tem esta propensão inata de refletir o mundo à sua volta – e não é à toa que, pela sexta vez em 22 anos de carreira*, sinto-me compelido a retornar a Eric Rohmer, que dizia que todo filme tende a funcionar como um documento de sua época. Sim, pode não ser historicamente correto trazer, numa narrativa ambientada no Velho Oeste, um grupo liderado por um pistoleiro negro e que inclui harmoniosamente um mexicano, um asiático e um índio (especialmente se considerarmos que ninguém ao redor parece notar ou comentar isso), mas a realidade nunca foi um bom critério para se avaliar a Arte – principalmente em um projeto cujo principal objetivo é entreter, não promover um reflexo acurado do oeste norte-americano no final do século 19. Assim, certamente é bem mais interessante (além de dramaticamente rico) investir em um elenco diversificado do que se restringir a variações dos velhos tipos que povoam mais de um século de westerns desde que O Grande Roubo do Trem inaugurou o gênero em 1903.

Aliás, a modernização de Sete Homens e um Destino não envolve somente seus (anti-)heróis, mas também seu vilão: se antes tínhamos um (brilhante) Eli Wallach refletindo os ressentimentos ainda recentes dos mexicanos para com os Estados Unidos (a batalha do Álamo e a anexação do Texas tinham pouco mais de cem anos), é apenas natural que o novo antagonista reverbere a frustração dos milhões de norte-americanos que perderam suas casas e suas economias no estouro da bolha imobiliária (e sua exploração pelos bancos) em 2008. Com isso, se os bandidos de Kurosawa e Sturges queriam tomar boa parte das colheitas de suas vítimas, agora o personagem de Peter Sarsgaard quer se apropriar de seus lares, pagando uma mixaria por tudo que construíram – e é divertido observar como o ator se entrega à vilania completa, não hesitando em abraçar a caricatura com seu cavanhaque, os cabelos pregados pelo óleo de pentear e os olhares ameaçadores de baixo para cima (e não, não tenho dúvidas de que a caricatura é intencional, já que de cara Bogue intimida uma criança, mata inocentes e põe fogo na igreja do vilarejo, faltando só chutar um cachorro e cuspir em um bebê ao sair de cena).

Ao longo de toda a projeção, por sinal, o diretor Antoine Fuqua deixa bastante claro que sua versão de Sete Homens e um Destino jamais se esquece de pertencer a um gênero, abraçando de forma quase metalinguística suas principais convenções. É claramente deliberada, por exemplo, a forma como o cineasta traz o protagonista entrando em um saloon (enfocando inicialmente suas botas e subindo para revelar seu rosto ao empurrar as portas de madeira vai-e-vem) ou pistoleiros girando suas armas antes de colocá-las de volta no coldre, sendo um ponto fora da curva, portanto, que a fraca trilha sonora de James Horner (sua última, infelizmente) não flerte com as gaitas e os assobios típicos das composições mais conhecidas do gênero (e quando o tema clássico de Elmer Berstein é ouvido durante os créditos finais, acaba servindo apenas para ressaltar como a música que veio antes era medíocre).

Ciente da importância de desenvolver de alguma forma seus personagens a fim de levar o público a se importar com seus destinos, esta refilmagem é inteligente ao encontrar espaço para incluir breves momentos nos quais praticamente todos ganham a chance de expor alguma inquietação/aspiração/fragilidade particular, deixando que o peso e os nomes de seus intérpretes preencham o restante das lacunas. Exibindo o carisma e a intensidade de hábito, Denzel Washington confere dignidade ao líder do grupo, enquanto Ethan Hawke (seu parceiro em Dia de Treinamento, também dirigido por Fuqua), com fortes e precoces linhas de expressão, projeta a exaustão emocional de um homem que passou sua vida tirando a dos outros. E se Chris Pratt encarna Faraday como um indivíduo cujo sorriso antes dos confrontos sugere um prazer niilista diante da batalha, Vincent D’Onofrio (praticamente completando a transformação em Orson Welles iniciada em Ed Wood) expõe sua natureza de character actor ao contrapor a imponência física de seu Jack Horne à voz frágil e ao olhar de quem já viu sangue demais. Para finalizar, Haley Bennett surge completamente diferente do que víramos em Hardcore: Missão Extrema, substituindo a postura de femme fatale pela de mulher estoica e surpreendentemente forte, ao passo que o sul-coreano Byung-hun Lee parece reviver o “cowboy” que interpretou no ótimo Os Invencíveis, incluindo até mesmo suas coreografias com as facas. (Já Manuel Garcia-Rulfo e Martin Sensmeier se veem mais limitados em seu tempo de tela menor, demonstrando que nem tudo mudou em Hollywood.)

Contando com uma sequência final que talvez seja a mais sangrenta de todas as versões, Sete Homens e um Destino pode não ter a densidade temática de Os Sete Samurais ou a aura icônica do filme de Sturges, mas é suficientemente eficaz em sua construção para não se envergonhar diante de seus antecessores. E isto, por si só, já é um feito considerável.

* As críticas que mencionavam a frase de Rohmer: Batman Begins, O Homem-Urso, Getúlio, RoboCop e Que Horas Ela Volta?.

20 de Setembro de 2016

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Confira também o videocast SEM spoilers sobre o filme:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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