Dirigido e roteirizado por Anna Muylaert. Com: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Lais Dias, Daniel Botelho, Luciana Paes, Luciano Bortoluzzi, Helena Albergaria e Matheus Nachtergaele.
É curioso que Mãe Só Há Uma, novo filme de Anna Muylaert que segue o sucesso colossal de Que Horas Ela Volta?, tenha feito sua estreia mundial na mesma edição do Festival de Berlim que exibiu outro lançamento brasileiro com o qual divide seus principais temas: Antes o Tempo Não Acabava. Em ambos os longas, um adolescente enfrenta dilemas com relação à sua identidade que acabam se manifestando/confundindo também com a descoberta/exploração da própria homo ou bissexualidade (a ambiguidade a este respeito ocorre nos dois trabalhos).
Aqui, o protagonista é Pierre (Nero), um jovem que mora numa casa na periferia de São Paulo com a mãe, Aracy (Nefussi), e a irmã caçula, Jaqueline (Dias). Integrante de uma banda amadora, ele gosta de usar roupas femininas e, em casa, se tranca no banheiro para se admirar no espelho com a boca pintada de batom. E é então que cai a bomba: sua mãe é presa e acusada de tê-lo roubado na maternidade, criando-o como se fosse seu – e, de repente, Pierre se descobre Felipe e morando na casa dos pais biológicos, Matheus e Glória (Nachtergaele e novamente Nefussi), e com um irmão mais novo, Joca (Botelho).
A inspiração óbvia do roteiro da própria Muylaert é o caso do menino Pedrinho, que tomou conta do noticiário brasileiro há alguns anos. Tanto na história real quanto na ficcional, o adolescente subitamente vê todo o conceito que tinha de “família” desintegrar-se enquanto é atirado em outro núcleo que vive em circunstâncias completamente distintas.
É um tema com imenso potencial dramático: mesmo tendo tirado o garoto dos pais, a criminosa é, para este, sua mãe verdadeira, ao passo que as vítimas (os pais biológicos) agora soam como intrusos tentando roubá-lo de tudo o que aprendeu a amar. Além disso, ao descobrir-se com outro nome, sua identidade em si é alterada, literal e figurativamente. Para complicar ainda mais, há a separação da irmã que amava e por quem era amado, ruindo de vez toda sua estrutura familiar. Como processar tudo isso? Como se relacionar com os estranhos que o geraram?
São muitas possibilidades para desenvolver a narrativa e, assim, é profundamente decepcionante que Mãe Só Há Uma não procure explorar de fato nenhuma delas. Em vez disso, a busca de Pierre/Felipe para definir sua identidade sexual acaba dominando a projeção: assim que retorna da delegacia após descobrir ter sido roubado, por exemplo, o rapaz imediatamente se tranca no banheiro para se maquiar. Sim, isto poderia ser empregado como um símbolo ou uma síntese de seus duros embates internos, mas o filme parece não ter esta imaginação, jamais abrindo realmente a possibilidade para que os elementos sexuais signifiquem algo além da exploração de seu desejo (ao contrário de Antes o Tempo Não Acabava, onde isso fica patente).
Aliás, nem mesmo para estabelecer um contraste entre os dois núcleos familiares isto serve, já que Aracy não chega a descobrir a bissexualidade do garoto, enquanto Matheus, depois de uma explosão homofóbica ao ver o filho usando vestido, já aparece com este travestido em público na cena seguinte, sem que uma transição mínima torne a mudança de sua postura plausível (e se isto quase acontece é porque Nachtergaele é um ator cujo talento colossal chega perto de distrair nossa atenção do roteiro mal construído).
E já que mencionei o ator, é frustrante perceber como, depois do elenco brilhante de Que Horas Ela Volta?, este Mãe Só Há Uma traz intérpretes irregulares em papéis importantes, fragilizando ainda mais a narrativa – e o protagonista, Naomi Nero, é especialmente problemático, já que faz Pierre oscilar entre a introspecção absoluta e as explosões de raiva, falhando em levar o espectador a compreendê-lo ou mesmo a simpatizar com ele (e considerando que ele é o centro do filme, este é um problema gravíssimo). E, afinal, por que Muylaert escala Daniela Nefussi para viver as duas mães de Pierre/Felipe? Que ideia quer passar: a de que ambas são as mães do jovem à própria maneira? Ora, isso é óbvio e, aliás, o interessante seria justamente contrastá-las externamente para fortalecer a posição materna que ocupam. Por outro lado, os pequenos Daniel Botelho e Lais Dias dominam bem suas cenas, trazendo bem mais calor humano ao projeto do que aquele projetado pelo personagem principal (e confesso que eu preferiria tê-los acompanhado em vez de seguir Pierre).
Recheado de cenas dispensáveis que parecem ter sido criadas apenas para aumentar a (curta) duração da projeção, o filme inexplicavelmente inclui passagens que enfocam Joca em sua aula de judô e suas paqueras na escola (e até mesmo os colegas deste), contrastando com a eficiência narrativa de Que Horas Ela Volta?, onde cada cena tinha uma função e ajudava a desenvolver os personagens e a história. E já que mencionei aquele longa, é inacreditável perceber como Muylaert parece não ter visto o próprio filme, já que aqui traz uma empregada doméstica absurdamente estereotipada e que chega a beijar Pierre carinhosamente ao conhecê-lo, servindo apenas de figuração uniformizada no restante do tempo. Ora, por que a realizadora não empregou o tempo, por exemplo, para explorar o conflito inevitável entre o protagonista e a mulher que o roubou? Por que Aracy simplesmente não volta mais a aparecer ou a figurar significativamente nas discussões do rapaz? (Os diálogos, diga-se de passagem, são pavorosos, soando como improvisações no set de atores sem talento para isto, lembrando um pouco a experiência fracassada da diretora em Chamada a Cobrar.)
Decepcionante também ao usar a expressão da bissexualidade de Pierre/Felipe como um misto de provocação adolescente e fonte de humor, Mãe Só Há Uma frustra ainda mais por conter, espalhadas aqui e ali, cenas que demonstram o potencial da trama: o desabafo de Matheus no boliche e a réplica de Pierre por sentir-se roubado duas vezes são exemplos da força que a produção poderia ter evocado.
Uma das vantagens da ficção é que um realizador pode escolher o foco que quer adotar e as tramas que prefere explorar, permitindo que se desenvolvam com cuidado e profundidade. Ao não fazer estas escolhas, porém, Anna Muylaert frustra precisamente quando havia parecido cimentar sua posição como uma diretora excepcional. A impressão que temos, ao final, é que este novo longa foi realizado às pressas, sem tempo para amadurecer e explorar os temas e seus personagens – e esta percepção de falta de cuidado, mesmo que não seja real, beira o imperdoável.
Tomara que em seus próximos trabalhos Muylaert não volte a se sabotar. Ela tem talento demais para isso.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2016.
18 de Fevereiro de 2016

Infelizmente, não explora bem nenhuma das muitas possibilidades que a história oferece.