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A Visita

★★☆☆☆2/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan. Com: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn, Celia Keenan-Bolger, Samuel Stricklen.

Quem já fez algum de meus cursos sabe que abomino as tais “estrelinhas”, que mantenho no alto de minhas análises apenas por uma convenção arcaica da profissão (e também porque muitos leitores protestaram nas duas ocasiões em que tentamos removê-las). No entanto, apenas como curiosidade, é revelador perceber como as cotações em meus textos sobre a obra de M. Night Shyamalan parecem contar uma história de glória-decadência-e-quem-sabe-algum-dia-alguma-redenção: 5 para O Sexto Sentido, 4 para Corpo Fechado, 3 para Sinais, 2 para A Vila, 1 para A Dama na Água e Fim dos Tempos e 2 para Depois da Terra (não escrevi sobre O Último Mestre do Ar, mas, consultando minha lista de 2010, vi que o classifiquei como “2 estrelas”). Ainda assim, a cada novo trabalho do cineasta, busco me prender à esperança de que testemunharei um retorno glorioso à promessa representada pelo longa de 1999 – embora, apenas ao perceber que ainda se tratava de um ano iniciado com o número “1”, seja difícil conter um certo desânimo.

Dito isso, A Visita representa uma indicação de que, no mínimo, Shyamalan finalmente percebeu não ser o gênio que obviamente passou a se considerar após Corpo Fechado e que o levou a incluir o próprio nome no título de seu trabalho seguinte (M. Night Shyamalan’s Signs) e a conceder entrevistas nas quais se comparava a Hitchcock. Contando uma história bem mais simples e praticamente limitada a um único cenário, A Visita acompanha um casal de irmãos, Becca e Tyler (DeJonge e Oxenbould), que viaja para passar alguns dias com os avós que nunca conheceram, já que sua mãe (Hahn) fugiu de casa com o namorado aos 19 anos. Inicialmente felizes ao perceberem que os velhinhos (Dunagan e McRobbie) parecem adoráveis e carinhosos, os jovens gradualmente notam certos comportamentos atípicos que geram uma insegurança crescente. Ah, sim: toda a narrativa é construída a partir das filmagens feitas pelos irmãos, já que Becca, que tem 15 anos de idade (sim), pretende transformar a visita em um documentário.

Com um roteiro que praticamente emprega todos os clichês do subgênero found-footage (ainda que aqui o “found” não seja o termo mais apropriado), Shyamalan inicialmente demonstra que suas habilidades como roteirista se mantêm a séculos de distância daquelas exibidas em O Sexto Sentido: seus personagens são pouco mais do que recortes unidimensionais, os incidentes retratados pouco têm de originais (a inspiração da fábula “João e Maria” é patente, sendo particularmente clara nas duas cenas envolvendo um forno) e a estrutura é – para ser caridoso – frouxa. Para piorar, ao investir na abordagem found-footage, Shyamalan se limita como diretor, abrindo mão justamente daquilo que ainda tinha como certo diferencial (mesmo que também tenha decaído nesta área) ao ser obrigado a manter a lógica da câmera que é sempre operada pelos próprios personagens.

Aliás, o curioso é que o cineasta parece perceber o problema que criou para si mesmo e, assim, logo traz Becca explicando conceitos como “mise-en-scène” para o irmão a fim de justificar o fato de que, na maior parte do tempo, Shyamalan e a diretora de fotografia Maryse Alberti adotam uma estética bem mais rigorosa do que aquela vista em filmes como A Bruxa de Blair e Cloverfield. Por outro lado, isto cria outra complicação ao fazer com que as imagens captadas pelas crianças sejam estáveis demais para o contexto no qual foram feitas (notem como, ao chegar na estação, Becca gira para a frente a câmera que apontava para si mesma e percebam como a panorâmica é feita num eixo horizontal praticamente – e inacreditavelmente – perfeito). Da mesma forma, o número de vezes em que a câmera é derrubada, caindo numa posição ideal para continuar a filmar o que está se passando, acaba se tornando ridículo em função da repetição.

E por que Becca e Tyler deixam a câmera ligada no canto do quarto enquanto dormem, já que não estamos vendo uma versão de Atividade Paranormal e, portanto, não há a necessidade de tentar registrar algum fenômeno misterioso? Ainda assim, mesmo que todos estes problemas pudessem ser ignorados, seria impossível perdoar o plano no qual a protagonista tenta abrir uma porta com a mão direita enquanto carrega a câmera com a esquerda e, subitamente, esta também surge em quadro para girar a maçaneta, levando à inevitável pergunta: ela está segurando o equipamento com a boca? Como se não bastasse, há um outro momento no qual Tyler coloca a câmera sobre uma prateleira e passa a conversar com a irmã enquanto o foco se altera precisamente entre os dois à medida em que cada um diz suas falas, indicando a presença de um operador invisível que realiza o rack focus com extremo cuidado.

Recheado de diálogos dolorosamente expositivos ou apenas óbvios em suas intenções (“Esta vai ser uma ótima semana. Ah, há mofo no porão; não queremos que fiquem doentes.”), A Visita traz também alguns momentos de humor surpreendentemente eficientes, como os estranhos que insistem em declamar para a câmera ao perceberem que estão sendo filmados e as expressões que Tyler usa para evitar dizer palavrões. Além disso, Shyamalan aqui e ali subverte nossas expectativas (como ao revelar o que há na cabana), conduzindo também seus atores com inteligência e quase evitando, assim, que a unidimensionalidade dos personagens se torne muito evidente – e o pequeno Ed Oxenbould, que já havia se revelado divertido em Alexandre e o Dia Terrível, Horrível, Espantoso e Horroroso, volta a se destacar aqui, praticamente roubando o filme.

