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A Bruxa

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Robert Eggers. Com: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Wahab Chaudhry.

A Bruxa é um filme de terror menos preocupado com sustos do que com a ideia de explorar a escuridão dos indivíduos que habitam seu mundo. Durante a maior parte da projeção, o “terror” que define o gênero surge não em forma de espíritos malignos, zumbis devoradores de cérebro ou mesmo de bruxas literais, mas de dentro de seus personagens, manifestando-se na forma de estupidez, superstições e fundamentalismo religioso.

Trazendo vários diálogos que, de acordo com o roteirista e diretor Robert Eggers, foram transcritos de relatos reais registrados na Nova Inglaterra do século 17, o filme acompanha uma família que, logo no início da projeção, é expulsa do pequeno vilarejo que habita por razões que não ficam totalmente claras, mas que parecem uma resposta à interpretação extremada que o patriarca William (Ineson) faz da Bíblia e da própria fé cristã. Ao lado da esposa Katherine (Dickie), da filha adolescente Thomasin (Taylor-Joy), do pré-adolescente Caleb (Scrimshaw) e dos três filhos pequenos, o sujeito passa a ocupar uma cabana localizada à beira de uma floresta. Porém, o isolamento e o fracasso das colheitas começam a desgastar a família através da fome e de uma tragédia que acaba por comprometer de vez o equilíbrio psicológico de todos. Aos poucos, a jovem Thomasin passa a ser hostilizada pelos próprios parentes ao se tornar suspeita de bruxaria.

O que poderia ser um ponto de partida óbvio para um terror tradicional, porém, aos poucos cede lugar a uma narrativa mais preocupada com a sutileza do que com o medo ostensivo. Boa parte deste efeito de tensão constante é construída pela trilha eficiente de Mark Korven, que emprega vocais e sons dissonantes que, criados essencialmente por instrumentos de corda, mantêm o espectador em uma tensão constante que sugere uma ameaça cuja natureza não sabemos identificar, mas que certamente parece ter origem na floresta que cerca os personagens e que, fotografada por Jarin Blaschke como um paredão gigantesco e escuro, cria um tom claustrofóbico mesmo quando as cenas se passam no exterior da cabana. Além disso, o alto contraste presente nas cenas noturnas, que envolve todos em um manto escuro aparentemente impenetrável, não só mantém o tom sufocante como aponta sutilmente para a existência de um mal invisível que pode invadir o ambiente a qualquer momento.

Mas o incômodo despertado por A Bruxa é fruto também da maneira realista, ancorada num design de produção detalhista, com que as dificuldades da família para simplesmente sobreviver no início do século 17 são retratadas: um cotidiano de trabalhos braçais desgastantes, de higiene zero e de pouquíssimos recursos em caso de doença – e, não à toa, os realizadores levam o espectador a enxergar tudo através de uma paleta cinza, dessaturada e triste. Além disso, o design de som é inteligente ao usar ruídos e sussurros como fonte recorrente de incertezas e inseguranças – dos murmúrios vindos da floresta à simples (mas palpável) fragilidade de crianças que entreouvem conversas entre seus pais e pressentem a gravidade do que é dito mesmo sem serem capazes ainda de compreender o que a discussão envolve.

E, com isso, o filme transforma o desmoronamento gradual daquela família no centro de seu horror. William, Thomasin e os demais sabem que os laços afetivos estão se desfazendo e que feridas psicológicas profundas estão sendo abertas, mas carecem de sofisticação intelectual, cultural e emocional para compreender exatamente como impedir que isto aconteça.

Como fator complicador, claro, há o despertar sexual de Thomasin e suas transformações físicas – um recurso simbólico tão clássico no terror quanto, digamos, um vampiro ou... uma bruxa. Constantemente, em obras do gênero, a maturação feminina é vista como iniciadora de eventos sobrenaturais, de Carrie a Possuída, passando por A Marca da Pantera, Garota Infernal e A Experiência – e, em A Bruxa, Thomasin acaba sendo responsabilizada e demonizada simplesmente por se desenvolver, já que boa parte da agressividade com que passa a ser tratada é resultado direto do desconforto que provoca nos homens da família e, indiretamente, em sua mãe.

