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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
27/11/2014 01/01/1970 3 / 5 4 / 5
Distribuidora
Duração do filme
88 minuto(s)

Sétimo
Séptimo

Dirigido por Patxi Amezcua. Roteiro de Patxi Amezcua e Alejo Flah. Com: Ricardo Darín, Belén Rueda, Osvaldo Santoro, Luis Ziembrowski, Guillermo Arengo, Abel Dolz Doval, Charo Dolz Doval, Jorge D’Elía.

Sétimo é um thriller dinâmico que, mesmo ambientado na maior parte do tempo em um único ambiente (um prédio), é suficientemente ágil para levar o espectador a se envolver na lógica de seus momentos individuais sem ter tempo para refletir exatamente sobre o que está vendo – e é apenas quando a projeção chega ao fim que qualquer breve discussão sobre o filme acaba revelando uma série de furos que tornam a obra frágil em retrospecto, impedindo que se solidifique como uma experiência memorável na mente do público.

Escrito pelo diretor Patxi Amezcua ao lado de Alejo Flah, o roteiro acompanha o bem-sucedido advogado Sebastián (Darín), que se encontra prestes a encerrar um dos maiores casos de sua vida e que traz implicações políticas graves. Enquanto se prepara para ir ao tribunal, ele busca os dois filhos na casa da ex-esposa Delia (Rueda) a fim de levá-los para a escola e, numa brincadeira, permite que as crianças desçam pelas escadas enquanto ele usa o elevador. Ao chegar ao térreo, porém, ele descobre que os filhos desapareceram e, então, inicia uma busca desesperada que envolve diversas possibilidades: teria sido o sequestro uma estratégia dos inimigos de seu cliente? Ou o responsável seria aquele homem estranho do quarto andar? Ou o vizinho, inspetor de polícia, com o qual teve uma discussão durante a reunião de condomínio?

Claro que, pelo número limitado de personagens, não se espera que Sétimo traga uma revelação das mais surpreendentes, mas, na medida do possível, o roteiro provoca boas reviravoltas especialmente ao lidar com as expectativas do público: quando Sebastián vai perceber que aquilo pode ter a ver com seu caso? Será que ele não vai investigar o “Urso” que dividiu com ele o elevador? Ao plantar pistas (falsas e autênticas) e esperar que o espectador perceba-as antes do protagonista, o filme cria um suspense eficaz através de nossa frustração diante das ações pouco focadas do herói.

Não que Sebastián seja estúpido – e Ricardo Darín, um dos mais competentes atores da atualidade, se esforça para retratar a maneira furiosa com que o sujeito tenta desvendar o que aconteceu. Sugerindo uma tensão crescente através da respiração pesada do personagem, Darín encarna Sebastián como um homem ambicioso, mas cujo amor pelos filhos suplanta quaisquer aspirações profissionais, já que não hesita em deixar a audiência de lado quando as crianças somem. Pai carinhoso e claramente ressentido diante do recente divórcio (mesmo que reconheça sua culpa no processo), o advogado é um herói eficaz não só graças à humanidade que Darín confere a ele, mas também à sua complexidade: percebemos que é um homem falho e corrompido, mas jamais questionamos seu amor pela família e os sacrifícios que faz para salvá-la.

Empregando planos frequentemente fechados para sugerir ainda mais uma atmosfera claustrofóbica, o diretor Patxi Amezcua exagera pontualmente no número de travellings em torno do protagonista, que, longe de criarem uma rima visual ou salientarem a já presente claustrofobia, soam apenas como evidência de sua falta de imaginação. Por outro lado, é interessante perceber como o filme aqui e ali parece oferecer pequenos instantes de alívio (como no instante em que Sebastián julga ouvir os filhos no elevador) que, ao serem descartados, ajudam a tornar a atmosfera ainda mais tensa.

Infelizmente, o roteiro, como já dito anteriormente, não sustenta um escrutínio maior – já começando de uma pergunta essencial: e se as crianças não tivessem descido pela escada? Além disso, para um projeto que se propõe a criar um mistério que essencialmente recria a velha proposta do “assassinato no quarto fechado”, a solução apresentada para o desaparecimento das crianças é decepcionante e prosaica demais, mesmo que a narrativa busque oferecer alguma satisfação emocional em seu desfecho (sem, com isso, lidar com todas as consequências que as ações tomadas pelo protagonista ao longo da projeção inevitavelmente trarão).

Ainda assim, Sétimo é eficaz enquanto dura. E traz Ricardo Darín carismático e eficiente como sempre. É o que basta, não?

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2014.

26 de Setembro de 2014

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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