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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
09/11/2017 01/01/1970 5 / 5 / 5
Distribuidora
Videofilmes

No Intenso Agora
No Intenso Agora

Dirigido e roteirizado por João Moreira Salles.

Nem sempre a gente sabe o que está filmando”, diz o cineasta João Moreira Salles em certo momento de seu novo documentário, No Intenso Agora. Aliás, chamar esta obra de “documentário” talvez não seja o mais apropriado; há momentos nos quais ela se encaixa nesta descrição, mas, na maior parte do tempo, o que Salles faz é um ensaio sobre História, política e juventude, começando a partir dos registros feitos por sua mãe durante uma viagem para a China, em 1966, e voltando seu olhar para os movimentos populares ocorridos ao redor do mundo em 1968.

Logo no início da projeção, o diretor recupera um pronunciamento feito por Charles de Gaulle pela televisão no último dia de 1967, quando deseja um ótimo ano para os franceses e prevê que este será tranquilo – uma expectativa arruinada cinco meses depois, quando protestos de estudantes universitários resultaram em brutalidade policial (isto não é exclusividade nossa) e inflamaram boa parte da população, culminando numa greve geral e um princípio de convulsão social.

Fascinado com a energia e mesmo a alegria dos jovens franceses, Salles parte de imagens de manifestações e outros momentos daquele período específico para refletir sobre como, para a maior parte daquelas pessoas, aquele viria a representar o instante mais feliz de suas vidas – e como elas certamente não se davam conta, no calor dos protestos, de como estavam criando e fazendo parte da História. Por outro lado, o cineasta tem uma mente arguta demais para se limitar a romantizar a época e seus acontecimentos, apontando a falta de preparo e/ou ambição dos jovens em seus objetivos, já que chegam a passar ao lado do congresso durante uma das marchas sem nem sequer cogitar invadi-lo. Além disso, por mais idealistas que muitos deles fossem, o fato é que problemas estruturais da sociedade francesa se encontravam tristemente refletidos nos protestos – algo que o filme expõe ao comentar a ausência de mulheres entre os organizadores e também a de negros. Do mesmo modo, é revelador como até mesmo os trabalhadores que se juntaram aos estudantes se referiam a estes como “nossos futuros patrões”.

No Intenso Agora, contudo, segue adiante e discute como, embora a empolgação do momento seja contagiante, o Sistema não encontra muitas dificuldades para eliminar o vírus da inquietação, sendo assustador reparar como já em julho a França retornara à normalidade (leia-se: com a elite reafirmando seu poder). Pois se a revolução pode ter início com uma velocidade descomunal, a normalização da opressão consegue ser ainda mais veloz – e Salles ilustra isto ao observar como em muitos dos países nos quais o status quo é questionado, a liberdade de expressão logo passa a ser eliminada sem que os cidadãos percebam.

Mas o interesse de João Moreira Salles não é apenas histórico; como cineasta, ele se mostra instigado a analisar as imagens que recuperou (numa excelente pesquisa, diga-se de passagem) de um ponto de vista semiótico. Assim, frequentemente ele repassa certos trechos para apontar elementos que se apresentam – mesmo que por acidente – como signos, como a maneira em que uma babá negra se afasta automaticamente para permitir que apenas a patroa seja filmada com os filhos ou como a posição do líder estudantil Daniel Cohn-Bendit e a de um professor reforçam suas posições “hierárquicas” convencionais mesmo que estejam em processo de inversão.

Porém, a sequência mais brilhante de No Intenso Agora talvez seja aquela em que Salles, com sua narração sóbria (beirando a tristeza), analisa as imagens e a percepção histórica dos funerais de estudantes mortos em 1968 (Jan Palach na República Checa; Edson Luis de Lima no Brasil; Gilles Tautin na França) e disseca suas diferenças, que vão da dor pessoal à indignação, passando pelo aspecto simbólico que assumiam. Para completar, o documentário é hábil ao sugerir a ligação entre o suicídio de vários estudantes nos anos seguintes às suas revoltas e a frustração e o desapontamento que provavelmente os dominaram em suas vidas adultas.

Pois se há uma consequência direta da intensidade com que movimentos como os retratados pelo filme impactam seus protagonistas é o fato de que, tragicamente, o restante de suas vidas se tornará um contínuo anticlímax.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

16 de Fevereiro de 2017

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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