Dirigido por Oliver Laxe. Roteiro de Oliver Laxe e Santiago Fillol. Com: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Stefania Gadda, Joshua Liam Herderson, Richard Bellamy “Bigui”, Tonin Janvier, Jade Oukid.
A xenofobia estrutural, sistêmica, que se manifesta em amplos segmentos da sociedade contemporânea surge não só de uma total incompreensão dos mecanismos políticos e econômicos que vêm gerando uma desigualdade cada vez maior, mas também de uma profunda falta de empatia, de uma incapacidade fundamental de se colocar na posição do outro – algo que se torna particularmente evidente na forma com que determinados grupos se relacionam com a crise migratória que vem afetando diversas regiões do planeta. Um caso trágico e emblemático ocorrido em setembro de 2015 – o afogamento do garotinho sírio Alan Kurdi, de apenas dois anos – acabou servindo de triste ilustração desta visão perversa de mundo: em vez de simplesmente lamentarem a morte de uma criança (ou de ficarem calados, o que também era uma opção), certos segmentos do espectro político e ideológico se apressaram em emitir julgamentos morais absurdos, atribuindo a culpa exclusivamente aos pais do menino por empreenderem uma jornada que sabiam ser arriscada. Falando/escrevendo a partir da segurança de suas casas, estes indivíduos discutem a decisão da família como se a viagem fosse turística em vez de uma tentativa desesperada de fugir de uma guerra civil e da perseguição do Estado Islâmico (ISIS/Daesh), revelando não apenas uma ausência completa de empatia básica, mas também total falta de imaginação, já que não conseguem conceber, mesmo que minimamente, a urgência de uma situação capaz de levar alguém a arriscar a própria existência e a de sua família para tentar superá-la.
O curioso é que estas questões me vieram à mente durante os momentos finais de Sirât, exibido na mostra competitiva do festival de Cannes 2025 – um filme que não aborda diretamente a questão migratória ou a crise humanitária dos refugiados. Na verdade, o longa dirigido pelo francês Oliver Laxe gira em torno de Luis (López), um espanhol de meia-idade que viaja para o Marrocos com o filho, uma criança de 9 ou 10 anos, a fim de tentar descobrir o paradeiro da filha adolescente, que desapareceu há alguns meses depois de participar de uma rave realizada no deserto. No processo, ele acaba conhecendo um grupo formado por cinco pessoas que costumam ir de uma rave a outra e passa a acompanhá-las com o objetivo de seguir em sua busca.
Esta aparente desconexão entre a temática ostensiva do filme e as reflexões que provoca são resultado de uma abordagem narrativa corajosa em seu conceito e impecável em sua execução, comprovando a evolução do cineasta desde seu fraco Mimosas, de 2016, e do ótimo O Que Arde (2019). Trazendo um título que, conforme o próprio filme explica, refere-se, na tradição islâmica, à estreita ponte que as almas devem atravessar no dia da ressurreição para acessar o paraíso, Sirât justifica esta escolha de diversas maneiras ao longo da narrativa, utilizando a referência tanto de forma simbólica quanto (quase) literal.
Estabelecendo desde seus primeiros momentos uma atmosfera de estranhamento ao acompanhar a rave que se estende por dias e noites, com seus participantes dançando ininterruptamente em um estado de semiconsciência, o filme passa por uma brusca mudança de registro com a chegada de militares armados que põem fim ao evento anunciando um estado de conflito iminente sem especificarem claramente se a situação afeta apenas o país ou possui dimensões mais amplas. A partir daí, o roteiro (escrito por Laxe e Santiago Fillol) acompanha a longa jornada de Luis, do filho e de seus novos companheiros por terrenos cada vez mais precários e perigosos – e as locações empregadas pelo longa jamais deixam de impressionar.
Igualmente interessante é o empenho do realizador para manter um olhar distanciado que evita o sentimentalismo fácil, recusando-se até mesmo a ceder ao impulso de retratar de modo mais subjetivo a experiência dos personagens quando consomem substâncias alucinógenas: testemunhamos seus gestos, danças e olhares embaçados, mas não temos acesso direto ao que estão vendo ou sentindo. E é então que a narrativa oferece uma surpresa que eu jamais sonharia em revelar aqui e que altera fundamentalmente a lógica interna do filme, sendo seguido por uma série de outros incidentes igualmente inesperados que geram tensão em um nível que poucas vezes experimentei nos últimos anos em uma sala de cinema.
O que nos traz de volta à questão inicial que Sirât apresenta com inteligência: se desenvolvemos tão facilmente conexões emocionais com personagens fictícios que conhecemos há pouco mais de uma hora e entendemos intuitivamente os riscos aparentemente irracionais que assumem para escapar de situações perigosas, por que há tanta resistência em compreender ações semelhantes que, na vida real, resultam de circunstâncias infinitamente mais angustiantes e ameaçadoras? De modo indireto e eficaz, através de uma estrutura narrativa cuidadosamente construída e não de discursos explícitos, o filme leva o espectador a sentir como os riscos assumidos por migrantes e refugiados são consequência direta de um desespero que exige não condenação moral carregada de preconceitos, mas de compreensão e apoio humanitário.
Esta é uma das melhores obras deste festival.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
16 de Maio de 2025
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