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A Noiva!

Crítico★★★★☆4/5
8 min
A Noiva!
A Noiva!

Dirigido e roteirizado por Maggie Gyllenhaal. Com: Jessie Buckley, Christian Bale, Peter Sarsgaard, Jake Gyllenhaal, Annette Bening, John Magaro, Jeannie Berlin, Julianne Hough, Louis Cancelmi, Matthew Maher e Penélope Cruz.

Quando a clássica versão de Frankenstein foi produzida em 1931, mais de um século depois do lançamento do livro de Mary Shelley, a autora foi mencionada nos créditos iniciais como “Sra. Percy B. Shelley” – e por mais importante que seu marido tenha sido como poeta, nada justifica que o nome da pessoa que concebeu a história tenha cedido lugar ao do companheiro, como se a posição como esposa definisse mais sua identidade do que a habilidade como escritora. É interessante, portanto, notar como quatro anos depois, nos créditos da continuação A Noiva de Frankenstein, ela passa a ser creditada como “Mary Wollstonecraft Shelley”, tendo o “sra.” removido e seu nome e sobrenome de batismo substituindo o do marido.

Não havia como ser diferente, já que aquele filme também traz, como introdução, a reimaginação de uma conversa entre Mary, Percy e Lord Byron na famosa Villa Diodati que os abrigava (ao lado de John Polidori, excluído da cena) quando ela escreveu um dos livros seminais do horror gótico – e não é coincidência que a escritora seja interpretada pela mesma atriz, Elsa Lanchester, que ao final do longa surgiria como a personagem-título. Apropriada por remeter a um dos temas recorrentes do gótico (o doppelgänger, o duplo), esta escalação é perfeita pela rima que constrói: se ali Mary Shelley desafia os dois homens com quem conversa, ao final a Noiva se nega a aceitar a posição a ela delegada por Frankenstein, pelo Monstro e pelo vilão Pretorius, refletindo o subtexto temático/político/social da obra dirigida por James Whale.

E, claro, tampouco é acaso que Maggie Gyllenhaal tenha encontrado ali a inspiração para este seu segundo trabalho na direção depois do belo A Filha Perdida, trazendo a personagem para o centro da narrativa e investigando a busca desta pela própria identidade e por sua afirmação como mulher diante da hostilidade de um mundo de monstros estruturado em torno da masculinidade.

Escrito pela própria realizadora, o roteiro ecoa o filme de 1935 ao abrir com Mary Shelley (Buckley) em uma espécie de limbo pós-morte e frustrada por não ter conseguido escrever uma continuação sobre a Noiva – algo que a leva, de alguma maneira, a possuir o corpo de Ida (também Buckley), uma jovem que frequenta o universo do gangsterismo da Chicago da década de 30. Incorporando de modo intermitente a escritora, Ida acaba por confrontar o chefão mafioso Lupino, responsável pelo assassinato de várias mulheres que por motivos diversos se tornaram inconvenientes para suas atividades ilegais – e, minutos depois, ela se junta às demais. A partir daí, A Noiva! passa a acompanhar Frankenstein (o Monstro, que aqui assume o nome de seu criador) enquanto este aborda a Dra. Euphronius (Bening), uma cientista interessada na reanimação de cadáveres, a fim de solicitar que esta crie uma companheira que possa diminuir sua solidão. Trazida de volta à vida sem conseguir se lembrar de sua identidade prévia, Ida logo se vê em fuga ao lado de Frankenstein (Bale) enquanto são perseguidos pela polícia.

Considerando a clara referência à atriz e cineasta Ida Lupino, que na década de 50 se estabeleceu como uma das raras produtoras-diretoras com poder real em Hollywood,  não é difícil perceber como Gyllenhaal emprega o projeto para homenagear diversas estrelas que se destacaram nas décadas de 30 e 40: além do visual da Noiva, que remete a Jean Harlow, há menções diretas aos nomes de Ginger Rogers, Marlene Dietrich e, de modo mais sutil através do nome da detetive vivida por Penélope Cruz, de Myrna Loy, que interpretou a socialite-investigadora Nora Charles na série Thin Man. Flertando com gêneros tão diversos quanto o musical, o filme de gangster, o horror e o romance, a realizadora acaba criando o filme que Coringa 2 sonhava ser, tornando-se uma espécie de Bonnie & Clyde fantasioso com uma protagonista que, à margem da Lei, se torna símbolo de resistência para um segmento normalmente oprimido da sociedade. (Para reforçar a comparação com Delírio a Dois, A Noiva! divide com aquele o diretor de fotografia Lawrence Sher e a compositora Hildur Guðnadóttir.)

