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mãe!

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Darren Aronofsky. Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Kristen Wiig.

Parte 1: O Significante

mãe! (assim mesmo, com minúscula) é um filme desagradável. Frequentemente angustiante e sombrio, este novo trabalho de Darren Aronofsky tem um primeiro ato que inquieta, um segundo que incomoda e um terceiro que chega próximo do insuportável.

A propósito: estou elogiando a obra.

Um equívoco comum é o de achar que, para ser bom, um filme tem que ser “agradável”, “divertido” ou mesmo funcionar como entretenimento. Pois algumas das minhas memórias mais marcantes em uma sala de projeção envolveram obras que me deixaram tão mal que estou certo de que jamais as verei novamente, por mais que as admire: O Quarto do Filho, Amor e Ônibus 174, por exemplo. Como toda experiência, o Cinema pode usar a dor para se comunicar – e mãe! é um filme que arde continuamente até se abrir numa ferida cheia de pus. Se você não gostou desta frase, espere até ver o longa.

Outra lição importante que mãe! reforça é a de que há uma diferença inegável entre o que um filme é e o que significa, o que permite que você o aprecie como narrativa sem necessariamente compreender o que esta expressou. Pois o que mãe! é fica claro logo em seus primeiros minutos: um exemplar do gênero “horror”. Isto se torna patente através da maneira como Aronofsky abre a projeção, que salta rapidamente entre uma mulher em chamas, um diamante que parece ressuscitar um casarão e uma mulher acordando sozinha em sua cama e percorrendo vários aposentos escuros em busca do marido enquanto estalos na madeira sugerem presenças ocultas nas sombras. Vivida por Jennifer Lawrence, a protagonista (que os créditos identificam apenas como “Mãe”) reside em uma casa isolada com o poeta interpretado por Javier Bardem (identificado como “Ele”), que enfrenta um bloqueio criativo desde que seu antigo lar foi destruído em um incêndio. Certa noite, porém, eles recebem a visita inesperada do Homem (Harris), um médico que parece ter ido parar ali por acaso e que logo chama também sua esposa, a Mulher encarnada com intensidade alarmante por Michelle Pfeiffer. A partir daí, as coisas se tornam cada vez mais perturbadoras, trazendo ecos de O Bebê de Rosemary, O Anjo Exterminador e, em seu clímax, de uma mistura surpreendente entre A Noite dos Mortos-Vivos e Filhos da Esperança.

Claustrofóbico desde a primeira aparição da personagem-título, mãe! é rodado por Aronofsky e pelo diretor de fotografia Matthew Libatique com uma preponderância de quadros fechados que, tornando-se ainda mais sufocantes graças ao contraste entre os interiores escuros e a luz externa superexposta que entrevemos pelas janelas, nos deixam sempre próximos à personagem, que seguimos de perto em planos criados com o uso de uma steadicam que, por vezes, não se contenta em permanecer nas costas da atriz, girando ao seu redor como se obcecada em testar nossa capacidade de acompanhar aquela mulher. Além disso, quando vemos a Mãe à distância, ela surge frequentemente emoldurada por batentes de portas que parecem oprimi-la ainda mais, salientando também sua solidão. Enquanto isso, o design de produção de Philip Messina concebe a casa que abriga toda a narrativa em uma construção com ecos vitorianos (olha o “horror” aí novamente) que, situada no meio de uma clareira verde cercada por uma densa floresta, não conta com qualquer estrada ou caminho saindo de sua varanda de madeira, que já se abre diretamente para uma relva alta que parece intocada por pés humanos.

