27 ANOS
InícioCríticasManchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Kenneth Lonergan. Com: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Susan Pourfar, Gretchen Mol, Tom Kemp, C.J. Wilson, Stephen Henderson, Tate Donovan, Kara Hayward e Matthew Broderick.

Minha avó Lourdes, uma das pessoas que mais amei neste mundo, morreu no dia 12 de dezembro de 2005. Havia saído para comprar os ingredientes da ceia de Natal que prepararia para a família quando um ônibus a atropelou na avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte – e quando assumi a tarefa de reconhecer seu corpo no IML, a fim de evitar que minha mãe fosse obrigada a isso, confesso não ter imaginado que carregaria aquela imagem para sempre. Nas 24 horas seguintes, escolhi seu caixão, providenciei a abertura da sepultura, levei a roupa com a qual seria enterrada até a funerária, novamente reconheci seu corpo para que este fosse liberado, acompanhei o transporte até o velório e, depois, seu caixão até o túmulo.

Ao chegar em casa, desmaiei pela primeira – e única - vez na vida.

Hoje compreendo como consegui executar todas aquelas tarefas: às vezes, a rotina (ou algo similar a ela) é a única forma de manter a dor sob controle.

Isto é algo que o diretor e roteirista Kenneth Lonergan sabe muito bem e, de certa forma, usa como base de Manchester à Beira-Mar, que tem início quando Lee (Affleck) é obrigado a retornar à sua cidade natal (a do título) ao ser informado sobre a morte do irmão mais velho, Joe (Chandler). Ocupado com a logística do funeral, ele salta de um compromisso a outro enquanto tenta lidar com o sobrinho adolescente Patrick (Hedges), cuja guarda agora é sua responsabilidade. O problema é que Lee nem considera a possibilidade de retornar definitivamente a Manchester, já que um evento trágico ocorrido ali provocou seu afastamento anos antes. Aos poucos, à medida que o filme emprega flashbacks para revelar a relação carinhosa entre Lee e Joe e também as circunstâncias que tanto feriram o primeiro, percebemos estar diante de um homem que há muito deixou de ser completo e que pouco interesse tem em voltar a sê-lo

Fotografado por Jody Lee Lipes com cuidado para estabelecer uma clara diferença de atmosfera entre o passado e o presente, contrastando a alegria daquele à melancolia deste, o longa frequentemente emprega também a montagem para reforçar a mudança do protagonista – como, por exemplo, ao cortar de um plano com cores quentes e o mar aberto para outro no qual Lee retira a neve da calçada em torno do prédio no qual trabalha como zelador. Por outro lado, é preciso apontar que as cenas ambientadas no presente não representam um mergulho constante na tristeza, já que Lonergan é inteligente o bastante para compreender que há momentos de leveza mesmo em meio à dor. Assim, em vez de ser retratado como um adolescente problemático e revoltado (uma decisão que roteiristas preguiçosos certamente tomariam), Patrick surge como um jovem que, mesmo triste com suas novas circunstâncias, não deixa de agir como alguém que, afinal, está atravessando um período no qual namoradas, festas e sexo se tornam uma quase obsessão. Além disso, tio e sobrinho são amorosos o bastante para reconhecer as dificuldades um do outro, o que os leva a buscar algum entendimento mesmo enquanto se confrontam.

Mas se a performance bem-humorada e madura do jovem Lucas Hedges é fundamental nesta dinâmica, o desempenho de Casey Affleck é instrumental para que o filme não desmorone. Imbuindo em Lee um desconforto constante e uma certa frieza em praticamente todas as suas interações no presente, o ator permite que percebamos que por baixo dos modos calmos e contidos do sujeito há um temperamento instável capaz de provocar uma explosão a qualquer momento. Resistente a assumir qualquer tipo de ligação ou responsabilidade mais forte (ele nem sequer aceita recomendar um modelo de vaso sanitário a um morador do prédio que cuida), Lee obviamente converte seus demônios pessoais em uma rudez que se destaca principalmente quando constatamos a doçura de seu irmão Joe, que Kyle Chandler encarna com imenso calor humano.

Humanidade, aliás, é a palavra-chave para definir Manchester à Beira-Mar, que não obriga seus personagens a se comportarem de forma artificial em busca do drama fácil: brigas se encerram com gestos de carinho (como o simples ato de vigiar o sono do outro), conversas são entremeadas pela dificuldade de se lembrar onde o carro foi estacionado e, naquela que é a cena mais tocante do filme (e que demonstra a sensibilidade de Michelle Williams), duas pessoas que ainda se amam profundamente tentam articular o impossível de forma desajeitada, já que é precisamente o amor que sentem uma pela outra que as impede de ficarem juntas, já que é também a lembrança do que construíram e perderam.

