Dirigido e roteirizado por Guillermo del Toro. Com: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Krammerer, Charles Dance, David Bradley, Christian Convery, Ralph Ineson, Lars Mikkelsen.
Depois da morte precoce de uma pessoa amada, o homem emprega suas habilidades para construir um ser artificial que então ganha vida. Horrorizado diante do que produziu, ele acaba tomando atitudes que levam a Criatura a vagar pelo mundo, sendo atormentada e agredida por aqueles incapazes de enxergar sua humanidade – uma história clássica que Guillermo del Toro, um cineasta notório por suas fábulas que exploram a beleza sob aparências amedrontadoras, transforma em uma pequena obra-prima. Pinóquio é realmente um filme belíssimo.
Já Frankenstein é um desastre absoluto.
Projeto há muito sonhado pelo diretor, esta adaptação do romance de Mary Shelley já sugere em seus minutos iniciais o equívoco da abordagem que virá a seguir: depois que Victor Frankenstein é descoberto ferido no meio do gelo por marinheiros que desbravam o “extremo norte”, ouvimos à distância a Criatura que o persegue – um som que del Toro, traindo toda sua vasta imaginação, concebe como um rugido clichê mais apropriado a um lobisomem do que a um indivíduo com anatomia humana. Pior do que isso, só mesmo o instante em que um personagem encara o cientista e, temendo que alguém tenha dormido durante a projeção, declara: “Você é o monstro”. Isto é algo que uma realizadora como Emerald Fennell certamente chamaria de “subtexto”.
Dividido em um prelúdio e duas partes que se propõem a contar partes da história a partir das perspectivas de criador e criatura, Frankenstein abre a primeira destas versões com a infância de Victor (Convery), que, próximo da mãe e temeroso frente à frieza e à crueldade do pai (Dance), é condicionado desde cedo a seguir a carreira de médico, estudando anatomia e fisiologia enquanto exibe as cicatrizes deixadas pelas punições aos erros que comete nos testes ministrados pelo tutor/patriarca. Porém, quando a mãe morre ao dar à luz ao seu irmão caçula, William (Kammerer), Victor decide dedicar a vida à eliminação da morte – e, já adulto (e vivido por Oscar Isaac), conta com o apoio financeiro de Heinrich Harlander (Waltz), um rico comerciante de armas que tem interesses próprios no sucesso da empreitada. Encantando-se por Elizabeth, sobrinha de Harlander e noiva de William, o sujeito atinge seus objetivos apenas para se frustrar com o resultado, mostrando-se impaciente com as aparentes limitações cognitivas da Criatura (Elordi) mesmo que esta exiba força física surpreendente e uma inesperada capacidade de autorregeneração.
Seguindo a estratégia da falta de sutileza em todos os aspectos da narrativa, del Toro, claro, escala Mia Goth para interpretar tanto a mãe quanto o interesse romântico do protagonista, convertendo a obsessão despertada pelo luto (uma dor de apelo universal) em uma questão edipiana mal resolvida. Ao mesmo tempo, Isaac encarna Victor como um completo sociopata, um homem que reproduz com sua Criação o ciclo de abusos sofridos na infância – incluindo as lições pontuadas por agressões -, não hesitando também em manipular o irmão e mentir de forma recorrente para fugir das consequências de suas ações. Ambicioso e arrogante (reparem como ele trata funcionários e criados com o descaso de quem está acostumado a ser servido desde criança), ele chega a rosnar durante uma discussão, não sendo surpresa que o diretor de fotografia Dan Laustsen frequentemente empregue closes com grandes angulares para ressaltar sua deformação de caráter – uma decisão tão óbvia quanto o hábito do personagem de beber leite a fim de ressaltar como mantém-se preso à figura materna. Oscar Isaac demonstrou uma complexidade bem maior ao interpretar uma versão desta figura em Ex Machina.
Com performances igualmente unidimensionais por parte do restante do elenco (o que inclui o geralmente excepcional Christoph Waltz), Frankenstein é esteticamente notável – trata-se de uma obra de Guillermo del Toro, afinal -, oferecendo imagens memoráveis como aquela que traz a mãe de Victor aguardando o marido enquanto elementos de seu vestido vermelho ondulam no vento e, ainda mais marcante, outra que a traz em seu caixão de mármore branco com apenas o rosto à mostra em meio a pétalas de rosa (e que se contrapõe à versão escura na qual o marido é enterrado; a previsibilidade da escolha compensada pela beleza da execução). Aliás, não é à toa que os figurinos usados por Isaac incluem quase sempre detalhes vermelhos (geralmente lenços), já que esta é uma maneira simples de manter a influência da mãe sempre presente; tampouco é coincidência que Elizabeth também utilize a cor em maior ou menor grau, do crucifixo em torno do pescoço à sombrinha que carrega no meio da cidade, culminando no vestido que usa em sua visita ao laboratório de Victor. Enquanto isso, os cenários refletem a grandiosidade das ambições de del Toro, das imensas bobinas verdes presentes no já mencionado laboratório (e cujo tom traz a própria ideia de morte e destruição) à torre que o hospeda e que, equilibrada sobre um precipício à beira do mar, sintetiza as influências góticas presentes em toda a obra do cineasta e que aqui, naturalmente, se mostram ainda mais salientes.
Por outro lado, ao contrário do habitual, nem sempre os instintos plásticos do realizador ecoam suas funções narrativas – e infelizmente o exemplo mais evidente deste descompasso reside no design da Criatura, que, com sua pele de mármore e os padrões quase elegantes dos retalhos de seu corpo, se apresenta como uma versão apenas um pouco mais feia de seu intérprete, jamais alcançando a aparência grotesca, cadavérica, que inspiraria a repugnância imediata de estranhos. Em vez disso, o personagem se move como em dança desde o primeiro momento e exibe os olhos grandes e expressivos de um herói da Disney, praticamente hipnotizando Elizabeth desde o segundo em que esta o vê. De forma similar, é difícil compreender por que o roteiro decide conferir poderes de super-herói à Criatura, que, além de conseguir mover um navio, surge como uma espécie de primo rejeitado de Wolverine.
Povoado por diálogos mais interessados no melodrama do que em investigações filosóficas e morais mais instigantes (o máximo que o roteiro consegue é se perguntar “que parte do corpo hospeda a alma”), Frankenstein ainda tenta uma reconciliação comovente em seus momentos finais depois de passar os 130 minutos anteriores esforçando-se para inspirar nossa máxima antipatia por Victor, causando mais exasperação do que compaixão.
Se alguém me dissesse há uma semana que um filme de Guillermo del Toro estaria entre os piores do ano, eu seria incapaz de acreditar. Porém, depois de tantos monstros memoráveis, o mexicano finalmente criou uma aberração.
(Leia também o texto sobre Frankenstein de Mary Shelley.)
08 de Novembro de 2025
(O Cinema em Cena é um site totalmente independente cuja produção de conteúdo depende do seu apoio para continuar. Para saber como apoiar, conhecer as recompensas - além do acesso gratuito a todo nosso conteúdo -, basta clicar aqui. Precisamos apenas de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Críticas Relacionadas