Neste sentido, vale apontar, é fascinante perceber como mesmo quando vemos a Mãe nesta varanda, a impressão é a de que segue aprisionada, já que as composições e lentes empregadas por Libatique parecem transformar a floresta em um paredão intransponível diante dela. Da mesma forma, o belíssimo design de som cria contrastes fabulosos entre o silêncio e o tumulto que pontualmente toma conta do lugar – e, com isso, a quietude que no início nos perturbava aos poucos passa a ser desejada pelo espectador em busca de um alívio do caos que os ruídos passam a representar. Assim, de um modo ou de outro, a sensação constante que experimentamos é a de que algo muito ruim está acontecendo ou prestes a acontecer, mesmo que não possamos identificar exatamente que “algo” seria este – um efeito alcançado também pelo excelente Império dos Sonhos, de David Lynch.

O isolamento da protagonista, claro, é o principal motor dramático do longa, sendo ressaltado não só através da fotografia e do som, mas também da postura de seu marido na maior parte do tempo: frequentemente tomando decisões sem consultá-la e compartilhando momentos que deveriam ser só seus (notem sua frustração ao perceber que ele já havia falado com sua editora), Ele parece estar sempre deixando a esposa sozinha (“Volto já” se torna quase um bordão), exibindo um egoísmo que pode ser percebido até mesmo em sua incapacidade de escrever e que seu narcisismo converte em uma perda para toda a humanidade – e Bardem é hábil ao não transformá-lo em um vilão, levando a mulher (e o espectador) a sentir alívio sempre que retorna, mesmo que já saibamos que provavelmente se afastará novamente. Jennifer Lawrence, por sua vez, evoca a confusão, a tristeza e a devoção da Mãe com energia, sendo particularmente eficiente ao transmitir a frustração crescente da personagem diante da invasão de seu lar e da perda de seu controle sobre este. Para completar, se Pfeiffer acaba se destacando pelo veneno constante de seus modos, Ed Harris traz uma vulnerabilidade tematicamente importante para o papel (discutirei isso na segunda parte do texto), ao passo que os irmãos Brian e Domhnall Gleeson protagonizam uma cena breve, mas fundamental na projeção (aliás, é incrível como Domhnall parece incapaz de fazer um filme ruim).

Mas o que mais encanta nestas performances é o fato de conseguirem se tornar distintas, particulares, sem jamais perderem a capacidade de seguir como o que foram feitas para ser: símbolos. Afinal, cada uma daquelas pessoas (ou “pessoas”) é, essência, um conceito abstrato, não um indivíduo.

Não que reconhecer o que representam seja necessário para apreciar a força narrativa do filme.

 

Parte 2: O Significado

(Contém spoilers.)

O processo criativo é doloroso. Como explicou Thomas Mann, por exemplo, “o escritor é um indivíduo para o qual a escrita é mais dolorosa do que para as outras pessoas”. Já Frank Norris, numa frase frequentemente (e incorretamente) atribuída a Dorothy Parker, observou que “odiava escrever, mas amava ter escrito”. Particularmente, considero o ato da criação uma versão mais sádica do mito de Sísifo, já que, em vez de se frustrar ao ver a pedra de mármore rolar morro abaixo quando quase chegava no topo, o escritor experimenta esta frustração antes, durante e depois de alcançar o cume. Afinal, há sempre algo a expressar e a insegurança de não ter a capacidade de fazê-lo – ou de tê-lo feito - apropriadamente.

Pois mãe! é um filme sobre o processo de Criação e da Criação – o artístico e o divino. Identificado apenas como “Ele”, o poeta interpretado por Javier Bardem é ao mesmo tempo signo do Artista e de Deus; sua obra, signo da Arte e do Universo. Não é coincidência que, ao ser questionado pela personagem de Jennifer Lawrence sobre quem é, Ele responde “Eu sou o que sou”, repetindo a resposta de Deus a Moisés em Exodus – e aqui é bom lembrar que Darren Aronofsky dirigiu também Noé, que não só lidava com um Criador frio e impiedoso como o de Bardem, mas também recontava a morte de Abel nas mãos do irmão (o paralelo com os personagens vividos pelos irmãos Gleeson é óbvio, valendo também observar como Ed Harris e Michelle Pfeiffer acabam representando Adão e Eva/Lilith). Aliás, até mesmo o destrutivo fundamentalismo religioso discutido em Noé encontra reflexo aqui na postura dos fãs/seguidores do poeta, estabelecendo um eco temático curioso com o trabalho anterior do cineasta.

