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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/10/2009 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Duração do filme
112 minuto(s)

Distrito 9
District 9

Dirigido por Neill Blomkamp. Com: Sharlto Copley, Vanessa Haywood, David James, Louis Minnaar, Jason Cope, Mandla Gaduka.

Há uma semana, chegava aos cinemas brasileiros a animação 9 – A Salvação, que, inspirada num curta-metragem de seu diretor estreante em longas (Shane Acker), tornou-se possível graças ao apoio de um cineasta consagrado, Tim Burton. Pois agora é a vez de outro longa baseado em um curta de seu diretor (também estreante em longas) chegar às nossas telas – e não só este filme também traz o número “9” em seu título como conta com outro nome de peso como “padrinho”: Peter Jackson. Porém, se 9 revelou-se uma decepção, Distrito 9, do sul-africano Neill Blomkamp, representa um imenso avanço em relação ao (bom) original, estabelecendo-se como uma agradabilíssima surpresa.

Adotando o formato mockumentary (ver Spinal Tap, A Bruxa de Blair, Cloverfield, entre outros), o longa toma emprestado o interessante, mas desperdiçado conceito do fraco Missão Alien, de 1988, ao retratar uma raça alienígena que, presa na Terra, é absorvida pela sociedade embora enfrente intensa manifestações de xenofobia. Ao contrário do que normalmente vemos no Cinema, porém, a nave extraterrestre não pousa em Nova York ou em alguma outra grande capital norte-americana, mas sim paira sobre Johanesburgo, maior cidade da África do Sul. Subnutridos e amedrontados depois que sua nave parou de funcionar, os aliens são transportados para o solo por uma missão humanitária (ou seria “alientária”?) e passam a habitar uma área delimitada dentro da metrópole – área esta que, 20 anos depois, já se transformou numa imensa favela enquanto as criaturas passam a ser vistas com hostilidade por seus vizinhos terráqueos. É quando um grupo paramilitar contratado pelo governo se encarrega de mover a população alienígena para uma área isolada, levando a um inesperado confronto.

Dizer que Distrito 9 traz uma alegoria sobre o apartheid seria um eufemismo: enfocando placas com os dizeres “Proibido Aliens” que obviamente remetem aos avisos similares dirigidos aos negros durante aquele longo e terrível período na história da África do Sul (aliás, de vários países), o filme claramente enxerga os extraterrestres como uma representação das minorias que ao longo dos séculos foram massacradas pelas classes dominantes – e só o fato de trazer uma história ambientada no país de Mandela é algo que naturalmente confere uma imensa dimensão simbólica à narrativa. Ainda assim, não seria difícil extrair, do roteiro escrito por Blomkamp e Terri Tatchell, referências ao Holocausto (os campos de concentração; as medidas para “controle de população”) ou mesmo à política terrorista da era Bush, que empregou a retórica política para fins belicistas/econômicos, contratando mercenários para o trabalho sujo que teria que desempenhar em seus alvos (seria a MNU deste filme uma referência à Blackwater?). Aliás, com algum esforço é possível até mesmo enxergar, em Distrito 9, um pequeno manifesto contra as condições miseráveis em que vive boa parte da população do Terceiro Mundo – e ver adultos e crianças alienígenas buscando comida no lixo é algo que, por exemplo, inevitavelmente me fez lembrar de algumas das imagens mais sofridas de obras como Ilha das Flores (de Jorge Furtado), Boca de Lixo (do mestre Eduardo Coutinho) e Estamira (de Marcos Prado). E a capacidade de despertar este tipo de inferência é sempre um bom sinal em um filme de ficção.

Seguindo a lógica documental, a fotografia de Trent Opaloch adota uma paleta dessaturada e poeirenta que ressalta a miséria do Distrito 9, conferindo também um tom realista à narrativa – e, assim, quando vemos a imensa nave alienígena flutuando ao fundo, esta se torna uma visão arrepiante em vez de soar como um mero efeito visual. Da mesma forma, a ocasional perda de foco simula a natureza de improviso, de realidade, daquilo que vemos, assim como o uso pontual de câmeras de segurança para preencher certas lacunas da história. Infelizmente, porém, o diretor Neill Blomkamp acaba falhando gravemente ao não manter esta lógica em algumas ocasiões, quando emprega uma câmera não-diegética (ou seja: que não se encontra fisicamente presente dentro da narrativa) para retratar alguns eventos específicos – como ao mostrar o que dois aliens planejam no interior de um barraco. Nestes momentos, justamente por fugir da estrutura documental, Distrito 9 acaba enfraquecendo a própria narrativa, tornando-se artificial em função do contraste entre os diferentes estilos (para piorar, nestas cenas específicas Blomkamp e o montador Julian Clarke empregam uma montagem convencional, com vários cortes, closes e por aí afora, ressaltando ainda mais este contraste).

Em contrapartida, os efeitos visuais do projeto são impecáveis: das criaturas alienígenas, cujos movimentos são concebidos com imensa fluidez, à criatura robótica vista no terceiro ato, passando pela maquiagem empregada em diversos momentos da projeção, Distrito 9 faz um excelente trabalho de estabelecer aquele universo como algo não apenas possível, mas real – algo que se torna ainda mais fundamental em função da abordagem pseudo-documental. Além disso, o filme ainda é beneficiado por uma performance magnética e visceral de Sharlto Copley, que, amigo de juventude do diretor, assumiu o papel principal sem se considerar um ator, revelando-se, no processo, uma fantástica descoberta – e é graças a ele que o inseguro e estúpido burocrata Wikus Van De Merwe se transforma num personagem não apenas surpreendentemente complexo, mas também profundamente trágico.

Sem deixar a dever, em termos de violência e asco, a filmes como Robocop (que ganha uma clara referência no terceiro ato) e A Mosca (que é homenageado... bom, durante quase toda a segunda metade da projeção), Distrito 9 é um presente inesperado para todos os fãs de uma boa e inteligente ficção-científica.

15 de Outubro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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