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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/06/2018 08/06/2018 3 / 5 / 5
Distribuidora
Warner

Oito Mulheres e Um Segredo
Ocean's Eight

Dirigido por Gary Ross. Roteiro de Gary Ross e Olivia Milch. Com: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Helena Bonham Carter, Sarah Paulson, Rihanna, Awkwafina, Mindy Kalling, Richard Armitage, Dakota Fanning, James Corden, Deidre Goodwin, Marlo Thomas, Dana Ivey, Mary Louise Wilson, Elizabeth Ashley, Shaobo Qin, Elliott Gould e Anne Hathaway.

Logo nos primeiros minutos de Oito Mulheres e um Segredo, uma espécie de reboot da trilogia dirigida por Steven Soderbergh e encabeçada por George Clooney (e que, por sua vez, era uma refilmagem de um filme mediano estrelado pelo Rat Pack em 1960), a protagonista Debbie Ocean (Bullock) é ouvida pelo comitê que decidirá sua saída da prisão em liberdade condicional e, liberada, imediatamente reúne um grupo para um golpe que poderá lhes render 150 milhões de dólares – exatamente a mesma introdução, o mesmo valor e o mesmo sobrenome do primeiro capítulo lançado em 2001. É fácil perceber, portanto, que o novo filme não teme ser comparado àquelas produções, o que denota uma confiança que, infelizmente, não é amparada pela realidade, já que, mesmo bastante superior às continuações 12 e 13, jamais alcança a engenhosidade e a eficácia do original (ops, perdão: “original”).

Não que esta versão seja um fracasso, pois não é: pontualmente divertida e sempre ágil, Oito Mulheres e um Segredo conta com um elenco que, por si só, mantém o espectador preso à narrativa graças às ótimas composições de personagens e às interações entre estes. Dirigido por Gary Ross (Pleasantville – A Vida em Preto e Branco, Jogos Vorazes) a partir de um roteiro que escreveu ao lado de Olivia Milch, o longa nos apresenta a Debbie (irmã de Danny), que, jurando ter deixado a vida de crime, não consegue ficar 30 minutos sem roubar algo depois de sair da penitenciária, logo reencontra a antiga parceira Lou (Blanchett), convidando-a a participar de um plano ambicioso e arriscado. Para executá-lo, convocam ainda a joalheira Amita (Kaling), a receptora de itens roubados Tammy (Paulson), a hacker Bola Nove (Rihanna), a punguista Constance (Awkwafina) e a estilista Rose Weil (Bonham Carter). Já a oitava “integrante” do grupo é alguém que acaba envolvida nos planos de Debbie sem saber: a atriz Daphne Kluger (Hathaway), que é usada como mula involuntária para transportar o magnífico colar Toussaint (inspirado numa joia verdadeira), que, de tão valioso, não deixa o cofre da Cartier há mais de 50 anos.

Encarnando Debbie como uma mulher confiante e inteligente, mas também impulsiva, Sandra Bullock demonstra a segurança de alguém que planejou em detalhes o golpe, sendo divertido também constatar como, mesmo tão ambiciosa, parece furtar pequenos itens quase sem perceber, como se isto fosse uma segunda natureza – o que a contrasta com Lou, que Cate Blanchett constrói como uma espécie elegante de “voz da Razão”. E se Sarah Paulson consegue conciliar as facetas “mãe de família” e “criminosa compulsiva” de maneira convincente, Mindy Kaling e Rihanna fazem o possível com figuras que pouco mais são do que as atividades que desempenham. Por outro lado, Awkwafina extrai humor da natureza de pequena golpista de sua personagem, ao passo que Helena Bonham Carter diverte com o nervosismo constante de Rose, que, afinal, foi levada a participar do esquema por puro desespero (ela deve milhões à Receita). Dito isso, o grande destaque de Oito Mulheres e um Segredo é mesmo Anne Hathaway, que torna Daphne multidimensional ao explorar o contraste entre seu egocentrismo e sua insegurança, levando o espectador a rir da superficialidade de sua persona pública ao mesmo tempo em que se espanta com sua vulnerabilidade e seu desejo de pertencimento.

Emulando a montagem dinâmica de Soderbergh nos longas anteriores (e abusando particularmente das cortinas verticais como forma de transição entre cenas), o filme também é beneficiado por uma trilha sonora eclética que traz charme à narrativa – especialmente “You’re No Good” (na voz de Linda Ronstadt) e a clássica versão de “These Boots Are Made for Walkin’” cantada por Nancy Sinatra (filha de Frank, protagonista da versão de 1960, o que de certa maneira fecha o círculo). No entanto, se há um componente de Oito Mulheres e um Segredo com chances reais de ser lembrado na temporada de premiações, este é o trabalho brilhante da figurinista Sarah Edwards, que evoca o glamour necessário em uma produção como esta (afinal, o golpe ocorre durante o tradicional – e indecoroso – baile anual de gala do MET) ao mesmo tempo em que concebe as roupas como reflexos perfeitos das personalidades de cada uma das oito mulheres.

É uma pena, portanto, que o roteiro seja falho a ponto de comprometer o resultado final. Para começar, Ross e Milch incluem referências recorrentes que levam o público a antecipar certa revelação que nunca vem (o que torna os insistentes questionamentos acerca de um personagem gratuitos e desonestos), provocando um anticlímax desnecessário quando deveríamos estar exultantes diante da ação que acompanhamos por quase duas horas. Além disso, a introdução no terceiro ato do investigador vivido por James Corden é falha não só de um ponto de vista estrutural, mas também de trama, já que o pragmatismo curioso do sujeito anula qualquer potencial de tensão da narrativa (ainda assim, sou obrigado a reconhecer que o britânico cria momentos divertidos). Porém, o erro mais grave do roteiro reside em sua decisão de tornar tudo fácil demais: em nenhum momento somos levados a temer o fracasso das mulheres – e mesmo as insignificantes complicações de última hora são resolvidas rapidamente, anulando qualquer tensão. E uma obra pertencente ao subgênero heist movie que não consegue provocar tensão é uma obra com graves problemas em sua concepção básica.

Ainda assim, a energia e o talento do elenco salvam o filme de um embaraço completo, sendo também necessário aplaudir a maneira sutil com que a produção comenta o sexismo incorrigível de Hollywood através da participação de Elliott Gould, que, revivendo o Reuben da trilogia repleta de testosterona comandada por Soderbergh, surge rapidamente apenas para aconselhar Debbie a desistir de seu plano, já que acabaria fracassando e sendo presa.

Subestimar as mulheres, afinal, é uma tradição do Cinema tão antiga quanto este próprio.

Observação: sempre aviso quando há cena pós-créditos; esta é a primeira vez em que sinto a necessidade de alertar que não há uma.

09 de Junho de 2018

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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