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O Lar das Crianças Peculiares

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Tim Burton. Roteiro de Jane Goldman. Com: Asa Butterfield, Eva Green, Samuel L. Jackson, Rupert Everett, Allison Janney, Chris O’Dowd, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Kim Dickens, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton, Milo Parker, Raffiella Chapman, Pixie Davies, O-Lan Jones, Judi Dench e Terence Stamp.

Tim Burton é um diretor que sabe que as crianças gostam de sentir medo. Sua especialidade, como comprovam alguns de seus melhores trabalhos, reside na combinação entre o fabulesco e o tenebroso, entre histórias fantasiosas que trazem personagens desajustados encontrando um espaço de conforto e a constatação de que este espaço frequentemente envolve uma natureza sombria. Os heróis burtonianos clássicos (Edward Mãos-de-Tesoura, Ed Wood, o Victor de A Noiva-Cadáver e mesmo o Bruce Wayne de Michael Keaton) são indivíduos condenados à solidão por suas dores, seus traumas e suas sensibilidades que só descobrem alguma paz quando abraçam justamente as características que o mundo insiste em condenar.

Neste aspecto, O Lar das Crianças Peculiares é o veículo perfeito para o cineasta, já que envolve um protagonista, Jake (Butterfield), que se vê à vontade com o velho avô Abe (Stamp) e as histórias que este conta, mas não com o próprio e desinteressado pai (O’Dowd) ou com os colegas de escola, que só sabem atormentá-lo. Assim, quando Abe morre em circunstâncias misteriosas, o rapaz perde seu único amparo emocional – até descobrir que há verdade por trás dos casos que passou a vida ouvindo sobre o orfanato comandado pela Srta. Peregrine (Green) e habitado por crianças com fantásticos poderes. Viajando até o lúgubre vilarejo de Blackpool para explorar o local, Jake finalmente se vê diante das criaturas que julgava fictícias e que, agora ameaçadas por monstros que querem lhe devorar os olhos, precisam desesperadamente de sua ajuda.

O arco dramático a ser percorrido pelo jovem herói, claro, logo se torna óbvio: fragilizado por anos de bullying e pela baixa autoestima, o garoto aos poucos perceberá a própria força, achará um lugar no qual é querido, etc e tal. Porém, se a jornada do personagem é mais-do-mesmo, isto é compensado pelo universo no qual esta ocorre – e até mesmo a inexpressividade de Asa Butterfield se revela apropriada ao permitir que o rapaz sirva como uma tela em branco na qual o espectador possa se projetar e, ainda mais importante, ao atuar como contraponto à natureza extrema de seus companheiros de aventuras.

Adaptado a partir do livro de Ransom Riggs (que não li), o roteiro da geralmente competente Jane Goldman (Stardust, Kick-Ass, Kingsman) explora com particular talento as habilidades dos “peculiares” do título, o que não é exatamente uma surpresa se lembrarmos que a roteirista escreveu X-Men: Primeira Classe e desenvolveu o argumento de Dias de um Futuro Esquecido. Desta forma, um dos prazeres de O Lar das Crianças Peculiares envolve a descoberta dos talentos de cada criança e a interação entre estas: há, por exemplo, o garoto invisível, a menininha com uma força descomunal, a adolescente que precisa usar sapatos de chumbo para não flutuar e os pequenos gêmeos cujos rostos sempre cobertos por uma máscara nos deixam curiosos acerca de sua aparência e de seus dotes até o clímax. No entanto, ainda mais interessante do que estes dons atípicos é a atmosfera sombria e melancólica construída por Tim Burton, que mantém o público sempre inquieto com relação ao que espera Jake – algo que o diretor sugere, por exemplo, através da hesitação das crianças em compartilhar o que sabem com o novo amigo ou de um sorriso que subitamente deixa o rosto da srta. Peregrine quando o rapaz lhe dá as costas.

