Dirigido por Gabriel Mascaro. Roteiro de Gabriel Mascaro e Tibério Azul. Com: Denise Weinberg, Rodrigo Santoro, Miriam Socarrás, Adanilo, Rosa Malagueta, Clarissa Pinheiro.
Responsável pelo excelente Boi Neon e pelo instigante Divino Amor, o pernambucano Gabriel Mascaro é um cineasta cujos trabalhos podem até receber o rótulo superficial de “provocativos”, mas sempre expressam estas inquietudes com inteligência, complexidade e uma abordagem estética notável. Em seu novo longa, O Último Azul, exibido como parte da competição do Festival de Berlim 2025, o diretor nos apresenta a uma distopia futurística que, embora situada em um universo fictício, reflete com eficiência as mazelas muito reais do presente.
Ambientado em um Brasil no qual os idosos são obrigados a se mudar para colônias governamentais ao atingirem certa idade, o roteiro de Mascaro e Tibério Azul apresenta como justificativa institucional para a medida um desejo de "recompensar" aqueles indivíduos pelos anos de trabalho dedicados ao país – uma justificativa cuja demagogia logo fica clara ao ser exposta como uma forma de segregar e descartar aqueles que já nos dias de hoje são vistos por neoliberais como um ônus ao Estado. Supostamente determinado a "honrar" estes cidadãos mais velhos com medalhas e cuidados, o governo não hesita em caçá-los e transportá-los em veículos batizados pela população como “cata-velhos” – e tampouco é promissor o fato de que aparentemente ninguém sabe exatamente onde ficam estas colônias de “aposentados”.
Trazendo a veterana Denise Weinberg como a protagonista Tereza, que atinge a idade-limite determinada pela legislação, O Último Azul não demora em apontar como, depois de passar a vida desempenhando trabalhos braçais exaustivos (ela agora é funcionária da limpeza em um matadouro de crocodilos), ela chega à fase derradeira de sua existência sem conquistar confortos mínimos, já que as remunerações oferecidas pelos empregadores são, como de hábito, totalmente desproporcionais ao esforço e às horas de dedicação de uma classe politicamente ignorada – algo típico de uma distopia que, infelizmente, é também a realidade do mundo atual. Angustiada pela determinação arbitrária do fim de seus dias “úteis”, Tereza lida ainda com a frustração por nunca ter tido a chance de realizar o sonho de voar em um avião – e quando Mascaro enquadra a personagem diante da foto de uma aeronave, as asas do aparelho parecem atravessar sua cabeça, criando uma imagem simbólica bonita de sua obsessão e de sua determinação por permanecer livre.
A performance de Weinberg, por sinal, é construída com uma inteligência que se revela apenas aos poucos: a princípio, a antipatia da personagem, que mantém a expressão sempre cerrada e uma postura quase agressiva, se arrisca a afastar o espectador (especialmente quando as tentativas de humor da narrativa são sumariamente abortadas pela protagonista), mas, à medida que a projeção avança, a transformação gradual na composição revela um arco belíssimo — e o simples ato de soltar o cabelo se torna uma revelação absoluta. Com isso, a atriz praticamente oferece uma aula ao demonstrar como sacrificar momentos pontuais de empatia fácil para estabelecer uma trajetória mais complexa a longo prazo é uma decisão corajosa capaz de trazer recompensas imensas.
Brilhante também em sua direção de arte (obra de Dayse Barreto), O Último Azul cria um futuro que parece ao mesmo tempo familiar e estranho, usando locações reais — como uma área tomada por casas de palafita — e complementando-as com elementos que reforçam a atmosfera distópica (e, neste sentido, vale apontar novamente como a realidade dos que pouco têm já soa como distopia para quem não é obrigado a enfrentá-la cotidianamente). Enquanto isso, outros ambientes concebidos para o filme, como um parque abandonado (ao menos, creio ser algo criado por Barret), resultam em imagens não só impactantes como significativas, apresentando-se como um símbolo de uma alegria há muito esquecida e impossível. Como se não bastasse, a fotografia de Guillermo Gaza captura e ressalta a beleza dos cenários naturais ao mesmo tempo em que confere a estes uma profunda melancolia, resultando em quadros que poderiam perfeitamente ser emoldurados e pendurados na parede (aliás, entre estes eu incluiria também aquele que traz dois peixes – um branco, outro vermelho – se encarando em um aquário). Para completar, há a trilha de Memo Guerra, que, além de adicionar uma camada de leveza e até mesmo de humor a uma narrativa que, em sua essência, é pesada e melancólica, consegue sugerir um tom fabulesco que combina com o realismo mágico que atravessa a narrativa aqui e ali.
Contando ainda com performances fantásticas de Rodrigo Santoro e da cubana Miriam Socarrás em papéis menores, mas fundamentais, o longa emprega a vivacidade da personagem desta última e a melancolia presente na composição do primeiro como contrapontos na evolução da própria protagonista – e se Socarrás quase rouba o filme ao viver uma mulher que aprendeu a burlar o sistema para alcançar alguma liberdade, Santoro se destaca em um plano no qual a câmera, aproximando-se lentamente de seu rosto, expõe a tristeza em seus olhos e revela muito sobre o sujeito sem que uma linha de diálogo tenha que ser pronunciada.
Sem jamais esquecer sua veia política (presente mais em subtexto do que escancaradamente como em Divino Amor), Mascaro aponta, por exemplo, a hipocrisia de uma ideologia conservadora que, ao mesmo tempo em que prega a importância da família, não hesita em desmantelá-la ao enviar os idosos para longe – um reflexo de tantos líderes políticos e religiosos que, sempre apontando o dedo na direção de progressistas com a acusação de que estão “destruindo valores familiares”, estão constantemente nas capas dos grandes portais envolvidos em denúncias de abuso sexual e atos de violência.
É difícil não pensarmos que esse futuro distópico já está aqui.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
16 de Fevereiro de 2025
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