Por sinal, mãe! também ecoa Cisne Negro ao retratar o desgaste provocado pela realização artística, diferenciando-se, porém, ao substituir a motivação ameaçadora oferecida pela rivalidade entre as duas bailarinas de Cisne Negro pelo sofrimento altruísta da personagem-título encarnada por Jennifer Lawrence (aliás, é curioso que mãe! tenha estreado no Brasil na mesma semana que o fantástico brasileiro Pendular, que lida com temas similares). Refletindo a dualidade Artista/Deus de Bardem ao tornar-se simultaneamente Musa e (Mãe) Natureza, a esposa representada por Lawrence reconstrói, ampara, cuida, inspira, sofre e se martiriza pela Obra do marido, revelando aos poucos ser mais do que uma personagem, tornando-se um Símbolo – algo lindamente capturado pelos responsáveis pelo cartaz da produção visto ao lado deste texto e que traz a atriz como uma versão daquelas imagens sagradas presentes em todas as igrejas.

Como símbolo da Musa, claro, a Mãe tem seu trabalho iniciado quando Ele, esvaziado pela concepção de seu último poema, tem seu lar incendiado, sendo importante notar que a mulher carbonizada no início da projeção é diferente daquela do final, já que se tratam de musas distintas – a primeira morrendo após inspirar o artista em sua obra anterior. A casa, claro, é signo do processo do poeta, sendo sua destruição um reflexo do fim de seu ciclo criativo e do vazio deixado após colocar sua alma no papel. Agora “bloqueado” por não ter o que expressar, Ele depende de uma nova Musa (e reparem como a Mãe é constantemente apontada como sua “inspiração”) que reconstrua sua casa/alma e, com isso, sopre nova vida em sua Arte. É apenas natural, assim, que em seus impulsos criativos ele seja observado pela “esposa” e que esta encare o caderno em branco com frustração ao vê-lo sair da sala.

A coesão do design de mãe!, é importante reparar, pode ser constatado até mesmo na caligrafia do título, já que é à mão que Ele deposita (ou tenta depositar) suas ideias no papel. Do mesmo modo, é interessante notar como, ao reconstruir a casa (o arcabouço criativo do poeta), a Mãe permite que as ideias voltem a visitá-la – e uma delas, claro, surge representada por Ed Harris. Percebam, aliás, como este bate à porta no exato momento em que o poeta luta para escrever, levando-o a correr para receber o Homem que traz, consigo, uma história repleta de dor e melodrama que tem o potencial de servir como semente de uma nova obra, despertando novos conceitos na mente do artista (conceitos estes que ganham os rostos de Pfeiffer e dos irmãos Gleeson, que vivem um pequeno melodrama com óbvio potencial narrativo). Aos poucos, porém, algumas destas ideias são descartadas, possivelmente por refletirem conceitos já utilizados pelo escritor (as queimaduras do Homem e da Mulher remetem à obra anterior e ao incêndio resultante), o que não as impede de servirem como adubo para outras – e, de fato, um novo personagem surge mais tarde (o do “sacerdote”) que, embora diferente, tem a voz de Harris.

Enquanto isso, a Mãe/Musa/Natureza de Lawrence carrega o bebê do poeta, que, não à toa, se mexe pela primeira vez no exato instante em que o pai completa seu novo poema, já que ambos são frutos da Criação inspirada pela personagem de Lawrence e gerada pelo de Bardem – e não é coincidência que a criança nasça justamente no escritório dEle, já que é ali que suas obras ganham vida.

