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Sobre Meninos e Lobos

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Clint Eastwood. Com: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Marcia Gay Harden, Laurence Fishburne, Laura Linney, Tom Guiry, Emmy Rossum, Spencer Treat Clark, Andrew Mackin e Eli Wallach.

Escrever sobre uma produção como Simplesmente Amor é relativamente fácil: afinal, como eu disse em minha análise sobre aquele filme, o sentimento ao sair do cinema era de um óbvio `bem-estar`. Por outro lado, trabalhos como Sobre Meninos e Lobos são infinitamente mais complicados de se `dissecar`, já que sugam impiedosamente o espectador, empurrando-o para fora da sala com uma sensação de inquietação e angústia – sensação esta que, muitas vezes, é confundida com o diagnóstico de `não gostei`. Povoado por personagens frios, confusos e tristes, este novo trabalho de Clint Eastwood representa, de fato, uma experiência emocionalmente frustrante – e não foi à toa que precisei assisti-lo três vezes antes de considerar-me apto a escrever este artigo.

Baseado no livro de Dennis Lehane, Sobre Meninos e Lobos gira em torno de três antigos amigos de infância - Jimmy Markum (Penn), Dave Boyle (Robbins) e Sean Devine (Bacon) – que tiveram suas vidas marcadas por um trágico incidente ocorrido há cerca de 30 anos: certo dia, enquanto brincavam na rua, os garotos foram abordados por dois homens que se identificaram como policiais e obrigaram Dave a acompanhá-los. Levado para uma casa abandonada situada no meio de uma floresta, o menino foi violentado durante quatro dias até conseguir escapar. Com o passar dos anos, os três foram se tornando distantes e acabaram por se transformar em meros conhecidos – até que o brutal assassinato da filha adolescente de Jimmy os aproxima novamente.

Depois de comandar o terrível Dívida de Sangue (que, por sua vez, veio depois do ótimo Cowboys do Espaço), Eastwood se redime ao imprimir grande segurança a Sobre Meninos e Lobos, que conta com personagens extremamente bem definidos, nada unidimensionais. Analisando com delicadeza as conseqüências de tragédias como a morte de Katie e o seqüestro de Dave na vida daquelas pessoas, o veterano cineasta demonstra que o impacto provocado por certos acontecimentos podem nos afetar de tal maneira que, na maior parte das vezes, nossas reações se tornam absolutamente imprevisíveis. Aliás, o filme possui uma forte semelhança temática com Os Imperdoáveis, que Eastwood comandou em 92 e que também girava em torno de personagens atormentados (e condenados) por um passado de violência.

Porém, não há como ignorar o fato de que Sobre Meninos e Lobos é uma produção cuja força principal reside nas excepcionais atuações de seu elenco – e, neste caso, é impossível não citar, em primeiro lugar, o desempenho de Sean Penn (que considero o melhor ator de sua geração). Compondo seu personagem a partir de detalhes precisos, Penn ilustra a natureza imprevisível de Jimmy logo nos primeiros minutos de projeção: precisando usar óculos para discar um número de telefone e para fazer contas no escritório situado nos fundos de sua mercearia, ele parece ser um homem comum de meia-idade que leva uma vida consideravelmente enfadonha. No entanto, esta primeira impressão logo se desfaz ao percebermos suas inúmeras tatuagens e ao testemunharmos a firmeza com que ele se dirige aos irmãos Savage, dois criminosos do bairro: somente então percebemos que o passado de Jimmy está longe de ser o de um `comerciante pacato` – e sua explosão de dor e revolta ao descobrir a morte da filha torna-se assustadora por evidenciar a intensidade com que aquele homem pode extravasar suas emoções.

