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Happy End

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Michael Haneke. Com: Isabelle Huppert, Jean-Louis Trintignant, Mathieu Kassovitz, Fantine Harduin, Franz Rogowski, Laura Verlinden, Aurélia Petit, Toby Jones.

Michael Haneke é um cineasta que tem um prazer especial em torturar seu público, seja ao se negar a seguir as expectativas que ele mesmo gera (como na cena do controle remoto em Violência Gratuita), ao criar sequências em que nos obriga a testemunhar a crueldade com a qual seus personagens são capazes de agir (A Fita Branca), ao criar um mistério e só oferecer uma pista importante nos créditos finais (Caché) ou ao retratar com dolorosa secura as indignidades da velhice (Amour). Aliás, eu poderia citar basicamente toda a filmografia do austríaco como exemplos de seu dom para o sadismo, mas ele me poupa deste trabalho ao criar um “melhores (piores?) momentos” em seu novo filme, Happy End (e é claro que o título é irônico).

Escrito pelo próprio diretor, o roteiro gira em torno dos membros da rica família Laurent, cujo patriarca, Georges (Trintignant), perdeu o interesse em viver desde a morte de sua esposa e passou o controle dos negócios do clã para a filha Anne (Huppert) – que, por sua vez, tenta incutir no filho Pierre (Rogowski) a disciplina necessária para vir a substitui-la, mas sem sucesso. Enquanto isso, o irmão de Anne, o médico Thomas (Kassovitz), é obrigado a assumir a guarda de Eve (Harduin), filha de seu primeiro casamento, desde que sua ex-esposa entrou em coma após o que parece ter sido uma tentativa de suicídio.

Habilidoso ao amarrar todas estas subtramas e ao apresentar os personagens e as relações entre estes, Haneke cria um universo povoado por figuras que, embora materialmente abastadas, parecem viver dominadas pela tristeza e pela insatisfação. Mas, mais do que isso, aqueles personagens são vitimados pela própria incapacidade de comunicação, algo que o cineasta ressalta com ironia ao frequentemente trazê-los trocando e-mails, conversando por janelas de chat em redes sociais ou enviando mensagens pelo celular – e o que Happy End salienta, com isso, é o contraste entre os meios cada vez mais abundantes de contato entre as pessoas e o fato de que, como resultado paradoxal, estas se tornam cada vez mais isoladas (e um dos melhores planos do longa é aquele em que, depois de lermos as mensagens intensamente eróticas enviadas e recebidas pela amante de Thomas, finalmente a vemos no escuro e encolhida sobre a cama, num canto do quarto).

Do mesmo modo, é estimulante testemunhar um veterano como Haneke adotando recursos contemporâneos de linguagem, como ao usar, como câmera subjetiva, uma tela de celular fazendo streaming ao vivo (com direito a comentários publicados sobre a imagem) ou ao criar um vídeo de youtuber. Em contrapartida, não há como negar que vários destes recursos (bem como o plano que traz o registro de uma câmera de segurança) soam reciclados de trabalhos anteriores do diretor (e, de novo, Caché vem imediatamente à mente), o que tira um pouco de seu frescor.

Seja como for, é impossível não reconhecer o controle que o realizador tem sobre a narrativa, seja ao investir em seus longos planos nos quais a câmera só se movimenta ancorada aos personagens, seja ao incluir elipses surpreendentes que subitamente revelam como incidentes importantes ocorreram sem que os víssemos (e que 99,9% dos diretores explorariam sem hesitar). Além disso, o humor de Haneke, mesmo que pontual, é eficaz pelo estranhamento que provoca, surgindo aqui, por exemplo, em uma cena na qual Pierre, cheio de energia e frustração, canta em um karaokê.

No entanto, nem mesmo a segurança técnica do cineasta consegue contornar o vazio de seu roteiro, que, ao se concentrar nos problemas de uma família europeia branca e rica, traz tramas que poderiam ter saído de uma novela de Manoel Carlos, pecando ainda por comentar de forma superficial e tola a situação dos imigrantes no continente.

Longe de ser um dos melhores esforços de Michael Haneke, Happy End ainda assim segue a linha autoral do cineasta, que aqui traz, como a maior perversão dos personagens, sua solidão autoimposta.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

22 de Maio de 2017

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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