Mostrando-se desafiadora diante da brutalidade dos homens que a veem mais como propriedade do que como pessoa, Ida em diversos momentos manifesta sua resistência aos comandos e aos toques destes, não demorando também a interferir em situações envolvendo outras mulheres em situação vulnerável. Aliás, aos poucos o longa introduz a sugestão de que ela se tornou, de alguma forma, uma espécie de veículo para que outras vítimas fatais de violência expressem sua raiva e denunciem o que sofreram – um conceito desenvolvido tão organicamente que a exclamação de “Me too!” se torna não apenas inevitável como essencial.

Diferenciando-se da misoginia casual de outra adaptação literária recente, “O Morro dos Ventos Uivantes”, ao ressaltar a sororidade e o esforço de suas personagens para determinar os próprios caminhos, A Noiva! não à toa traz a dra. Euphronius explicando como usa apenas o sobrenome ao publicar seus trabalhos científicos a fim de contornar o preconceito de seus pares – um obstáculo profissional também enfrentado pela investigadora Myrna Malloy (Cruz), que, embora o verdadeiro cérebro por trás de casos importantes, ainda não recebeu o distintivo de detetive, sendo frequentemente tratada como secretária do parceiro Wiles (Sarsgaard) por mais que este reconheça a competência da colega. E há, claro, a protagonista, que em determinado instante expressa sua angústia ao surgir presa em uma cúpula de vidro que a sufoca, ouvindo de Mary Shelley a orientação para que descubra seu próprio nome/identidade – algo que, subentende-se, estabelecerá sua independência e a tirará da sombra de Frankenstein.

E é aí que se encontra um dos pontos centrais de sua trajetória: uma coisa é ser designada como “noiva”; outra é decidir abraçar este título, ressignificando-o para que deixe de ser algo que a define a partir de sua relação com um homem e se torne uma manifestação de sua força. Assim, se a princípio há uma clara delimitação entre Ida e Mary Shelley, já que a interferência desta vem acompanhada com o surgimento brusco do sotaque britânico, do enrouquecimento da voz e do vocabulário expansivo (e que Buckley expressa como uma forma particular da síndrome de Tourette), aos poucos a personalidade original se fortalece e demonstra ser capaz de lutar por sua individualidade sem a necessidade de ser guiada pela escritora.

Adotando uma estética ancorada no cruzamento entre o camp e o punk gótico (trazendo o exagero e a artificialidade do primeiro associados ao tom anárquico e postura antissistema do segundo), Gyllenhaal leva a personagem de Annette Bening a recitar jargões pseudocientíficos em alta velocidade, abusa dos planos holandeses (isto é um elogio) e não abre mão de tropes góticas como multidões portando tochas (mesmo na Nova York dos anos 30) e cemitérios cobertos por névoa. Somam-se a estes elementos, porém, sequências musicais pontuais com plongées que homenageiam as coreografias de Busby Berkeley e que salientam como a diretora tem consciência do pastiche que constrói, já que incluem até referências ao número envolvendo “Puttin´ On the Ritz” de O Jovem Frankenstein.

Isto não significa, contudo, que a diretora perca de vista os temas centrais do projeto ou sacrifique o páthos dos personagens, já que, além do arco percorrido pela Noiva, o Frankenstein de Christian Bale surge como uma progressão lógica do Monstro das adaptações clássicas (leia-se: de Whale e Branagh, jamais a de del Toro) caso este houvesse sobrevivido e passado mais de um século buscando um modo de contornar o isolamento e a rejeição. É tocante, por exemplo, constatar seu amor pelo astro de cinema Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal), ressaltando como este teve poliomielite na infância e conseguiu contornar as possíveis sequelas da doença para se tornar um dançarino – e é claro que Frankenstein se projeta na tela, colocando-se no lugar do ídolo. Ao mesmo tempo, a realizadora não ignora que, em última análise, ele reviveu Ida e a tomou para si sem levar em consideração a vontade desta, revelando também ciúme e possessividade ao discutir os amantes que ela teve em vida.

Com um início que já atira o espectador na lógica de sua história fantástica sem se preocupar com o choque, A Noiva! exige uma abertura imediata que talvez seja difícil para alguns espectadores, introduzindo rapidamente camadas metalinguísticas, possessão, reanimações rápidas de cadáveres e um Monstro adaptado a outros contextos. Dito isso, aqueles que conseguirem abraçar a proposta de Gyllenhaal serão recompensados por um filme que, além de não temer riscos, é capaz de encontrar soluções instigantes na maior parte de sua execução.

E que mais do que justifica a exclamação em seu título.

05 de Março de 2026

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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