O excelente design de produção, como não poderia deixar de ser em um projeto de Burton, contribui para isso: o vilarejo que parece ter parado no tempo está sempre encoberto por névoa, os figurinos evitam que os pequenos se tornem adoráveis (as meninas parecem usar variações dos vestidos das gêmeas de O Iluminado), o “esconderijo” de Emma (Purnell) é basicamente um navio-fantasma apodrecido e o orfanato parece simultaneamente aconchegante e misterioso com seus inúmeros cômodos e o vasto jardim que o cerca - com direito a “esculturas” que remetem a Edward Mãos-de-Tesoura. Enquanto isso, a fotografia se torna tão dessaturada em seus tons de cinza que chega a flertar de perto com o preto-e-branco ao ilustrar o mundo de Jake, ganhando vida apenas quando este conhece seus novos amigos. (Aliás, o 3D presta um imenso desserviço ao projeto, drenando tanto as cores que só descobri que o cabelo da srta. Peregrine era azul ao assistir ao trailer do longa antes de escrever este texto.)

Mas o mais notável na narrativa é comprovar a experiência do cineasta ao tornar seu filme macabro, mas mantendo sempre uma pontinha de leveza para evitar que os espectadores mais jovens fiquem excessivamente atemorizados – um equilíbrio que Burton já exibe desde o princípio ao criar créditos iniciais com um tom sinistro que imediatamente cedem lugar à imagem ensolarada de uma praia na Flórida. De maneira similar, a figura impactante de um personagem cujos olhos foram removidos é contrabalançada pela graça de vê-lo dizer “Sei que você me acha louco, mas a ave explicará tudo”. E não é à toa, tampouco, que Samuel L. Jackson, que aqui surge num visual apavorante como o vilão Barron, faça constantes piadas com seus alvos, usando o humor para fugir do grotesco absoluto.

Incluindo ainda homenagens mais do que apropriadas a Ray Harryhausen em dois momentos distintos, O Lar das Crianças Peculiares se perde um pouco em seu clímax ao render-se a sequências de ação burocráticas e a confrontos frágeis, mas ainda assim é suficientemente competente em seus dois primeiros atos para despertar a vontade de voltarmos a visitar seu universo, seus personagens e seus pequenos horrores.

29 de Setembro de 2016

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Assista também ao vídeo com comentários SEM spoilers sobre o filme:

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Equilibra-se muito bem entre o leve e o macabro.

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Avaliações dos Usuários

Mariana Fabris Xavier
Mariana Fabris Xavier15 de out. de 2016

Detalhezinho que achei bacana: as cores dos cabelos das Ymbrenes eram semelhantes as cores das suas penas :3

Érica Torres
Érica Torres8 de out. de 2016

Bela crítica, belo site. Parabéns. Mas fiquei intrigada: UATARRÉU o cabelo dela é azul??! :o

