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Críticas por Pablo Villaça

A Morte de Stalin
The Death of Stalin

Dirigido por Armando Iannucci. Roteiro de Armando Iannucci, David Schneider, Ian Martin. Com: Steve Buscemi, Simon Russell Beale, Jeffrey Tambor, Michael Palin, Andrea Riseborough, Rupert Friend, Olga Kurylenko, Paddy Considine, Dermot Crowley, Paul Whitehouse, Paul Chahidi, Karl Johnson, Emilio Iannucci, Nicholas Woodeson, Sylvestra Le Touzel, Adrian McLoughlin e Jason Isaacs.

O cineasta britânico Armando Iannucci é um verdadeiro especialista em narrativas que envolvem um tema bem particular: os bastidores do poder. Aliás, mais do que isso: ao contrário de obras que abordam universos similares, como A Conspiração, Limite de Segurança, Vassalos da Ambição ou House of Cards, os trabalhos de Iannucci tendem a explorar o humor inato a tipos capazes de qualquer coisa para se manterem à frente de seus oponentes, muitas vezes renegando posturas que mantiveram a vida inteira apenas para obter uma vantagem imediata e temporária. Foi assim na sensacional série The Thick of It, no fabuloso In the Loop e, mais recentemente, na ótima Veep.


Desta vez, porém, o realizador abandona os personagens ficcionais (por mais que inspirados em pessoas reais) e parte diretamente para figuras históricas, mantendo seus nomes e recriando situações que de fato ocorreram, como se quisesse provar que nem a mais insana de suas criações consegue chegar perto do absurdo proporcionado pela realidade. Para isso, ele e os co-roteiristas David Schneider e Ian Martin iniciam sua narrativa na União Soviética de março de 1953, quando Stalin (McLoughlin), aos 74 anos de idade, já se mantinha no poder há algumas décadas. Cercado por seus subordinados mais próximos do Comitê Central que o auxiliavam a governar a nação, Stalin é visto como um sujeito solitário que insiste em manter os companheiros por perto, vendo filmes ou contando casos, apenas para ter companhia (o que de fato acontecia). Temido pela população e mesmo por seus aliados em função de seu autoritarismo e da facilidade com que mandava prender e/ou matar aqueles de quem desconfiava, o ditador sofre um derrame certa noite em seu gabinete e só é encontrado quase um dia depois, já que os guardas a postos diante de sua porta tiveram medo de entrar para verificar se algo havia ocorrido quando escutaram um barulho lá dentro (o que de fato aconteceu). Chamados às pressas assim que Stalin é descoberto inconsciente e deitado em uma poça de urina (fato), seus subordinados imediatos ainda levam um longo tempo até chamarem um médico, já que boa parte destes profissionais havia sido aprisionada pelo líder, que os acusara de tentarem envenená-lo (sim, eles realmente demoraram e por esta razão).

No entanto, é depois que ocorre o que o título descreve que o roteiro passa a se concentrar naquilo que realmente interessa ao diretor: o caos que se instala depois da morte de Stalin e as alianças que se formam e se rompem (e se formam novamente) entre os seis membros do comitê, Nikita Khrushchev (Buscemi), Lavrenti Beria (Beale), Georgy Malenkov (Tambor), Vyacheslav Molotov (Palin), Lazar Kaganovich (Crowley) e Anastas Mikoyan (Whitehouse) – e especialmente entre os dois primeiros, em torno dos quais os demais se alinham. Chefe da polícia secreta do Estado, Beria é um homem violento que, usando seu poder de forma cruel, determina casualmente quem deve morrer ou viver, sendo temido pelos próprios companheiros, além de ter o hábito de separar jovens mulheres (incluindo pré-adolescentes) para que possa estuprá-las em seus momentos de folga, ao passo que Khrushchev, embora tenha mais a simpatia do espectador por se apresentar como um reformista, está longe de ser inocente, contando em tom de piada como, durante a guerra, costumava jogar granadas reais no meio de seus prisioneiros apenas para vê-los correndo apavorados.