No entanto, concluído o processo e com seu resultado entregue ao consumo do público que o devora apenas para exigir mais do criador, torna-se hora de buscar uma nova inspiração, o que condena a Musa à destruição juntamente com a casa que abrigou a concepção da Arte por ela motivada. Afinal, esta é a sina do artista: encontrar uma ideia, excitar-se com esta, desenvolvê-la e conclui-la apenas para ver a satisfação momentânea da Criação ser substituída pela inquietação trazida pela necessidade de ir atrás de algo novo para oferecer ao mundo.

Desta forma, o ciclo se reinicia e Ele, como Sísifo, retorna ao pé da montanha para mais uma escalada repleta de dor e incerteza.

21 de Setembro de 2017

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

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Avaliações dos Usuários

maria elizabeth ayoub
maria elizabeth ayoub27 de ago. de 2018

Filme sensacional!! Crítica idem!! Obrigada!

Renata
Renata9 de mar. de 2018

Sobre o líquido amarelo, eu levei um tempo pra identificar o que poderia ser. Existe uma teoria de que a natureza se empenha para conter a superpopulação da terra com terremotos, maremotos e até mesmo doenças como peste negra, febre amarela, câncer, etc. Os momentos no filme em que ela toma esse remédio são momentos em que ela se encontra em uma situação extrema de estresse, acredito que o remédio represente a ação dos elementos (terra, ar, fogo e água) se empenhando para acalmá-la e parar os desastres naturais.