Aliás, não é difícil imaginar o que atraiu o ator para este projeto: em seus trabalhos como diretor, Penn sempre se mostrou obcecado em estudar as relações familiares (especialmente depois de uma grande perda) e também a tragédia representada pela morte de uma criança – dois fortes elementos de Sobre Meninos e Lobos. Assim, por mais que Jimmy tente anestesiar o próprio sofrimento ao se concentrar nos preparativos para o enterro de Katie, podemos perceber que seus esforços estão fadados ao fracasso, já que a simples menção do nome da filha pode disparar uma compreensível crise de choro (e sua determinação em encontrar o assassino é, igualmente, um mero recurso para adiar o momento do luto inevitável). Desta vez, será impossível, para a Academia, negar o Oscar que Penn já deveria ter recebido há oito anos, por seu notável desempenho em Os Últimos Passos de um Homem – no qual interpretou justamente o assassino de um casal de adolescentes, sendo dirigido por Tim Robbins.

E, por falar em Robbins, o ator/diretor causa uma forte impressão no espectador ao retratar com sensibilidade a fragilidade mental e emocional de Dave, que, depois do trauma vivido na juventude, tornou-se um homem inseguro e introspectivo que, compreensivelmente, mantém uma atitude superprotetora com relação ao próprio filho. Incapaz de esquecer o que sofreu, o pobre sujeito é um reflexo vivo da `pichação` feita em cimento há 30 anos, quando pôde escrever apenas metade de seu nome antes de ser interrompido pelos `policiais`: é como se a própria existência de Dave tivesse se encerrado ali, deixando apenas uma triste sombra do que ele poderia ter sido.

Triste, também, é o policial Sean Devine (vivido por Kevin Bacon), que, apesar da atitude determinada, não consegue esconder um traço inegável de melancolia, já que foi abandonado pela esposa recentemente (e é curioso notar, também, que o ator interpretou um pedófilo – coincidentemente chamado Sean - no mediano Sleepers, de 96). Enquanto isso, Laurence Fishburne abandona a impostação de Morpheus e relaxa no papel do parceiro de Devine, com quem estabelece uma ótima química. Fechando o elenco, vêm Laura Linney e Marcia Gay Harden, cujas personagens acabam se revelando mais importantes no destino de seus maridos do que poderíamos imaginar a princípio.

Depois de construir com cuidado a relação entre todos os personagens, Clint Eastwood praticamente deixa que estes conduzam a trama com liberdade, mantendo-se o mais discreto possível. E, nos momentos em que `interfere` na narrativa, o cineasta comprova sua inteligência de forma inequívoca - como, por exemplo, nas três tomadas em que o público é afastado dos personagens através de movimentações semelhantes de câmera: nas duas primeiras vezes, um personagem é visto enquanto é levado de encontro a momentos fundamentais de sua vida; e, na terceira vez, dois outros personagens são `abandonados` em um instante de total desesperança e desilusão. Além disso, Eastwood merece aplausos por não mostrar o rosto da esposa do policial Devine (a não ser em fotos), como se esta também estivesse morta e fosse uma mera lembrança – isto é, até o momento de sua metafórica `ressurreição`.

Mas a grande tragédia de Sobre Meninos e Lobos reside no fato de que nenhuma daquelas pessoas é fundamentalmente má; elas apenas tomam decisões erradas que resultam em uma série de mudanças tristes e inevitáveis em suas vidas. Com isso, a cada tentativa de se fechar uma ferida, duas outras se abrem, eternizando um processo que, compreensivelmente, deixará o espectador amargurado – mesmo que este consiga apreciar a beleza do trabalho de Eastwood e seu ótimo elenco.

Observação (Não leia o parágrafo seguinte caso ainda não tenha assistido ao filme!): Algumas pessoas têm se mostrado confusas com relação à troca de olhares entre os personagens de Penn e Bacon durante o desfile de rua que ocorre em certo momento da projeção. Particularmente, acredito que aquele seja um instante definitivo no relacionamento entre os dois, que agora se encontram claramente em lados opostos da Lei: Devine não pode prender Jimmy pelo crime que este cometeu, já que não há evidências do ocorrido (incluindo o cadáver da vítima; porém, sabe que o amigo agora assumirá o comando de sua antiga quadrilha. Portanto, o gesto que o policial faz representa um aviso, algo como `Estou de olho em você`. E a resposta de Jimmy não poderia ser mais apropriada – e triste: `Não posso fazer nada. O destino me conduziu até aqui`, é o que ele parece dizer. E é justamente este final que engrandece ainda mais Sobre Meninos e Lobos.
``

10 de Dezembro de 2003

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Três amigos de infância se reencontram depois que a filha de um deles morre, para tentar descobrir o motivo da morte da garota.