Fazer humor com estes elementos não é, obviamente, algo fácil – e Iannucci, demonstrando bom senso, não tenta transformar os estupros, por exemplo, em piada, usando-os (mesmo mantendo-os fora de campo) como ilustrações do horror e da barbárie do regime stalinista. Aliás, esta é uma estratégia recorrente do cineasta e que confere peso e relevância à sua comédia, já que, por mais que encontre humor em seus personagens geralmente desprezíveis, os resultados de suas ações raramente são aliviados para evitar desconforto - e muitas vezes o riso surge como consequência do choque, tornando-o não só piada (e alívio cômico), mas levando o público a refletir sobre o que testemunhou e sobre a própria reação.

No entanto, construir um filme inteiro a partir disso seria quase uma tortura (por mais divertida que fosse) e, assim, Iannucci abraça também o humor físico, gags visuais, diálogos inspirados e o constrangimento dos personagens como fonte de graça – como, por exemplo, no instante em que Khrushchev tenta convencer Malenkov a trocar de lugar com ele durante o velório ou no plano em que outro personagem tenta cuspir em seus oponentes, esquecendo-se, contudo, que não é uma boa ideia fazer isso deitado. Do mesmo modo, a montagem de Peter Lambert sabe oscilar com eficácia entre o ritmo ágil que torna as trocas de diálogos e a ação mais divertidas e aquelas passagens que extraem graça da pausa momentânea, como na cena em que Vasily (Friend), filho de Stalin, tenta tomar de modo desajeitado a arma de um oficial.

Mas por melhores que sejam os elementos técnicos do filme (e o design de produção de Cristina Casali faz um trabalho de recriação de época notável), A Morte de Stalin é um filme que depende mesmo das performances de seu elenco – que se apresenta impecável. Jeffrey Tambor, como Malenkov, cria um sujeito inseguro e indeciso que parece incapaz de emitir sua opinião sem primeiro seguir a de todos que o cercam, insistindo aqui e ali em demonstrar a própria autoridade, mas sempre falhando (e a decisão da figurinista Suzie Harman de vesti-lo com roupas bem maiores do que seu corpo exige é inspirada, já que isso o deixa ainda mais infantilizado). Enquanto isso, o ex-Monty Python Michael Palin vive Molotov (sim, o coquetel foi batizado assim em sua homenagem) com modos que transparecem um medo constante de dizer algo comprometedor, o que o leva a assumir posições que denotam uma covardia tão grande que Beria mal consegue ocultar seu desprezo. Aliás, Simon Russell Beale, como este último, é o grande destaque do filme (ao lado de Buscemi), inserindo um tom arrepiante de satisfação nas falas mais desumanas do personagem e demonstrando absoluta confiança em si mesmo e em seus poderes para deter até o mais inteligente dos inimigos – e estes são mais do que representados por Khrushchev, que Steve Buscemi encarna com energia e o ar de impaciência típico de alguém que sabe estar cercado de imbecis. Assim, um dos maiores prazeres da obra é testemunhar os confrontos frequentes entre Beria e ele, o que envolve até disputar o afeto da filha favorita de Stalin, Svetlana (Riseborough), e tomar decisões que vão contra as próprias posições: ao ver que Beria decidiu soltar todos os prisioneiros políticos, Khrushchev – que defendia isso – protesta por saber que seu oponente só o fez por oportunismo político e que, pior, a estratégia funcionará.

Apostando nestas dinâmicas complexas, Iannucci encontra comicidade na hipocrisia de todos e as farsas que esta produz: diante do corpo de Stalin, por exemplo, cada subordinado primeiro encena todo um ritual de lamento e dor que os demais testemunham em silêncio embora saibam que se trata apenas de uma encenação que eles mesmos já fizeram. Assim, cria-se uma liturgia ridícula em que todos fingem acreditar no pranto uns dos outros e também fingem acreditar que os outros acreditaram no seu próprio embora todos saibam que todos estão fingindo.

Este nível de paranoia e dissimulação pode soar inacreditável e, em diversos momentos, A Morte de Stalin exagera propositalmente em sua narrativa. No entanto, Iannucci não faz isso apenas pelos risos, mas por também ter a consciência de que a sátira (e esta obra é essencialmente uma) aumenta a realidade não para zombá-la, mas para expô-la com eficiência muito maior do que a exatidão conseguiria.

11 de Junho de 2018

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Assista também ao videocast sobre o filme:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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