Iury Salk Valentim Rezende
Iury Salk Valentim Rezende13 de dez. de 2017

Melhor filme de 2017. Minha crítica: “A Mãe” para mim, dentro de uma retrospectiva histórica do cinema, é um dos melhores filmes sobre a criação, juntamente com a obra-prima de Fellini “Oito e Meio”. Mas Aronofsky aborda o tema da criação de uma maneira mais intensa, delirante, religiosa e atávica, do que qualquer outro cineasta já tinha realizado, principalmente por utilizar passagens bíblicas, como Gênesis (Criação, Adão e Eva, Cain e Abel, Abraão e o sacrifício), Apocalypse e mitos que passam por várias religiões como o simbolismo da pedra. A religião já se fez presente em sua filmografia como “Fonte da Vida (2006)” e “Noé (2014)”, porém nunca com tanta força e síntese de ideias e símbolos. No início do filme vemos uma jovem e bela, encarnada magistralmente por Jennifer Lawrence acordando de sua cama em uma casa espaçosa, em processo de reforma, num espaço bucólico. Ela é casada com um senhor, vinte anos mais velho, interpretado pelo grande ator Javier Barden, um poeta em crise criativa. Jennifer é responsável pela reforma da casa, enquanto Javier se isola em um quarto no andar de cima, seu refúgio para o trabalho criativo. A casa já tinha sido queimada por um incêndio, que destruiu tudo do poeta, só restando um cristal que ostentava em seu gabinete, como um totem religioso. A rotina da casa é quebrada quando o casal recebe a visita de um estranho, interpretado pelo ator Ed Harris, que acolhido pelo poeta passa a dormir em um dos quartos. Jennifer fica incomodada com esta situação e questiona seu marido, que contra-argumenta que ele não tem para onde ir, era fã fervoroso da obra do poeta e tinha vindo de muito longe para conhecê-lo. O estranho durante a noite começa a passar mal e é socorrido pelo anfitrião. Jennifer presencia o estranho vomitando no banheiro e vê uma ferida aberta nas costelas do mesmo, que é imediatamente camuflada pelas mãos do poeta. Como havia comentando a ferida aberta na costela remete a um velho Adão que ainda não cicatrizou a abertura que deu origem a Eva. No dia seguinte uma segunda estranha surgiu na casa, agora a mulher do fã/Adão, encarnada por Michelle Pfeiffer, que causa mais desconforto à jovem anfitriã, pelo seu comportamento invasivo e arrogante. Durante uma conversa entre o Poeta e sua esposa, que se queixava sobre o mau comportamento dos convidados e implorava para serem expulsos da casa, os dois escutam um estrondo vindo do gabinete. Ambos correm para o local e o Poeta fica chocado ao ver seu precioso cristal despedaçado, acidente provocado por descuido dos convidados e, imediatamente o anfitrião os expulsa. Como havia mencionado, o ”Cristal” é reconhecido como um forte símbolo metafísico em diversas culturas, inclusive a judaica. Como exemplo temos a pedra preta, exposta no Kaaba, símbolo máximo na religião Mulçumana. O cristal também está presente no mito da busca do Santo Graal. Na psicologia Profunda de Jung as pedras e cristais simbolizam o “Self” ou a alma. No contexto do filme, o Cristal do poeta pode também significar um conhecimento secreto ou o fruto proibido do Paraíso. Em seguida, após a ordem de expulsão de Adão/Eva, irrompem na sala dois jovens, filhos do casal, que tumultuam o ambiente com acusações e agressões físicas culminando em fratricídio e agressão física na apavorada Jennifer. Nesta cena temos mais uma alusão bíblica do Gênesis, a de Cain e Abel. Enquanto o jovem assassino foge, o anfitrião socorre o jovem quase morto e seus pais levando-os para o hospital mais próximo. À noite Barden retorna com seus convidados desolados e o corpo do filho para ser velado, acompanhados por uma fila de diversos convidados que vão se adentrando durante toda a noite. A casa vai se tornando uma verdadeira Babel com diversas figuras estranhas e lascivas: uns pintavam a casa, outros provocavam destruição nos encanamentos e na pia da cozinha. Por fim o poeta, impulsionado pela sua já desesperada esposa põe um fim a balbúrdia e expulsa os convidados. Durante todo o filme a casa é um local com diversos significados. Enquanto o andar de cima e o gabinete são o reduto do marido, local de criação, etéreo, aéreo, sublime, tal qual um Super-ego Patriarcal, o Porão é o refúgio da jovem senhora: local férreo, terreno, carnal, que dá sustentação, calor, através das caldeiras escondidas, como o coração da casa, associando Jennifer a figuras míticas como Demeter, a Grande Mãe, Géia/Gaia. Na verdade, durante o filme, Jennifer sofre surtos e alucinações com a casa, em imagens escatológicas, sangue perfurando os assoalhos e visões de um coração batendo por dentro das paredes. Para suprimir estas alucinações ela toma um remédio laranja em pó. A farmácia esta associada como uma criação Matriarcal, cujo símbolo é o de duas cobras entrelaçadas, que também remetem a deusa Naja, associada ao demônio e a serpente do Paraíso. Nas cenas velório/bacanal, vários convidados estavam pintando e jogando argamassa nas paredes, o que incomodou muito a anfitriã/Géia, já que a metáfora de manutenção da casa/natureza/universo é de sua responsabilidade, assim como os ciclos/estações que vão do nascimento, morte e regeneração. O Matriarcado foi responsável pela criação da agricultura e os segredos da natureza, assim como o Patriarcado são associados com a caça e a Astronomia. A personalidade do Poeta/Zeus/Deus é festiva e alegre na companhia de outros homens durante as cenas do velório, ou quando estava ao lado de seu Adão/Fã, assim os primeiros astrônomos/caçadores que se reuniam e saiam à noite para caçar e observar as estrelas e se confraternizavam em volta de uma fogueira nas florestas. Já Geia/Jennifer, isolada e responsável pela reconstrução da casa se incomoda com as intromissões dos fãs do Poeta/Zeus, que tratam a anfitriã com intrusa em sua própria casa. Em diversas cenas os convidados e principalmente a personagem Eva/Michelle zombam de Jennifer ao questiona-la se a casa era realmente