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Avaliações dos Usuários

User
Usuário21 de jul. de 2024

De fato o filme tem um elenco maravilhoso.E Clint Eastwood é indiscutível. Mas fiquei com uma impressão que Sean Penn não era esse pai extremoso,que sua esposa o controlava de uma maneira bajulativa.As coisas na casa dos Markum não estavam boas,acredito que até por isso Katie queria ir embora.No entanto se a intenção era trazer revolta,conseguiu.Se nos fazer acreditar destino,conseguiu também. E que existem futuros e pessoas predestinadas tbm foi bem elaborado,conseguiu.O filme retrata injustiça, incoerências, descaso,aquilo que importa ou que não importa. Mas temos que a atuação de kevin Bacon foi brilhante,como sempre.

User
Usuário10 de jul. de 2021

Oi

User
Usuário10 de jul. de 2021

Oq entendi é que eles eram 3 crianças unidas pela amizade porém quando ocorre a tragédia com dave eles se separam mas quando outra tragédia acontece com a filha do sean tudo volta a tona o problema do Dave e quando Sean mata o Dave ele meio que quebra a ligação e o trauma vivido entre eles e aquele final do Jimmy olhando pro Sean quis dizer que naquele momento eles quebraram o elo entre os dois onde a ligação era o dave e cada um segue seu lado o Jimmy como um menino e o Sean como um Lobo, o sean deixou o lobo tomar conta do seu estado mental e se vingou como ele bem entendeu como se não houvesse lei e esse princípio da frase Do teorico Hobbes diz que o homem é o lobo do próprio homem, se não houvessem leis nos iriamos transgedir várias ilegalidades sabendo que não haveria um limite, e quando o Sean ultrapassa esse limite ele deixa o lobo tomar conta dele por um todo não deixando nenhuma coisa boa dentro dele e nem uma bondade como um menino o amigo e policial Jimmy não poderia prendelo sabendo que tanto ele como sean também foram vítimas daquele trauma é como se eles também tivesse ido dentro do carro com o dave, o remorso é muito grande então aquele final foi uma separação e uma despedida do menino e do lobo

Victor
Victor10 de jan. de 2018

Acabei de assistir e vi um final diferente... até fui pesquisar se tinha algum relato do mesmo entendimento que eu. SPOILER ALERT: A cena que a esposa do Jimmy está conversando com ele parece dar a impressão que ela ordenou a morte de Katie, buscando a atenção de Jimmy para suas outras 2 filhas e para voltar ao mundo do crime e ser quem ele teria potencial pra ser (um rei, como ela diz). Frases como "eu disse a elas que o pai delas as amava também", "faria o que fosse preciso por aqueles que amava e que isso nunca é errado", "pq todos são fracos, menos nós". Em uma cena anterior os irmãos citam que ele saiu do mundo do crime por causa da Katie. Nessa mesma cena eles dizem que Jimmy era um gênio do crime. No começo tb há o diálogo antes da 1ª comunhão onde Jimmy se levanta pra ir pra loja pq Katie não foi trabalhar e a esposa diz que ela iria estragar este dia tb e que ele não deveria esquecer que tinha outras 2 filhas. Alguém concorda?

Jonas Amster de Vasconcelos Terceiro
Jonas Amster de Vasconcelos Terceiro20 de out. de 2017

Eu fiquei particularmente decepcionado com o desfecho da história de Dave no filme. No momento em que Sean foi até Jimmy para procurar por Dave e interrogá-lo sobre a morte do pedófilo, Jimmy confessa o assassinato de Dave, e Sean, um policial, nada fez a respeito. Me deu a impressão de que a morte de Dave, um homem atormentado e problemático em decorrência do trauma de infância, nada significava, algo como um "foi melhor assim". Essa impressão foi reforçada ainda com o desfecho redentor dos outros dois amigos, retomando suas vidas como se nada tivesse acontecido.