Trazendo algumas cenas que fazem nos lembrar do velho Shyamalan (aquela que se passa sob a casa é um ótimo exemplo), A Visita, como não poderia deixar de ser, conta com a habitual reviravolta que se tornou marca registrada do diretor – mas, em vez de soar ridícula como aquelas nos longas pós-Sinais, desta vez a revelação realmente surpreende sem parecer estúpida ou uma mera obrigação autoral. Em contrapartida, é frustrante que o filme tenha que recorrer aos habituais ruídos altos e súbitos para gerar sustos e que jamais convença o espectador acerca do perigo que ameaça seus jovens heróis.

De todo modo, A Visita representa um leve avanço para Shyamalan, que ao menos não parece estar se levando tão a sério e nem obriga seus atores a recitarem os diálogos que escreveu como se estivessem lidando com algo sagrado.

E isso me traz esperanças de que as malditas estrelinhas agora passem a fazer uma contagem progressiva de seus novos esforços.

26 de Novembro de 2015

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
2.0
★★☆☆☆

Shyamalan finalmente percebeu não ser o gênio que obviamente passou a se considerar após Corpo Fechado.

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Avaliações dos Usuários

Ulisses Forattini Antunes
Ulisses Forattini Antunes3 de mar. de 2018

Como é comum nos textos do Villaça, encontrei erros GRAVÍSSIMOS de escrita crítica. Pontuo aqui alguns deles, em forma de perguntas: 1. O quê que você define como "clichês de found footage"? Você estudou as convenções do gênero da câmera intra-diegética? Você sabe o que é diegese? 2. "...demonstra que suas habilidades como roteirista se mantêm a séculos de distância daquelas exibidas em O Sexto Sentido..." você consegue usar um argumento que faça juz à sua tese que A Visita não seja um filme bom SEM USAR rótulos? Você copia o Rubens Edwald Filho ou realmente acha que o Cinema e os filmes podem mudar as pessoas? 3. Você já leu André Bazin e Michel Mourlet? 4. "...habituais ruídos altos e súbitos para gerar sustos e que jamais convença o espectador acerca do perigo que ameaça seus jovens heróis..." se você acha que ruídos altos e súbitos, que compõem o tal do jumpscare, são ultrapassados, qual terror você citaria que muda esse padrão? Se não, quais filmes de terror usam esse recurso dos ruídos altos? 5. "E por que Becca e Tyler deixam a câmera ligada no canto do quarto enquanto dormem, já que não estamos vendo uma versão de Atividade Paranormal e, portanto, não há a necessidade de tentar registrar algum fenômeno misterioso?" Respondendo a essa pergunta... porque eles não conhecem os avós? Hello? 6. found-footage (ainda que aqui o “found” não seja o termo mais apropriado) - é apropriado sim, uma vez que o final revela ser a transformação de um gênero linguístico-cinematográfico. O filme antes era encarado e proposto como found-footage documental e passou a ser um documentário amador de dois jovens. Um sério documentário, aliás. 7. "E isso me traz esperanças de que as malditas estrelinhas agora passem a fazer uma contagem progressiva de seus novos esforços" Não há problema em não curtir o Shyamalan. O problema é guardar recalques e apontar QUALQUER COISA diferente de seu vício de olhar como ERROS, usar RÓTULOS como ARGUMENTOS e NEM SE PREOCUPAR EM FUNDAMENTÁ-LOS, e, principalmente, NEM QUERER SABER AS INTENCIONALIDADES E BUSCAR AS EXPRESSÕES DO SHYAMALAN E DO FILME, duas coisas diferentes que acabam por se relacionar, e praticamente perduram todo os Filmes em Si e o Cinema. E humildade, Villaça. Humildade, outra coisa que falta. Para melhorar o sua crítica, recomendo a leitura do texto "Monsieur Hulot e o Tempo", da compilação de artigos "O Que é Cinema?", de André Bazin, e a página de introdução do mesmo livro.

Roberto França
Roberto França6 de jan. de 2016

Gostei muito do filme. Não achei nada demais uma terceira mão mágica ter aberto a porta. Aliás, nem percebi. O filme conseguiu ser mais divertido que muitas comédias por aí e bem mais emocionante que muitos dramas. Um filme que passeia por gêneros.

Richardor
Richardor4 de dez. de 2015

Roberval, Concordo com você. A Vila, em que pese as falhas de roteiro, em termos artísticos (o roteiro não é o cinema propriamente dito) é um filme belíssimo. Uma obra-prima doente, já que o roteiro prejudica a qualidade visual bem como toda a construção fílmica. Para mim, é ao lado de Corpo Fechado, A Vila é o melhor filme de Shyamalan.

StkiephenNoft
StkiephenNoft3 de dez. de 2015

Não concordo muito com 2 estrelas, merece com certeza mais, mesmo pelo clima de suspense e comédia imposta no filme, mas entendo essa avaliação por ser impossível desvincular os filmes do shyamalan e a relativa decadência da sua carreira. Mas o que eu discordo de verdade é com as 2 estrelas dadas à vila, obviamente o melhor filme do diretor, que consegue com o plot twist final apresentar uma crítica social incrível. PS. Seria fantástico se o Pablo avaliasse o filme goodnigth mommy, filme com opiniões mais controversas que ja vi nos últimos tempos.

Richardor
Richardor29 de nov. de 2015

Pablo, ao assistir o filme ontem tive a mesma impressão com relação a mão da garota (clímax do filme), contudo, ao rever o filme, pude constatar que você (também me encontrava) encontra-se enganado quanto a mão. A mão que sugeres surgir não aparece...