dela. Nestas cenas temos a confirmação que Jennifer está isolada e sem aliados, até mesmo de seu marido, que vive em mundo regido totalmente pelas regras do patriarcado. A própria Eva é uma construção teológica que sucedeu Lilith, primeira esposa de Adão, por causa de sua insubordinação ao patriarcado. Lilith é só mencionada no Torá e excluída da Bíblia. Durante todo o filme Michelle/Eva, mulher patriarcal criada pela costela de Adão, diferente de Lilith, criada pelo barro, se rivaliza com Jennifer e exibe um comportamento masculino, em poses, gestos e até na promiscuidade masculina. Assim como Réquiem para um Sonho (2000), O Lutador(2008) ou Cisne Negro (2010), em Mãe! o que está em jogo é um personagem em transformação. Os ciclos, durante o filme variam da placidez de um acordar em um ambiente bucólico para diversas cenas de horror que se seguem. Como no mito da Roda da Fortuna e nas idéias de Friedrich Nietzsche sobre o Eterno Retorno, o filme é uma alegoria sobre as angústias, as conquistas, os desenlaces, as tragédias, que voltam e retornam no ciclo da vida. A cena inicial é a mesma da cena final, com a diferença de um rosto diferente. A personagem da Mãe é o ápice da carreira do diretor que recriou historias semelhantes para contar a progressiva e paroxista transformação dos protagonistas de seus filmes. Sem dúvida alguma também é o auge de interpretação da carreira da atriz Jennifer Lawrence até o momento. Mas vamos voltar à trama do filme. Após a expulsão dos personagens Jennifer reclama ao marido que ele estava mudado e indiferente e não faziam mais amor há tempos. Após nove meses, tempo de uma gestação, Jennifer acorda com uma gravidez bem avançada e o Poeta, enfim, concluiu seu novo poema e livro. Jennifer lê o poema, ilustrado em belas imagens pelo diretor, emocionando muito a protagonista. Não é casual que na eminência de Jennifer dar a luz o Poeta também conclua a sua criação, um poema belo e arrebatador, como se os dois competissem no ato da criação: a da Grande Mãe dar a luz e gerar vida e a de Deus criar o Verbo. Como no versículo de João: “No princípio era o VERBO, e o VERBO estava com Deus”. Em seu livro “A Linguagem Esquecida” Erich Fromm, sociólogo e psicólogo da Escola de Frankfurt, desafia a teoria freudiana da Inveja do Pênis ao propor a teoria da “Inveja do Útero”. Neste, ele argumenta que o homem, antes da sociedade patriarcal, estava contaminado por uma inveja ao poder criativo das mulheres, visto que eles não podiam suplantar o poder de criar vida. À noite, Jennifer estava finalizando o jantar comemorativo ao lançamento do livro do marido e novamente o caos volta a dominar a casa com a invasão de diversos e estranhos fãs. Eles organizam uma improvisada noite de autógrafos que envaidecem o anfitrião, deixando-o completamente dominado pelas bajulações. Novamente a Deusa Mãe é hostilizada pelos fãs do Poeta, tratando-a como uma prostituta, como se ela não pertencesse a casa. Jennifer tenta falar com o marido, que alucinado com as bajulações dos fãs/leitores, não lhe dá ouvidos. Os fãs passam a organizar um culto em um templo improvisado em uma das salas, liderados pelo presidente do fã clube do Poeta, que mais parece um fanático religioso ancião. As situações vão ficando cada vez mais caóticas. Cenas de orgias, loucuras, agressões entre grupos, conflitos militares, mortes em cores que parecem ter saído da paleta de Hieronymus Bosch em seu tríptico “O Jardim das delícias terrenas”. Todo este caos apocalíptico leva Jennifer/Géia se refugiar ao porão onde reside as suas forças primais. Mesmo dentro de seu refúgio ela é perseguida pelos loucos seguidores do Poeta/Jeová, levando à procurar a proteção do marido. A Deusa Mãe é espancada e antes que acontecesse o pior é salva pela intervenção do Poeta, agora já preocupado mais com salvação do filho. Ele a leva para seu gabinete onde ela dá a luz. Nasce uma criança perfeita. Os dois se emocionam e o pai pede que lhe entregue seu filho, mas a mãe nega, dizendo que o filho era dela. Neste momento, fica clara a intenção do diretor em colocar a disputa da criação e a inveja de Deus. Segue um momento de vigília, onde o bebê fica protegido nos braços da mãe e o Pai fica encarando-os, na expectativa de que ela “baixasse a guarda”. A mãe desperta assustada ao descobrir o desaparecimento do filho e o que se segue é mais uma cena bíblica. Ela encontra o pai/Deus exibindo seu filho aos seus seguidores como a maior de suas criações, em um púlpito improvisado. Quando ela ameaça recuperar seu filho, o pai joga o bebê na massa de fiéis que levam de mãos em mãos até o sacerdote mor, representação de um Abraão que esquarteja o bebê Jesus/Dionísio e serve aos fiéis seus pedaços, como numa missa eucarística. O horror da profanação de seu bebê /criação leva a uma fúria titânica e a um poder que a jovem mãe desconhecia. Ela se irrompe em fogo como uma bomba que leva a casa, todos seus integrantes e o local em chamas, em completa destruição. A única coisa que se destaca em meio às cinzas é um belo pedaço oval de cristal. A cena termina para dar lugar à de abertura, de uma jovem acordando em um quarto, agora com um novo rosto. Não é a toa que este filme provocou vaias e aplausos, divisão entre os críticos, acusado de ser um filme sem sentido ou reconhecido como uma obra-prima do cinema fantástico e surrealista. Para mim está muito claro. Todos os simbolismos foram muito bem representados nas duas horas de duração desta obra feérica, que nos faz pensar sobre a nossa natureza existencial, nossos mitos, o que somos e porque somos. A alucinada inquietação do homem em suplantar a natureza gerou Mona Lisas, Davis, as obras de Shakespeare, mas também legou guerras, bombas atômicas, inquisição e o capitalismo selvagem. Estamos fadados a esta comédia humana, em ciclos que se repetem de tempos em tempos. Odiar este filme é não entender a natureza humana, não reconhecer que a humanidade é doente e que precisamos de ajuda e saber. Iury Salk

