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O Que Te Faz Mais Forte

★★☆☆☆2/5 estrelas
12 min

Dirigido por David Gordon Green. Roteiro de John Pollono. Com: Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Richardson, Richard Lane Jr., Nate Richman, Lenny Clarke, Patricia O’Neil, Clancy Brown, Katharine Fitzgerald, Danny McCarthy, Frankie Shaw, Carlos Sanz.

Erin Hurley é uma jovem ativa e independente que tem o sonho de concluir a maratona de Boston – algo que se prepara para fazer na edição de 2013. Cansada da falta de iniciativa e da imaturidade do namorado, ela termina o relacionamento, mas ele, esperançoso em reatar, decide esperá-la na linha de chegada do evento e acaba tornando-se vítima da bomba caseira detonada por dois terroristas, perdendo as pernas na explosão. Sentindo-se culpada, Erin abandona o emprego e passa a se dedicar exclusivamente ao rapaz, ajudando-o a se adaptar à sua nova realidade e lidando com o mergulho deste no alcoolismo e na depressão, impressionando por sua força e determinação.

Infelizmente, não é ela a protagonista de O Que Te Faz Mais Forte, mas o namorado.

Baseado na autobiografia de Jeff Bauman (o que explica por que este é o centro da narrativa, não Erin), o roteiro do estreante John Pollono se concentra em acompanhar o rapaz (Gyllenhaal) enquanto este enfrenta as dificuldades de alguém atirado numa situação tão extrema, falhando em perceber que, apesar de sua trajetória potencialmente dramática, o sujeito jamais se revela uma figura particularmente interessante, ao passo que sua companheira (Maslany) conta com todas as características de uma heroína em meio a uma jornada tocante de dor e sacrifícios.

Dirigido por David Gordon Green sem qualquer sutileza, o longa já tem início com as vozes de âncoras de tevê prevendo “um dia perfeito” e afirmando que “este ano será bom”, buscando martelar no espectador uma ironia óbvia diante do que já sabemos que irá ocorrer dali a alguns momentos. Esta mesma estratégia narrativa de anunciar explicitamente suas mensagens e emoções mostra-se presente na maneira como a família de Jeff é retratada: sempre gritando e brigando uns com os outros para demonstrar como na verdade se amam e exibem o “calor humano” das classes trabalhadoras das periferias dos grandes centros norte-americanos e que costumam ser chamadas grosseiramente de “white trash” (pensem na mãe e nas irmãs do personagem de Mark Wahlberg em O Vencedor, mas com uma Miranda Richardson caricatural, sempre fumando, tossindo, bebendo e dizendo palavrões em vez da composição bem mais complexa de Melissa Leo).

E o mais lamentável é que o filme tinha potencial para desenvolver uma discussão interessante sobre heroísmo (ou “heroísmo”) e a necessidade de símbolos em momentos de consternação geral. Sem compreender por que é visto como herói apenas por ter sobrevivido a um atentado e descrito um dos terroristas para o FBI, Jeff é obrigado a lidar não só com o peso de sua tragédia pessoal, mas também com a obrigação de ser a imagem da esperança, da perseverança, da vitória dos bons sobre os maus. Porém, se em público ele se esforça para fazer sinais de positivo e sorrir, a realidade é radicalmente diferente longe dos holofotes: ele se torna dependente de outras pessoas para realizar ações básicas como ir ao banheiro ou tomar banho, as dores são frequentes e o processo de reabilitação é árduo.

Competente ao retratar estes dilemas em passagens mais intimistas, Jake Gyllenhaal – um intérprete que normalmente admiro – acaba se rendendo ao histrionismo nas cenas com maior potencial dramático, levando o público a ver não o personagem, mas a atuação por trás deste. É um erro de modulação que Gyllenhaal comete ocasionalmente (como em Okja e Nocaute) e que aqui prejudica a performance como um todo. É curioso, por exemplo, perceber o número de vezes em que o ator ergue os braços para simular comemoração e mostra o polegar de forma característica, permitindo que percebamos como provavelmente viu o verdadeiro Bauman fazendo aqueles gestos e decidiu replicá-los com a maior frequência possível. Em contrapartida, Tatiana Maslany, que eu conhecia apenas do ótimo Corações Gelados (eu sei, tenho que ver a série Orphan Black), cria uma figura multidimensional que se vê presa entre o senso de obrigação, a culpa, o amor, a impaciência e a frustração crescente ao constatar como a tragédia não alterou de fato o que a incomodava no namorado antes do atentado – e é comovente vê-la lutando entre o desejo de permanecer ao lado de Jeff e os constantes desapontamentos que este lhe causa.

Sempre eficiente em seus efeitos visuais, que transformam Gyllenhaal em um amputado convincente (é uma coincidência interessante que o verdadeiro Jeff Bauman tenha feito uma piada sobre o Tenente Dan de Forrest Gump, já que a tecnologia criada para remover digitalmente as pernas de Gary Sinise é fundamental aqui), O Que Te Faz Mais Forte peca por soar apelativo aqui e ali ao criar planos cujo único propósito parece ser o de explorar a mutilação sofrida pelo protagonista. Por outro lado, as sequências envolvendo os profissionais que cuidam do rapaz (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas) trazem sempre uma autenticidade notável, destacando-se a cena na qual as bandagens das pernas de Bauman são removidas pela primeira vez – e a decisão do cineasta de manter o rosto de Gyllenhaal em primeiro plano, com a ação fora de foco ao fundo é brilhante. Aliás, é justamente por acertar tanto em passagens como esta que David Gordon Green decepciona tanto ao tropeçar na artificialidade de momentos como aquele que envolve um policial pedindo autógrafo ou o terrível quadro no qual vemos toda a família do protagonista agrupada ao pé de sua cama de hospital.

Mas um dos aspectos mais problemáticos da obra é mesmo sua incapacidade de definir como se posicionar sobre as discussões que levanta, optando por resolvê-las abruptamente e de maneira implausível. Durante a maior parte da projeção, por exemplo, a personagem de Miranda Richardson se apresenta como uma figura mais preocupada com a fama recém-conquistada do que com os efeitos que esta tem sobre Jeff, como se constatasse que só conseguiu “ser alguém” por ter um filho cujas pernas foram destruídas por terroristas – uma postura que se altera radicalmente, de forma súbita, em uma rápida conversa dentro de um carro, como se o filme julgasse ter chegado de uma hora para outra o momento de solucionar aquela subtrama. Para piorar, a própria relação entre o casal principal é amarrada de modo anticlimático e frágil, tentando forçar uma resolução que o filme sabe ser falsa.

Preso a um protagonista passivo, desmotivado e irritante na maior parte do tempo (mesmo que tenha motivos para isso), O Que Te Faz Mais Forte erra ao girar em torno de um jovem que era aborrecido antes de virar um símbolo - e que assim permaneceu - em vez de se concentrar na fantástica mulher que, a julgar por este filme, provavelmente não merecia ter ao seu lado.

07 de Fevereiro de 2018

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
2.0
★★☆☆☆

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Avaliações dos Usuários

Maria Luisa Porto
Maria Luisa Porto 28 de fev. de 2018

Estava afastada dos seus comentários por motivos que não vem ao caso. Nessa manhã levantei me lembrando de você e de seus comentários,que não são apenas comentários são aulas de cinema. Estou feliz e hoje muito pouca coisa me deixa feliz. Seus comentários me fazem perguntas algumas que tenho que mergulhar nas minhas emoções e momentos de vida para responder a mim mesmo. Estou feliz. E espero que você, moço, também esteja ou ao menos tranquilo. Hoje já é um sucesso conseguir conviver com nossas contradições.