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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
05/03/2015 28/02/2014 5 / 5 4 / 5
Distribuidora
Imovision

Blind
Blind

Dirigido e roteirizado por Eskil Vogt. Com: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali, Marius Kolbenstvedt, Stella Kvam Young.

Ao assistir a este Blind, frequentemente me lembrei de uma frase de Dziga Vertov sobre as potencialidades da montagem: “Construí um aposento com doze paredes que filmei ao redor do mundo”. Esta fluidez física permitida pela montagem, aliás, já resultou em experimentos narrativos brilhantes em obras que vão de O Ano Passado em Marienbad (e Resnais, diga-se de passagem, era um mestre em criar mágica com seus cortes) ao curta A Movie, de Bruce Conner – e se cito estes exemplos magistrais ao lado deste trabalho escrito e dirigido pelo norueguês Eskil Vogt, é porque realmente acredito que mereça figurar nesta lista.

Responsável também pelo roteiro do excepcional Oslo, 31 de Agosto, Vogt cria aqui um experimento narrativo que gira em torno de Ingrid (Petersen), uma mulher que se torna cega já na idade adulta em função de uma doença que jamais é identificada. Sem ter forças para sair de casa, ela passa os dias em seu apartamento, passando a desconfiar de que ocasionalmente seu marido retorna silenciosamente para observá-la. Ao mesmo tempo, a moça, cada vez mais insegura por não contar com as informações visuais que poderiam tranquilizá-la com relação às intenções daqueles que a cercam, passa a imaginar o conteúdo de conversas que o companheiro pode estar mantendo na Internet – entregando-se, também, a um exercício de escrita que se concentra em um casal que pode ou não ter bases na realidade.

É justamente este “pode ou não” que torna Blind tão fascinante: no mundo escuro de Ingrid, afinal, tudo “pode ou não” – e, assim, quando ela se estica para tentar tocar o teto (que se encontra a uns três ou quatro metros de altura), Vogt e o montador Jens Christian Fodstad incluem um plano-detalhe que traz a mão da protagonista quase encostando no alto embora saibamos que isto seria impossível. Da mesma maneira, como a garota perde as referências espaciais, isto acaba se refletindo em seus relatos e, quando ela surge descrevendo uma passagem que traz dois homens conversando em um café diante de um painel de vidro, os planos e contraplanos frequentemente sugerem que os interlocutores se encontram em espaços diferentes: um pode estar no café enquanto o outro surge em um trem em movimento apenas para, no segundo seguinte, o primeiro aparecer em um ônibus enquanto o segundo retorna ao restaurante.

Este exercício de montagem, porém, jamais resulta em uma narrativa de difícil compreensão ou mesmo entediante. Ao contrário: justamente por experimentar com o espaço da mise-en-scène, Blind se converte em uma obra memorável a partir de uma história que, em si, não ofereceria grandes promessas. Aplicando com precisão os momentos em que a narrativa mergulha na subjetividade mental da protagonista, o filme ainda consegue cruzar a fronteira entre suas fantasias e a realidade – e constantemente somos surpreendidos pelos raccords brilhantes concebidos pelo montador Fodstad, que, num corte rápido, consegue mudar o gênero de um personagem ou alterar todo o ambiente em torno de duas pessoas que conversam casualmente.

Intrigante também em seu design sonoro, que reflete a confusão de Ingrid ao não conseguir confirmar visualmente sons que suspeita ter ouvido (uma rajada de balas, por exemplo, que não é acompanhada da costumeira gritaria que se seguiria), Blind é uma obra fabulosa que usa o potencial da montagem para mergulhar o espectador em uma narrativa ao mesmo tempo coesa e profundamente experimental. E não é à toa que, em certo instante, Ingrid diga gostar de ouvir a tevê por saber que, na maior parte do tempo, as imagens não são necessárias para acompanhar com tranquilidade o que se passa nas produções criadas para esta mídia – imagens que, neste filme protagonizado por uma cega, são absolutamente essenciais. 

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2014.

27 de Setembro de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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