Henrique Xaxá
Henrique Xaxá4 de out. de 2016

Ótima crítica, Pablo! Peço permissão para colar a minha aqui. Abraços e bons filmes! "Contando com uma história sombria (pontuada com momentos de humor), Tim Burton apresenta em O Lar das Crianças Peculiares um universo fantástico - promovendo uma experiência visual impressionante. O filme falha apenas em algumas partes do roteiro, prejudicando o ritmo. O personagem principal é Jake (Asa Butterfield), um adolescente que passou a infância ouvindo as histórias de seu querido avô Abe (Terence Stamp) sobre o orfanato da Srta. Peregrine (Eva Green) e as crianças com habilidades sobrenaturais. Quando o avô de Jake sofre um ataque misterioso, deixa pistas para que o protagonista descubra os segredos por trás do incidente. Partindo em viagem para uma ilha em Gales, Jake encontra o tal orfanato, conhecendo a Srta. Peregrine e as crianças peculiares. O garoto se dá conta de que as histórias de seu avô eram verdadeiras e percebe que possui uma ligação com aquela realidade. Logo lhe é revelado que a Srta. Peregrine e as crianças correm grande perigo e ele precisa ajudá-las contra criaturas horrendas comandadas por Barron (Samuel L. Jackson). Não há dúvidas de que essa história tem a “cara” do Tim Burton (Edward Mãos-de-Tesoura, A Noiva-Cadáver, A Fantástica Fábrica de Chocolate) . O diretor é conhecido por criar climas sombrios e assustadores em seus filmes e personagens (sempre com tom misterioso) e isso ele faz muito bem em O Lar das Crianças Peculiares. A narrativa do longa é construída para deixar o espectador apreensivo e temeroso pelo o quê pode vir a acontecer. Porém, os momentos de susto e tensão logo são suavizados (de maneira acertada) com o uso do humor, considerando que o público-alvo é o infanto-juvenil. E é interessante notar como o diretor parece se divertir ao realizar pequenas homenagens durante o longa. Ressaltando o tom macabro, os monstros vilanescos são deveras assustadores e bem concebidos. Ao juntar o bom design de produção com efeitos digitais e práticos, o resultado é uma experiência visual impressionante que possibilita uma maior imersão do público no universo do filme. As cenas em que as crianças demonstram suas peculiaridades são belas de apreciar (assim com as batalhas) e a sequência em que Emma Bloom (Ella Purnell) conduz Jake (Butterfield) até seu esconderijo, particularmente, me encantou os olhos. O visual do filme fez ótimo uso do roteiro de Jane Goldman (Kick-Ass, Kingsman, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido). Já esta teve o desafio natural de adaptar a fabulosa história do livro best-seller O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares de Ranson Riggs. De modo geral, a construção da trama é eficiente. Os dois primeiros atos são lentos (de forma compreensível) ao estabelecer as regras desse novo universo (Jake vai aprendendo tudo junto com o público). No terceiro ato, como se não houvesse mais tempo para terminar a história, o filme acelera demais os acontecimentos, ocasionando resoluções superficiais e levando o espectador a ter que simplesmente aceitar algumas situações (observe como tudo tende a dar certo nos conflitos finais). Há também algumas inconsistências, fora que a relação de Jake com as crianças (e suas peculiaridades) poderia ter sido mais explorada. Asa Butterfield protagoniza um Jake apático que vai ganhando forças a medida que este entende seu dever. O personagem também funciona como uma extensão do público até o universo do filme, o que explica sua passividade - porém é de se esperar mais expressividade numa possível continuação. Eva Green demonstra em sua Srta. Peregrine, uma diretora acolhedora e encantadora, mas cheia de mistérios. Representando o antagonista, Barron de Samuel L. Jackson é ao mesmo tempo assustador e irônico, soltando piadinhas colocadas entre seus feitos ameaçadores. Terence Stamp faz uma participação no filme ao dar vida a Abe, o avô de Jake e por quem este possui muita afeição. A jornada do protagonista é acompanhada pelo inteligente uso da fotografia de Bruno Delbonnel. Jake (Butterfield) passa a vida sentindo-se deslocado: sua relação com o pai (Chris O’Dowd) é distante e pouco (ou nada) afetiva. O garoto tampouco se dá bem com os colegas de escola, pois sempre foi alvo de piadas. Nesse sentido, a cor cinza presente no início se faz condizente ao sentimento do personagem por mostrar frieza e certa tristeza de Jake, ao passo que também remete o clima sombrio e misterioso que envolve a trama. Isso muda quando o jovem conhece as crianças peculiares do orfanato da Srta. Peregrine: o ambiente fica colorido e alegre - e o herói encontra seu propósito. Importante destacar aqui a ineficiência do 3D ao escurecer demais a película, prejudicando a experiência. Por mais que deixe a desejar no ritmo e em alguns pontos do roteiro, O Lar das Crianças Peculiares não compromete a incrível experiência visual proporcionada pela projeção. A história é tão intrigante que fica aquele “gostinho de quero mais” quando os créditos finais começam a subir. Imaginem o quanto é possível explorar dali... Bom... Que não demore a chegar nos cinemas mais peculiaridades desse universo! Nota do crítico: 3.0/5.0. Por Henrique Xaxá. Crítica disponível em Portal Refil."