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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/02/2015 25/12/2014 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Disney
Duração do filme
128 minuto(s)

Selma: Uma Luta pela Igualdade
Selma

Dirigido por Ava DuVernay. Roteiro de Paul Webb. Com: David Oyelowo, Carmen Ejogo, Oprah Winfrey, Tom Wilkinson, Giovanni Ribisi, André Holland, Common, Wendell Pierce, Nigel Thatch, Dylan Baker, Stephan James, Stephen Root, Stan Houston, Cuba Gooding Jr., Tim Roth e Martin Sheen.

Ambientado em 1965, Selma: Uma Luta pela Igualdade narra uma passagem bastante específica da trajetória da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e da vida de Martin Luther King: a marcha que, organizada pelo reverendo, visava expor as ações racistas no estado do Alabama, que insistia em impedir que a população negra se registrasse para votar. Chocante ao retratar o atraso, apenas há 50 anos, daquela nação que se proclama um exemplo de democracia, Selma só não assusta mais por sabermos que, inacreditavelmente, o mundo ainda insiste em caminhar a passos lentos – como comprovam as manifestações ocorridas há poucos meses nos EUA em protesto contra as constantes execuções de jovens negros pela polícia. Enquanto isso, no Brasil (onde “não há racismo!”), embora pouco mais da metade da população seja negra, esta ainda encontra-se econômica e socialmente oprimida: seus salários equivalem a cerca de 57,4% daqueles recebidos pelos brancos; representam 64,09% das vítimas de homicídio; e sua expectativa de vida é seis anos menor. Além disso, basta observar as imagens do Carnaval, nossa maior festa “popular”, para constatar a imensidão branca dentro dos cordões de isolamento que marcam os blocos vips enquanto, do lado de fora, pardos e negros dançam num apartheid da folia.


Assim, acompanhar os esforços de King (Oyelowo) para garantir o voto a uma parcela significativa da população que é mantida sem representatividade política apenas por uma questão de concentração de melanina na pele é algo que soa tristemente atual – por mais que o racismo escancarado do desprezível governador George Wallace (Roth) e do xerife Jim Clark (Houston) possa soar inacreditável partindo de uma figura pública nos dias de hoje (que preferem, como Danilo Gentili, disfarçar a intolerância sob o manto do humor duvidoso).

Evitando se apresentar como uma hagiografia (o que não seria difícil), o roteiro escrito por Paul Webb traz Martin Luther King como um homem idealista, mas também surpreendentemente pragmático – e sua decisão de ir a Selma é algo que claramente parte não apenas do desejo de ajudar, mas da constatação de que o extremismo de Jim Clark provavelmente resultaria em atos de violência que serviriam para tornar a luta visível em todo o país, ajudando a despertar a “consciência branca” e aumentando a base de apoio do movimento (o que, por sua vez, tornaria maior a pressão sobre o presidente Lyndon Johnson – vivido aqui com grande empatia por Tom Wilkinson). Em outras palavras: para garantir o sucesso de suas ações, King contava não só com a postura pacífica de seus seguidores, mas dependia também da agressividade de seus oponentes – uma visão que muitos poderiam encarar como cínica, mas que é inegavelmente realista e eficaz.

Aliás, igualmente curioso é perceber como Selma lida – mesmo que brevemente – com o controverso Malcolm X (Thatch), cuja filosofia de ação era diametralmente oposta à do pacifista King: notoriamente crítico à postura do reverendo, já que acreditava ser necessário retribuir de forma proporcional à violenta opressão por parte dos brancos, Malcolm X aqui surge não apenas ciente do pavor que inspira nas instituições conservadoras, mas disposto a permitir que o que simboliza seja empregado para facilitar as ações de King, numa lógica inteligente de “por medo de mim, eles o aceitarão”.