E é esta perda que, infelizmente, Lee permite que o defina – e o que faz ao sair de um interrogatório não apenas é um gesto brutal e chocante de desespero, mas de frustração diante do fato de que ninguém parece atribuir a ele a culpa que está convicto de merecer. Sob esta luz, seus impulsos agressivos deixam de ser uma válvula de escape e se transformam em uma busca constante por punição. A tragédia de Lee é ser uma pessoa doce presa no corpo de um indivíduo determinado a se destruir.

Ao final, contudo, Lonergan sabe que há dores que não se resolvem; no máximo, aprendemos a conviver com elas e a nos adaptar à realidade de que, a qualquer momento e sem aviso algum, retornarão como um soco na boca do estômago. Um soco que, por vir inesperada e intensamente, sempre provoca novos sangramentos.

Um soco como lembrar-me do corpo machucado de minha avó ao ver este filme onze anos depois de sua morte.

08 de Dezembro de 2016

(O Cinema em Cena precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Humanidade é a palavra-chave para defini-lo.

Compartilhe esta crítica

Ajude a divulgar o Cinema em Cena

Publicidade

Anúncio Responsivo

Anuncie no Cinema em Cena

O que você achou deste filme?

Compartilhe sua opinião e ajude outros cinéfilos a descobrirem grandes filmes

Publicidade

Espaço Publicitário

Anuncie no Cinema em Cena

Avaliações dos Usuários

User
Usuário5 de fev. de 2021

Há coisas na vida que não conseguimos superar. Só o fato de nos mantermos vivos, para alguns, já é sinônimo de força e coragem. Às vezes, Lee vai ao bar, enche a cara e agride físicamente alguém só pra levar à suposta surra que merece. A punição por ter deixado seus 3 filhos morrerem. Existem ainda muitos pontos a serem abordados sobre Manchester à beira mar que com o tempo e as necessidades surgiram .Até breve!

Edson Henrique
Edson Henrique16 de out. de 2017

Ontem parei em um canal e estava passando este filme que já estava quase na metade. Logo fiquei interessado e intrigado... Filme muito tocante, que prendeu minha atenção e aos poucos foi desvendando a raiva e tristeza que ele carregava. A cena do Casey com a Willians na calçada foi espetacular e mostra dois grandes atores. Vou assistir de novo e desde o começo desta vez!

Herli Joaquim de Menezes
Herli Joaquim de Menezes3 de out. de 2017

Vi e gostei muito de Manchester ao amenhecer e os seus comentários, Pablo, certamente me levarão a assistir o filme mais uma vez. O contraste entre o Lee antes da tragédia -- meio garotão, alegre com uma relação rica com a mulher, interpretada por Michelle Williams, que acho excelente, e com os filhos. Um aspecto que me parece interessante e fértil no filme é o da tragédia, O filme nos apresenta uma trama que, ao contrário da tradição, não nos leva à catarse, mas nos remete a um sentido moderno de uma cadeia de acontecimentos fortuitos, que se transformam em uma cadeia de causalidades que escapam ao controle de Lee. Embora sinta o contrário, culpando-se a todo momento, Lee é inocente, mesmo assim permanece nele amargas questões. E se ele não tivesse convidado os amigos para uma "farra" bem comportada em casa com os amigos? E se tivesse voltado no meio do caminho? E se não tivesse saído de forma intempestiva? E se tivesse verificado a lareira? Ao retornar, Lee descobre que está condenado a viver por toda a sua vida aquelas eternas lembranças não lhe dá outra saída senão conviver com os olhares que o incomodam, olhares de compaixão, talvez, mas que se apresentam como uma condenação, nem mesmo o perdão, o amor que a mulher ainda tem por ele são capazes de aliviar o peso da acusação que faz sobre si mesmo. O filme me fez refletir sobre o sentido do trágico em nossas vidas.

Marcus Vinicius
Marcus Vinicius1 de out. de 2017

Um filme tocante com uma grande carga dramática. Emocionado com o filme e com a crítica. Parabéns.

Julio Mandelli
Julio Mandelli13 de fev. de 2017

Pôxa,a gente comenta,mas depois apagam os comentários!