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Críticas por Pablo Villaça

A Cordilheira
La cordillera

Dirigido por Santiago Mitre. Roteiro de Mariano Llinás e Santiago Mitri. Com: Ricardo Darín, Dolores Fonzi, Alfredo Castro, Paulina García, Leonardo Franco, Elena Anaya, Daniel Giménez Cacho e Erica Rivas.

O argentino A Cordilheira é um trabalho curioso: dirigido por Santiago Mitre (do bom Paulina), o filme alcança um resultado surpreendente ao conceber um personagem bem mais complexo do que poderíamos supor, mas o faz de uma maneira tão desajeitada que, mesmo compreendendo os propósitos de sua estratégia narrativa quando a história se encerra, não podemos ignorar a fragilidade de como chegamos ali.

Co-produção chilena, o longa se passa num luxuoso hotel situado no local-título e acompanha uma conferência entre os presidentes latino-americanos enquanto estes se preparam para formar uma aliança estratégia de exploração de petróleo. Liderada pelo presidente brasileiro, que conta com a vantagem de comandar a maior companhia petrolífera do continente, a iniciativa é vista com maus olhos pelos norte-americanos, que não foram convidados a participar e perderão poder de barganha com o fortalecimento de seus vizinhos do Sul – e não demora muito até que fique claro que o presidente mexicano está atuando a mando dos Estados Unidos para sabotar as discussões. No meio de tudo isso encontra-se o protagonista, Hernán Blanco (Darín), presidente recém-eleito da Argentina e que é visto como uma incógnita pelos demais.

Em primeiro lugar, o óbvio: para um espectador brasileiro, A Cordilheira é quase uma tragédia, já que seu roteiro indubitavelmente foi concebido quando ainda não havíamos mergulhado no atual caos político e éramos vistos como uma nação com influência crescente pelo restante do planeta. Aliás, a figura do presidente brasileiro é curiosa, já que, embora sua posição seja estabelecida pelo longa como a mais promissora para o continente, ele também tem que ser encarado como antagonista pelo personagem principal. Para solucionar isso, o diretor toma uma decisão intrigante, levando o ator Leonardo Franco a interpretar Oliveira Pretes (sério? É esse o nome do presidente brasileiro?) como um homem arrogante e presunçoso mesmo sendo – de acordo com o próprio filme – o responsável por “tirar milhões de pessoas da miséria”, criar várias políticas de inclusão social e se posicionar radicalmente contra a entrada de corporações privadas na aliança por saber que estas basicamente seriam compradas pelos norte-americanos. Em resumo, ele age como um idealista, mas fala como um demagogo. E, claro, não representa em absolutamente nada os atuais ocupantes do Executivo (para registro histórico, caso você esteja lendo este texto em 2070 e o Brasil ainda exista: Michel Temer, Romero Jucá, José Serra e cia.).

Já Ricardo Darín é, como seria de se esperar, o destaque inquestionável da produção (e é claro que um dia ele interpretaria o presidente da Argentina): projetando força de caráter e de convicções – mesmo que não saibamos que caráter e quais convicções -, o ator incorpora o peso de um homem pressionado por todos os lados e que, para completar, ainda é obrigado a lidar com um escândalo de superfaturamento relacionado a uma antiga eleição e com a instabilidade emocional e psicológica de sua única filha, Marina (Fonzi). É fantástico, por exemplo, como Darín domina a cena na qual seu personagem conversa com o representante enviado pelos Estados Unidos (um afiado Christian Slater) mesmo sem praticamente abrir a boca.

Instigante sempre que está lidando com os bastidores do poder e as negociações feitas sob as sombras, A Cordilheira é quase impecável em sua primeira metade, até que – e aí começa a parte desastrada – a subtrama envolvendo Marina passa a dominar a narrativa e o psiquiatra vivido pelo geralmente ótimo (mas aqui frustrante) Alfredo Castro entra em cena, trazendo consigo (e eu queria estar brincando) cenas envolvendo hipnose (com direito a “mantenha os olhos no pêndulo”), sugestões de elementos sobrenaturais (“mas ela ainda não havia nascido”) e uma montagem que passa a empregar fusões de uma cafonice extrema. Tudo embalado por uma trilha de suspense exageradíssima, evidentemente.

E, no entanto, quando o filme parece ter sucumbido totalmente sob o peso destas péssimas decisões, a cena final surge na tela e Darín, com um gesto de mão, traz sentido a tudo e finalmente compreendemos o que o roteiro quis fazer. E conseguiu. Pena que utilizando, para isso, tanta estupidez.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

26 de Maio de 2017

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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