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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/10/2016 28/10/2016 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Sony

Inferno
Inferno

Dirigido por Ron Howard. Roteiro de David Koepp. Com: Tom Hanks, Felicity Jones, Ben Foster, Sidse Babett Knudsen, Irrfan Khan, Omar Sy, Ana Ularu, Ida Darvish.

Inferno faz jus ao livro de Dan Brown que o inspirou: é ágil, moderadamente divertido, irritantemente tolo e é prontamente esquecido alguns minutos depois de encerrado. Sem contar com o ar de “novidade” de O Código Da Vinci e abandonando qualquer pretensão temática de Anjos & Demônios, o terceiro filme estrelado pelo criptologista Robert Langdon (Hanks) aposta na velocidade para despistar os absurdos de sua trama, avançando sem parar por todo tipo de buraco na expectativa de que o público não tenha tempo de percebê-los.

Esta estratégia, aliás, já é adotada desde o primeiro segundo da narrativa, que inicia in media res (ou seja: quando a história já havia começado, atirando o público no meio da ação) enquanto o bilionário Bertrand Zobrist (Foster) foge de dois perseguidores e é encurralado no alto de uma torre – e na cena seguinte o longa insiste na abordagem ao trazer o protagonista despertando sem memória em um hospital e conhecendo a dra. Sienna Brooks (Jones), com quem passa a fugir de uma ameaça cuja natureza desconhece.

A amnésia de Langdon, por sinal, é uma destas muletas narrativas artificiais geralmente empregadas por escritores preguiçosos, que as usam para empurrar a história adiante quando precisam introduzir alguma informação nova através de lembranças que retornam convenientemente quando são mais necessárias. Como se não bastasse, o roteiro de David Koepp (um profissional bem melhor do que sugere este filme) emprega o ferimento do herói para criar sustos bobos resultantes de alucinações – e mesmo a câmera subjetiva utilizada para ilustrar o ponto de vista do sujeito é ridícula ao subitamente incluir até mesmo imagens em negativo (algo que, ouso dizer, condição fisiológica alguma criaria).

Abarrotado de flashbacks (até mais do que nos capítulos anteriores da série), Inferno tem uma estrutura tão problemática que chega a interromper a narrativa em seu clímax para incluir longas sequências do passado que nada acrescentam à trama e que – ainda pior – em certo momento são seguidas pelo monólogo de um personagem explicando tudo que qualquer integrante da plateia já havia concluído bem antes, duplicando o erro. E se reclamei dos diálogos expositivos de Anjos & Demônios, eles se tornam até sutis se comparados com os que ouvimos aqui.

Funcionando mais como panfleto turístico do que como thriller de ação, este novo esforço do diretor Ron Howard nos transporta a locações fabulosas, é verdade, mas nem todas as paisagens mais icônicas do planeta poderiam disfarçar os rombos da trama. Como qualquer sinopse da obra aponta, por exemplo, Langdon aqui tenta impedir que uma ameaça global seja disparada – mas a desculpa empregada para explicar por que esta tem data e local para iniciar é patética, deixando claro que esta é uma mera (e péssima) justificativa para provocar uma convencional “corrida contra o tempo” (até a expressão é clichê). Aliás, para um filme que repete tanto certas informações, é notável reparar como elementos importantes são simplesmente ignorados – e perguntem-se, por exemplo, o que houve com o tal Ignazio, amigo do protagonista, e perceberão que esta é uma resposta que o roteiro não se preocupa em oferecer.

Mas não é só: observem como a personagem de Felicity Jones é apresentada como uma mulher metódica – para não dizer obsessiva -, chegando a arrumar cuidadosamente os objetos sobre uma mesa (que ganham até mesmo seu próprio plano-detalhe) e notem que este traço de sua personalidade jamais volta a ser mencionado, plantando uma pista que jamais leva a uma recompensa. E como a Organização Mundial de Saúde poderia prever o ritmo em que a ameaça se espalharia pelo planeta sem conhecer sua natureza biológica? Para completar, nem mesmo a “revelação” que ocorre ao fim do segundo ato surpreende de fato, já que um simples processo de eliminação já a entrega quando sabemos as motivações de todos os grupos que perseguem Langdon. (Ah, e sem ser específico para evitar spoilers, questiono por que explosivos seriam necessários para provocar algo que uma mera batidinha acaba causando.)

Prejudicado ainda pelo caos das sequências de ação finais (algo surpreendente, já que Howard costuma se sair bem neste quesito), Inferno não só volta a desperdiçar o talento de Tom Hanks, que nunca pode transformar seu herói em algo mais do que um mero fornecedor de dados históricos, como ainda o prende a um draminha romântico arbitrário que jamais convence – mesmo trazendo a excelente Sidse Babett Knudsen como par. Por outro lado, assim como Paul Bettany e Ewan McGregor haviam se destacado nos dois primeiros filmes, aqui é a vez de Irrfan Khan roubar a cena com seu misterioso Harry Sims, que merecia ganhar sua própria série. Em contrapartida, Felicity Jones sofre o mesmo destino das demais parceiras de correria de Langdon, unindo-se a Audrey Tautou e a Ayelet Zurer como um recurso cínico de Hollywood para atrair o público masculino ao escalar belas atrizes que raramente ganham um papel minimamente interessante para interpretar.

Desperdiçando até mesmo um tema de importância inquestionável para nosso futuro (o crescimento exponencial da população do planeta), Inferno não é um trabalho ofensivamente ruim, mas é medíocre o bastante para me fazer lamentar que os envolvidos em sua realização não tenham usado seus talentos em um projeto melhor.

13 de Outubro de 2016

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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