Esta, diga-se de passagem, não é a única cena voltada à tarefa de estabelecer as estratégias dos ativistas: igualmente interessado em compreender as dificuldades políticas enfrentadas por King, Selma recria discussões nas quais este e seus aliados tentam estabelecer as melhores abordagens para que consigam aprovar novas leis e pressionar Johnson – e o resultado é que, em vez de se limitar a retratar King como o orador poderoso que era e como uma figura icônica, o longa nos apresenta a um homem multidimensional e mesmo pontualmente inseguro acerca do caminho a seguir. Assim, quando a diretora Ava DuVernay traz o protagonista no canto do quadro, em um plano escuro, enquanto pede que a cantora Mahalia Jackson o acalme com alguns versos de uma música gospel, compreendemos que a segurança que exibe em público é, até certo ponto, uma fachada que ele sabe ser importante, mas que oculta seu medo extremamente humano.

A composição de David Oyelowo, aliás, é brilhante justamente por conseguir humanizar um indivíduo que atingiu status de lenda: ao ser confrontado pela esposa em certo momento, por exemplo, King faz uma longa pausa antes de responder – e percebemos claramente seu esforço para tentar avaliar a situação e oferecer uma resposta que seja não apenas honesta, mas que preserve seu casamento. Da mesma maneira, é interessante notar como o Martin Luther King de Oyelowo jamais parece relaxar ou sorrir mesmo diante de suas vitórias, como se imediatamente constatasse que estas são pequenas diante do objetivo final e que novas batalhas logo se apresentarão. Enquanto isso, Tom Wilkinson retrata Lyndon Johnson como um homem bem intencionado, mas excessivamente cauteloso do ponto de vista político – e é revelador como, em certo instante, ele estende a mão de forma calculada para tocar o ombro de King, tentando estabelecer uma cumplicidade que as circunstâncias tornam impossível. Ainda assim, é um alívio constatar que, mesmo sem retratar Johnson como um adversário, Selma não comete o equívoco de transformá-lo no “grande salvador branco” – um clichê lamentável do Cinema norte-americano, que constantemente traz figuras como Emma Stone, Sandra Bullock, Reese Whiterspoon ou a campanha “Kony 2012” resgatando os negros da opressão por parte dos brancos. Não: aqui, são os ativistas liderados pelo reverendo quem traçam seus próprios destinos e abrem seus próprios caminhos, mesmo que, para isso, precisem forçar a participação dos caucasianos.

Dirigido sem qualquer tom melodramático por Ava DuVernay, Selma é inteligente ao empregar letreiros que, mesmo oferecendo informações expositivas, evitam a artificialidade do recurso ao surgirem como registros do FBI, ilustrando, assim, a vigilância constante sob a qual os personagens principais se encontravam. Enquanto isso, a fotografia de Bradford Young investe em interiores mergulhados em sombra que ressaltam a tensão e os jogos de interesse nos bastidores, criando também uma sequência admirável que, retratando o ataque na ponte, emprega a fumaça para transformar as forças do Estado em figuras sem rosto que, saindo da névoa, surgem quase como monstros de um filme de terror (e o fato de usarem chicotes ainda confere um eco histórico importante e trágico ao evento). Para finalizar, a trilha sonora recheada de canções gospel, do soul e do rhythm & blues merece aplausos não só por fugir das escolhas óbvias do período, mas por conferir um tom claramente de época à narrativa ao mesmo tempo em que ressalta a importância da religiosidade nas ações e no pensamento de King.

Mas o mais importante é constatar como Selma reflete com respeito a filosofia de seu protagonista e, mesmo tendo todos os motivos para ser uma obra raivosa, jamais soa desta maneira. Ao contrário: inspira por sua serenidade diante dos abusos indizíveis sofridos por seus personagens e ilustra, assim, como nem mesmo o mais odioso e intolerante dos políticos pode deter a marcha da civilização.

Não que ainda não tenhamos um longo caminho a percorrer.

18 de Fevereiro de 2015

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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