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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/04/2015 15/08/2014 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Mares Filmes

Frank
Frank

Dirigido por Lenny Abrahamson. Roteiro de Jon Ronson e Peter Straughan. Com: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Scoot McNairy, Shane O’Brien, François Civil, Carla Azar.

Frank conta uma história tão absurda que esta só poderia mesmo ser baseada em fatos reais. Inspirado em um artigo escrito pelo excelente jornalista Jon Ronson, especialista em coletar e narrar passagens envolvendo personagens estranhos e à margem da sociedade, o roteiro co-escrito por este ao lado de Peter Straughan emprega o mítico Frank Sidebottom, criação do falecido comediante Chris Sievey, como âncora emocional de um longa que tinha tudo para se revelar um projeto ancorado em uma única gag visual, mas que, em vez disso, resulta numa narrativa que se equilibra muitíssimo bem entre a comédia e o drama.

Inserindo na trama um alterego do próprio Ronson, que de fato atuou ao lado do verdadeiro Frank, o filme acompanha Jon (Gleeson), um jovem aspirante a músico que, medíocre, passa os dias tentando compor canções a partir de tudo que vê ao seu redor. Certo dia, um acaso qualquer resulta em um convite para que toque teclado na banda ancorada por Frank (Fassbender), cujas estranhas composições empalidecem diante do fato de que seu intérprete insiste em usar uma imensa cabeça feita de papier-mâché não só nos palcos, mas 24 horas por dia. A partir daí, acompanhamos Jon, Frank e aquele estranho grupo (que ainda inclui a mal humorada Clara, vivida por Gyllenhaal) durante quase um ano enquanto se isolam em uma cabana a fim de gravarem um novo álbum.

Mas quem é Frank, afinal? Oscilando entre os papéis de líder de culto, músico ambicioso e simples lunático, o sujeito inspira os companheiros graças ao seu olhar sensível, que encontra inspiração em tudo que vê (sem tentar forçá-la, como fazia Jon), e uma serenidade que pode ser apenas resultado do fato de vermos apenas a expressão imutável daquela gigantesca cabeça sorridente que cobre a sua própria. Aliás, é curioso como, ao longo da projeção, acabamos nos acostumando com aquela figura estranha, que se torna quase natural, e passamos a experimentar uma curiosidade crescente acerca da verdadeira natureza do homem por baixo da máscara. Não que sua aparência real importe (e este, mais uma vez, é o erro de Jon, que se concentra na pergunta errada), já que o que de fato intriga é a estabilidade psicológica do sujeito: quando ele descreve as expressões que ocupam seu rosto real, estará dizendo a verdade? Aos poucos, percebemos que o mais provável é que uma máscara congelada de tristeza e dor esteja sendo ocultada por aquela que exibe grandes olhos azuis pintados no papier-mâché – e que Jon não pareça perceber isto é a grande tragédia do filme.

Jon, diga-se de passagem, é um protagonista curioso: se inicialmente simpatizamos com sua insegurança e sua vontade de atingir espaços maiores do que sua humilde mesa de trabalho, gradualmente constatamos que o rapaz talvez não seja uma pessoa tão admirável como gostaríamos de acreditar, já que sua admiração por Frank parece revelar um desejo subjacente de explorá-lo para se promover. Sim, é comovente perceber como sorri, certa manhã, ao sentir-se aceito pelo grupo (especialmente considerando que o posto de tecladista da banda parece amaldiçoado como o de baterista da Spinal Tap), mas finalmente alcançamos um ponto no qual se torna impossível negar que aquele jovem por quem torcíamos se converteu num poço de inconsequente egoísmo, numa transição corajosa por parte do filme e de seu intérprete, Domhnall Gleeson (filho de Brendan).

E esta, afinal, é a diferença fundamental entre Jon e seus companheiros de banda: enquanto estes querem apenas se expressar, o protagonista busca simplesmente fama e reconhecimento, mesmo que não possua o talento necessário para merecê-los. Por outro lado, é intrigante notar como, aos poucos, o próprio Frank revela seu próprio desejo de reconhecimento; mas se o de Jon é obviamente motivado pelo narcisismo, o do personagem-título sugere uma profunda insegurança psicológica e emocional, levando-nos a temer por seu bem-estar mental caso seja novamente frustrado.

Neste sentido, é admirável observar como Michael Fassbender ilustra toda a complexidade de Frank sem poder empregar o recurso mais poderoso no arsenal de um ator: as expressões faciais. Em vez disso, ele modula a voz de Frank para que esta salte da empolgação criativa a um tom quase infantil ao mesmo tempo em que sua expressão corporal sugere um homem que, de forma similar, alterna entre o maníaco e o apático, evidenciando uma psique fragilizada e propensa à depressão.

E quando Fassbender finalmente pode usar o rosto, é notável que mantenha-se contido e quase inexpressivo (embora projetando uma infinidade de dores), já que, sem sua cabeça gigantesca, “Frank” é apenas uma figura trágica e frágil, ilustrando outro equívoco – entre tantos – que Jon comete ao não perceber que a visão romântica do artista atormentado e deprimido é admirável apenas para quem a enxerga de fora. Vista por dentro, esta traz apenas dor.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2014.

26 de Setembro de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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