Eduardo Nascimento do Vale
Eduardo Nascimento do Vale1 de nov. de 2017

Eu saí do cinema achando que assisti ao pior filme do mundo. 12 horas depois compreendi seu conceito.

Digo Freitas
Digo Freitas15 de out. de 2017

(*SPOILERS*) Excelente crítica! Pensei por esse lado da arte por causa da Musa também, mas não tão a fundo quanto a minha segunda proposta. Assisti ontem e fiquei curioso para ver o que as outras pessoas entenderam do filme, porque a minha visão foi muito certeira. Até demais. Estava aos poucos fazendo sentido, até o momento que a pia se quebra e jorra água. Pra mim aquilo remeteu diretamente ao dilúvio bíblico e depois disso tudo que surgia no filme eu fui encaixando no contexto do velho e novo testamento. Discutindo com algumas amigas chegamos a possibilidade de que, considerando o ponto anterior, o primeiro poema poderia ser os 10 Mandamentos. E até que, se a casa já havia se incendiado antes, na verdade estávamos vendo não a narrativa da primeira, mas a segunda vinda de Cristo, profecia bíblica apocalíptica. Daí o fogo. Uma visão crítica da história da vida segundo os cristãos e o deus Yahweh. Não sou de seguir religiões, mas fui criado numa família católica e para mim esses símbolos foram quase explícitos, ponto a ponto, tirando as catástrofes que não consegui encaixar muito bem. Talvez numa próxima experiência. Interessante como esse filme levantou tantas discussões diferentes!

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