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O Amante Duplo

Crítico★★★☆☆3/5
5 min
O Amante Duplo
O Amante Duplo

Dirigido por François Ozon. Roteiro de François Ozon e Philippe Piazzo. Com: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset, Myriam Boyer, Dominique Reymond.

Eu detesto cotações – as infames “estrelinhas”. Além de achar ofensivo reduzir uma obra a um número, este é o único elemento que considero completamente subjetivo na crítica cinematográfica. Posso usar conceitos extraídos de princípios teóricos, estéticos e de linguagem para embasar um argumento, mas como posso justificar a diferença entre um filme 3 ou 4 estrelas? Além disso, há obras que provocam reações ainda mais complexas e que desafiam totalmente uma cotação ou mesmo a distinção entre o “aprovado” e o “reprovado”. Um caso que ilustra bem esta complexidade é O Amante Duplo, novo trabalho do cineasta François Ozon, pois posso afirmar com convicção que gosto e não gosto do filme – ao mesmo tempo.

Parece impossível, mas não é: O Amante Duplo é um longa que oferece interpretações (e, consequentemente, inspira reações) diametralmente opostas dependendo do que o espectador julga como sendo sua proposta: se o filme reconhece os clichês e convenções que emprega, mas os utiliza com o objetivo de se divertir com eles e consigo mesmo, é maravilhoso; se os inclui na narrativa por achar que funcionam, levando-se a sério, é um fracasso colossal. Aliás, mesmo que ele não esteja sendo irônico, é legítimo apreciá-lo como exercício de estilo enquanto rejeitamos este mesmo estilo como sendo de uma risível sexualidade kitsch.

A trama, claro, poderia ter sido concebida pelo Brian De Palma da primeira metade da década de 80: Chloé (Vacht) é uma garota atormentada por frequentes dores de estômago que os médicos já descartaram ter origem física. Angustiada e deprimida, ela procura a ajuda do psiquiatra Paul Meyer (Renier), que, ao longo dos meses seguintes, consegue conduzi-la a uma situação de estabilidade emocional, apaixonando-se por ela no processo. Depois que passam a morar juntos, Chloé começa a suspeitar de que o namorado esteja escondendo algo importante, comprovando a desconfiança ao descobrir que ele tem um irmão gêmeo, o também psiquiatra Louis.

Mas falar de O Amante Duplo é discutir seus primeiros minutos, que já estabelecem o tom da narrativa através, primeiro, da sequência de créditos, que traz os cabelos de Chloé sobre seu rosto como um véu preto, de luto; segundo, do plano que abre a trama em si e que é seguido por um raccord (um corte que cria continuidade entre os planos) genial não apenas em seu aspecto simbólico, mas também por denotar a coragem de Ozon em dar início ao seu filme com uma imagem e com um corte que ele sabe que deixarão o espectador boquiaberto e que não poderão ser superados por nada que virá depois (e não são). Claro que eu jamais me atreveria a descrevê-los aqui e, com isso, correr o risco de tirar seu impacto, mas aponto apenas que o detalhe da lágrima escorrendo é o arremate essencial.

Aliás, Ozon nunca foi um diretor que apreciasse a sutileza, algo que está patente aqui: das paredes com cores chapadas às fusões que colocam Chloé e Paul com os rostos colados durante suas sessões, o longa abraça o extremo não só em aspectos de seu design de produção, mas na maneira como retrata os encontros sexuais de Chloé e Louis, fazendo com que 50 Tons de Cinza, em comparação, pareça Frozen. (Basta dizer que o fato de a parceira estar menstruada não diminui a vontade de Louis de fazer sexo oral.) Já a trama é uma colagem de clichês dignos de uma novela: há gêmeos malvados, coincidências absurdas, recortes de jornal que revelam segredos e um mistério que só não é esclarecido rapidamente porque a protagonista parece nunca ter ouvido falar do Google – a não ser quando precisa encontrar um endereço.