Neste aspecto, a discussão temática que o cineasta Robert Eggers propõe – o fundamentalismo religioso - é ainda mais apropriada, já que a sexualidade feminina é sempre um ponto de discórdia na maior parte das religiões organizadas, sendo encarada como fonte de “impureza”, “tentação” e “pecado”. O grande crime de Thomasin, portanto, é ser mulher, o que a torna alvo de recriminação e ataques resultantes da incapacidade dos demais em aceitar sua feminilidade – e quando a vemos encurralada e ameaçada em um canto da sala, estamos testemunhando a representação visual de séculos e séculos de opressão, agressão e sexismo.

A construção desta discussão através de alegorias visuais e verbais é tão cuidadosa e admirável que, assim, testemunhar os desastroso dez ou quinze minutos finais da projeção resulta numa decepção que quase compromete a percepção geral do projeto – e, sem revelar nada específico, aponto apenas para a tentativa mal sucedida de Eggers de tentar fazer duas coisas simultaneamente: levar o longa a funcionar como símbolo sem ceder à tentação de representar literalmente o horror que apenas sugeriu na maior parte do tempo. Não que isso seja impossível - como provam O Bebê de Rosemary e O Iluminado -, mas falta a Eggers a habilidade de um Polanski ou de um Kubrick para se equilibrar entre o horror real e metafórico, que, aqui, acabam sabotando um ao outro.

Até isto ocorrer, porém, A Bruxa é um belíssimo terror que compreende que não são precisos monstros fantásticos para destruir seus personagens; para isto, basta apenas a combinação perigosa da crendice, da culpa despertada por dogmas religiosos e da ignorância.

12 de Março de 2016

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Menos preocupado com sustos do que com a ideia de explorar a escuridão dos indivíduos que habitam seu mundo.

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário26 de dez. de 2019

Algumas pessoas que criticaram o final, a meu ver, parecem confusas a respeito da ideia da coisa. Minha interpretação é a seguinte: todos os macabros e trágicos eventos até logo antes da conclusão podem ser interpretados como retratados pelo ponto de vista (não confiável) dos personagens. Consumada a tragédia, com Thomasin agora sozinha, imagino que a moça nunca mais tenha sido vista, e pessoas que posteriormente encontraram as coisas naquele estado, inferiram, ou melhor, confabularam, a conclusão. A narrativa sobe vários degraus no quesito do "fantástico" nesses últimos minutos justamente por isso; já não estamos vendo os eventos através dos olhos daquela família, mas de pessoas que vieram depois. Neste ponto, a história está se desenrolando propriamente como uma lenda, uma estória de terror agora espalhada através da colônia, talvez, como apontado por Renata Aquino, um aviso a todos aqueles que considerem se desgarrar da comunidade (bem como um reforço às superstições misóginas da bruxaria, como não poderia ser diferente).

Wellington Ferreira da Costa Jr
Wellington Ferreira da Costa Jr2 de mai. de 2016

Ahhh achei nada haver a coisa do coelho rsrs achei sem nexo

Wellington Ferreira da Costa Jr
Wellington Ferreira da Costa Jr2 de mai. de 2016

Vi o filme ontem e achei ótimo, o fanatismo religioso etc a culpa inerente ao ser humano etc achei mto bem retratado, mas..(SPOILER !! ) aquelas questões das bruxas, o bode etc, e aquele final achei que saiu um pouco da trama, concentrada na familia, e não desenvolve nada sobre as bruxas de verdade, mas fora isso achei o filme sinistro e aquelas tomadas noturnas e dá impressão mesmo de terror, mto sombrio, mas sem uma gota de sangue,

 Gustavo Basso (Popices)
Gustavo Basso (Popices)20 de abr. de 2016

Não gostei muito do final mas não cheguei a me decepcionar dado que era meio previsível dada a sequência do bebê na floresta. Do mais um filme bem acima da média.

Iuri Palma
Iuri Palma6 de abr. de 2016

Minha leitura é que foi paranoia pura do início ao fim. O fato de o filme mostrar imagens "surreais" não quer dizer necessariamente que elas sejam "reais" (sic). Achei o filme ótimo, mas o povo que estava comigo esperava um filme de "terror" (e odiaram), o que definitivamente A Bruxa não é. Desnecessária a informação de que o roteiro foi baseado em casos reais. Isto não acrescentou nada.