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O Sacrifício do Cervo Sagrado

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Yorgos Lanthimos. Roteiro de Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou. Com: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy, Sunny Suljic, Bill Camp e Alicia Silverstone.

O grego Yorgos Lanthimos não tem qualquer problema com o desconforto alheio. Aliás, considerando as reações que ele se esforçou para provocar no espectador com seus ótimos Dente Canino e O Lagosta, assistir a um filme do cineasta é quase uma garantia de duas horas movendo-se na poltrona para apaziguar a inquietação crescente – e é exatamente isto que temos em seu novo O Sacrifício do Cervo Sagrado. O fascinante no Cinema de Lanthimos, porém, é que ele não cria este tipo de narrativa gratuitamente, apenas pelo prazer do choque, mas sim para dar vazão à sua visão claramente autoral, que conta com uma lógica sólida, mesmo que nem sempre facilmente compreendida (e julgando o número de críticos que deixaram a sessão do longa no Festival de Cannes – especialmente depois de um incidente específico que todos que virem a obra reconhecerão -, há muitos profissionais reclamando da mesmice do cinema contemporâneo, mas sem estômago para ter sua queixa atendida).

Abrindo a projeção com uma música operática, de tons trágicos, sobre a tela completamente escura, o longa já começa a construir sua atmosfera lúgubre a partir do primeiro segundo, cortando a seguir para um coração exposto durante uma cirurgia cardíaca – e é o cirurgião Steven Murphy (Farrell) que iremos acompanhar a partir deste instante. Barbudo e com modos secos, o médico se encontra com o adolescente Martin (Keoghan), filho de um ex-paciente e com quem parece manter algum tipo de amizade. As coisas começam a mudar, no entanto, quando o caçula de Steven, Bob (Suljic) subitamente perde o movimento das pernas, sendo submetido a todo tipo de exame sem que um diagnóstico seja alcançado. À medida que o garoto piora, a filha mais velha do protagonista, Kim (Cassidy), também começa a adoecer, provocando o desespero de sua mãe, Anna (Kidman).

Seguindo um padrão já estabelecido em seus filmes anteriores, Lanthimos leva seus atores a recitarem suas falas em tons baixos e sem quaisquer inflexões, como se houvessem se condicionado a eliminar o sentimento de suas vozes. Mais do que isso: é como se todos naquele universo exibissem algum grau de autismo, já que parecem não compreender muito bem como responder uns aos outros, criando interações rígidas e durante as quais há sempre um incômodo subjacente, sendo surpreendente e divertido, para o espectador (mas não para aquelas pessoas), quando durante uma festa Steven casualmente conta a um colega como sua filha acabou de menstruar pela primeira vez.

Não é que os personagens não sintam, pois sentem; apenas não veem necessidade de expressar estes sentimentos em suas conversas. Aliás, é notável como Farrell e Kidman levam o público a perceber o sofrimento do casal Murphy mesmo com seus discursos monocórdicos, evocando uma angústia crescente a partir de seus olhares ou pequenas quebras nos padrões de seus diálogos. Enquanto isso, o jovem Barry Keoghan cria uma figura assustadora em sua impassividade, projetando um ar de ameaça palpável sem jamais erguer a voz ou demonstrar nervosismo.

A estratégia visual de Lanthimos e do diretor de fotografia Thimios Bakatakis colabora para a eficácia deste estranho universo, obviamente, sendo verdadeiramente brilhante o uso constante de grandes angulares que não só deformam os cenários em suas laterais como os expandem em sua profundidade, deixando os personagens ainda menores e mais frágeis (e o fato de normalmente estarem deslocados para um quadrante inferior do plano é outro recurso de linguagem fabuloso). Além disso, ao manter a câmera se movimentando constantemente em lentos travellings por todos os ambientes, os cineastas sugerem para o público de forma sutil que algo ameaçador está sempre prestes a acontecer, criando ecos inconfundíveis da abordagem de Kubrick em O Iluminado (o que é sublinhado também pelos longos corredores e pela trilha sonora).

Abraçando de vez a vibração funesta em seu sufocante ato final, O Sacrifício do Cervo Sagrado curiosamente se torna mais pessimista à medida que seus personagens demonstram uma vontade cada vez maior de viver – e mesmo ofertas de auto sacrifício são feitas não legitimamente, mas como uma tentativa de provar o próprio valor e, consequentemente, comprovar o direito daquela pessoa à vida, ainda que ciente de que isto significará a morte de outro membro da família. Desta forma, quando todos se reúnem na sala em um momento que não preciso descrever para que quem assistiu ao filme o reconheça, o sentimento que experimentamos oscila entre o puro horror e a constatação de que o que testemunhamos não poderia ser diferente.

E esta é a diferença entre o puro niilismo e uma narrativa que emprega a destruição não como choque gratuito, mas para dizer algo sobre a natureza humana. Mesmo que o que diz provoque repugnância.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

23 de Maio de 2017

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

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Avaliações dos Usuários

Ricardo
Ricardo23 de jan. de 2019

Assisti recentemente o filme... apesar de toda essa estranheza, o filme é incrível! Sobre a "doença" que a Camila Bittencourt citou, eu acredito que não há nada de "sobrenatural"... há um momento em que comentam ser algo "psicossomático"... e se o personagem hipnotiza as pessoas?

Camila Bittencourt Dantas
Camila Bittencourt Dantas8 de out. de 2018

Gostei bastante do filme e de toda sua estranheza, principalmente pela forma mecânica dos diálogos, que não tira a humanidade dos personagens. Estou lutando aqui para entender por que a mãe, personagem da Nicole Kidman não adoece como os filhos. Qual a opinião de vocês?

RODRIGO BADARO DE CARVALHO
RODRIGO BADARO DE CARVALHO27 de mai. de 2018

Confiei em você nessa e me frustrei, Pablo! Rs O filme prende a atenção, te deixa angustiado na maior parte da trama - e esse é um mérito extraordinário para um filme que tem essa pretensão. Mas a história não se explica. Me deu a sensação de que faltou algo no final para explicar. Se houvesse, colocaria no nível de outros suspenses recentes de altíssimo nivel, como Get Out (Corra!) e A Quiet Place (Um lugar silencioso).

DIOGO ALVES NOVAES
DIOGO ALVES NOVAES26 de fev. de 2018

Excelente texto, Pablo, como sempre, vocês está de parabéns. Assim que terminei de ver este filme, uma certeza me ocorreu: este filme é uma das melhores coisas que já assisti. Um filme inquietante, estranho (no melhor sentido da palavra) e que tem muito a dizer nas camadas mais profundas. Um excelente filme, me fez despertar por este nome, Yorgos Lanthimos.

Jorge Duete
Jorge Duete9 de fev. de 2018

Hum... estranho... esquisito... um filme apavorante! Não no sentido convencional. Extremamente bem dirigido e bem atuado. Vale a pena pela originalidade. Difícil ver coisas novas hoje em dia. Esse filme é coisa nova. Perturbador!