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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/12/2020 25/12/2020 4 / 5 3 / 5
Distribuidora
Disney
Duração do filme
100 minuto(s)

Soul
Soul

Dirigido por Pete Docter e Kemp Powers. Roteiro de Pete Docter, Mike Jones e Kemp Powers. Com as vozes de Jamie Foxx, Tina Fey, Graham Norton, Rachel House, Alice Braga, Richard Ayoade, Phylicia Rashad, Donnell Rawlings, Cora Champommier, Daveed Diggs, Wes Studi, June Squibb, Ochuwa Oghie, Jeannie Tirado, Questlove e Angela Bassett.

De certa maneira, o novo trabalho da Pixar, Soul, é o filme perfeito para encerrar 2020 mesmo que peque pontualmente com furos no roteiro, detalhes confusos sobre seu universo e soluções artificiais para certos problemas – afinal, depois de um ano que passamos isolados, presos em casa em função da pandemia, e com uma sensação crescente de desesperança e sufocamento, é difícil não nos rendermos a uma narrativa leve, bem intencionada e que busca nos lembrar de como podemos extrair significado mesmo dos menores prazeres da vida, como a sensação do sol no rosto (ainda que pela janela), o encanto de um céu de azul intenso ou a voz de alguém que amamos.


Isto é algo que escapa a Joe Gardner (Foxx), protagonista da história, que leva uma existência frustrada como professor de música de uma escola cheia de alunos desinteressados enquanto sonha, mesmo já se aproximando da meia-idade, com a grande oportunidade que o tornará um pianista reconhecido. Esta chance finalmente chega graças a um ex-aluno, Curley (Questlove), que agora toca bateria ao lado da célebre saxofonista Dorothea Williams (Bassett) e se lembra do antigo professor quando o pianista habitual do grupo se torna indisponível para um show. Depois de um inspirado teste no qual conquista (ao menos temporariamente) a vaga, Joe celebra a conquista pelas ruas de Nova York – até cair em um bueiro e se descobrir, confuso e transformado em fantasma, numa esteira gigante que o transporta para o Além-Vida.

Embora mais raros atualmente, filmes interessados em temas metafísicos, especialmente envolvendo personagens inconformados com a morte precoce, sempre despertaram a curiosidade de realizadores especializados em todo tipo de gênero, de Dois no Céu (e sua refilmagem Além da Eternidade) a Sombras da Vida, passando por O Fantasma Apaixonado, pelas várias versões de O Céu Pode Esperar, Ghost, Um Visto para o Céu e, claro, outra obra recente da Pixar, Viva: A Vida é uma Festa. Aliás, ao longo da narrativa, Soul encontra tempo até para encaixar outro elemento favorito de comédias do tipo, a troca de corpos, usando a atrapalhada expressão corporal de um personagem como um eco de Um Espírito Baixou em Mim. Apesar (ou por causa) disso, o humor presente aqui surge irregular ao investir em gags óbvias que podem até arrancar um sorriso aqui e ali, mas não muito mais. Para piorar, os três roteiristas (Mike Jones e os co-diretores Pete Docter e Kemp Powers) jamais estabelecem claramente as regras do mundo que criam, o que é fundamental em tramas que giram em torno de conceitos ambiciosos – e um trabalho que Docter fez de modo impecável em Monstros S.A. e Divertida Mente, por exemplo. Com isso, o filme é forçado a se manter explicando o que está acontecendo para o espectador ainda no terceiro ato, o que é um erro básico que enfraquece nosso envolvimento com a história.

Por outro lado, o design de produção é brilhante ao distinguir os vários planos de existência do longa, adotando um visual realista, quase de recriação fotográfica, ao retratar a Nova York habitada por Joe, investindo nos detalhes dos prédios, nas rachaduras das calçadas e nas manchas nas paredes da escola, por exemplo, ao passo que o Além-Vida se resume ao preto, branco e cinza – que, por sua vez, contrasta com o que podemos chamar de Aquém-Vida, cujo estilo é o mais claramente cartunesco de todos, desde o conceito simplista (mas expressivo) das almas novas até as linhas que parecem formar os instrutores “Zés” como criações inspiradas em Picasso. Para completar, o lugar em si é concebido como um espaço amplo de grama e colinas azuladas ocupadas por prédios claros de superfície fluida e cobertos por um céu que adota um gradiente agradável que vai do azul ao roxo em qualquer hora do dia (se é que lá existe “dia”).

Já a qualidade da animação em si é o que poderíamos esperar da Pixar, cujos artistas sempre impressionam com o cuidado nos menores movimentos de seus personagens e nas expressões de seus rostos – como, por exemplo, no modo como Joe sorri e balança levemente a cabeça quando o ex-aluno insiste em chamá-lo de “senhor” ou no rápido aborrecimento que toma conta do barbeiro Dez (Rawlings) ao ouvir a sugestão de que não é feliz com a profissão. Além disso, é sempre prazeroso constatar a confiança dos realizadores em transmitir sentimentos complexos sem a necessidade de diálogos, o que fica patente no olhar que Joe lança para as fotos de seus ídolos logo depois de receber a notícia de que será efetivado como professor, sugerindo seu dilema entre manter-se sonhando com uma carreira como músico e a necessidade de ter um emprego fixo.

É esta ansiedade do protagonista que, problemas narrativos à parte, torna Soul tão eficaz: elevado pelo prazer de criar música e enterrado pelo pragmatismo que a vida constantemente exige, Joe é um sujeito que atravessa a existência no piloto automático – e seu sonho com o sucesso como pianista há muito deixou de ser um plano e se tornou um anestésico para mantê-lo vivo, como se o simples ato de sonhar fosse uma maneira de se assegurar de não ter desistido. Porém, ao ver o próprio reflexo na janela do vagão do metrô, mentir para si mesmo se torna mais difícil; especialmente quando, ao seu redor, dúzias de pessoas exibem o mesmo olhar exausto e deprimido que ele sabe estar presente no próprio rosto.

Mas o mais admirável é perceber como o longa não tenta oferecer as respostas fáceis que tantas obras similares parecem julgar inspiradoras, como se nossa autorrealização fosse condicionada à conquista de um objetivo particular. Sim, costumamos nos enganar a este respeito com pensamentos do tipo “se eu ao menos conseguisse isso, seria feliz”, mas a verdade é mais complexa – e muitas vezes o tal “isso” é uma forma de resumirmos nossas frustrações em um único sonho em vez de encararmos que a “felicidade”, se possível for, é construída a partir de pequenas partes e vários componentes, raramente vindo pronta em um pacote com embalagem bonita. E estas partes geralmente passam despercebidas, já que são do tipo que provocam pequenos sorrisos que costumamos nem notar enquanto os oferecemos ao mundo que também tende a ignorá-los.

Embora seja ostensivamente sobre o que há antes e depois da vida, Soul é tocante por, em última análise, compreender que o que importa de fato é o que fazemos enquanto esta dura.

31 de Dezembro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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