Ozon se diverte, também, com os simbolismos que cria (na maioria das vezes, óbvios – propositalmente ou não), desde a diferença entre as plantas presentes nos consultórios dos irmãos (uma tem terra em seu vaso; a outra, não) até, como não poderia deixar de ser, os vários momentos nos quais vemos múltiplos reflexos dos personagens (eu abordei a obsessão de cineastas com espelhos na segunda parte da crítica de Cisne Negro). Da mesma maneira, há um comentário quase metalinguístico na forma com que Chloé é vista entre as obras de um museu, parecendo mais um dos objetos expostos do que uma segurança, o que reflete como o próprio diretor expõe sua atriz para o público.

Mas, no final das contas, o grau de apreciação do espectador por O Amante Duplo dependerá mesmo da resposta que julga como a correta para a pergunta “eu estou rindo do filme ou com ele?”, já que o impulso de rir é frequente durante a projeção. Ainda assim, mesmo que eu considerasse a graça involuntária, não poderia deixar de aplaudir em algum nível uma obra que abraça o camp e o ridículo de um thriller sexual oitentista com tamanha sinceridade e empáfia.

Não acredito em guilty pleasures, pois, se gosto de um filme, não me sinto “culpado”. E mais importante: certamente consigo explicar os motivos por trás deste sentimento mesmo que reconheça todos os problemas da obra. Mas se acreditasse... bom, O Amante Duplo sem dúvida alguma seria um deles. Assim, retornando ao dilema das estrelinhas discutido no início, o máximo que posso fazer para conciliar as reações extremas que este longa provoca é optar pela média entre as cotações máxima e mínima, atribuindo-lhe um três que vale ao mesmo tempo por cinco e por um.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

26 de Maio de 2017

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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Avaliações dos Usuários

WESLEY AMORIM LEMOS
WESLEY AMORIM LEMOS 17 de out. de 2018

GOSTEI MUITO TUDO NA MEDIDA CERTA

Guilherme luiz
Guilherme luiz4 de jul. de 2018

Concordo com a crítica no q respeita ao comeco do filme. Tipo, a primeira cena ja vale por 200 filmes bons. Bonita poética e extremamente original. O filme contém um erotismo q pula da tela e que me deixou ate zonzo. O dialogo cara a cara, os apertos de mao, pequenos gestos e nao gestos, exalam uma sensualidade de altissimo requinte. É um filme q sai do cinema achando bom, mas q so sentar no cafe depois e debate -lo, as cenas foram voltando à mente, ou melhor, pulando, uma a uma, todas merecendo algum comentario q culminavam em um aplauso ou um queixo caido. E achei q o filme rende uma grande homenagem ao Bebe de Rosemary e, por outro lado, tem uma pegada cisne negro, mas com menos histeria e com aquelas notas de sensualidade que so o cinema frances consegue alcançar.

marlene carvalho
marlene carvalho27 de jun. de 2018

Gostei muito da sua crítica,vi o filme ontem e fiquei também com a impressão de ter gostado e não gostado. Gostei porque o filme prende a atenção todo o tempo, nos levandoa perguntar o que vai acontecer em seguida. Mas não gostei das pontas soltas( a vizinha, os gatos). Lembrei muito de "Gêmeos-mórbida semelhança", de David Cronenberg, com Jeromy Irons . Jeromy-Jéremie, uma coincidência

Jefferson Abreu
Jefferson Abreu26 de jun. de 2018

Adorei a crítica. Cinema, no fundo, é isso, causar sensações e emoções diversas. Eu tenho um problema, ou talvez seja só, uma questão de perfil, eu adoro filmes assim, loucos e que brincam com as possibilidades. Gostei muito desse filme, talvez um exagero aqui ou ali, mas no fim acaba sendo satisfatório a experiência.

Fábio da Rocha Barros
Fábio da Rocha Barros22 de jun. de 2018

Adorei o conceito da “cotação de Schrodinger”, onde pode ser 1 ou 5 estrelas. Mas realmente, nota é o que menos importa em cinema. Fiquei curioso com este filme porque gosto desse estilo mais camp, exagerado e - de certo modo - livre. Cineastas como Almodóvar, Verhoeven, De Palma, Seijun Suzuki, Argento são um deleite de liberdade artística. Vou me permitir Ozon na equação.