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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/12/2014 01/01/1970 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Warner Bros.

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
The Hobbit: The Battle of the Five Armies

Dirigido por Peter Jackson. Roteiro de Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens e Guillermo del Toro. Com: Martin Freeman, Richard Armitage, Luke Evans, Evangeline Lilly, Lee Pace, Orlando Bloom, Cate Blanchett, Hugo Weaving, Christopher Lee, Billy Connolly, Aidan Turner, Ryan Gage, Ken Stott, Stephen Fry, Ian McKellen e a voz de Benedict Cumberbatch.

Quando O Retorno do Rei chegou ao fim, a sensação que tive foi a de tristeza. Como era possível que já estivéssemos nos despedindo daquele universo amplo, complexo, fascinante e repleto de personagens carismáticos e intrigantes? Abandonar a Terra-média representava uma partida melancólica depois de tantas horas investidas em uma aventura inesquecível.

Já o final deste A Batalha dos Cinco Exércitos trouxe uma sensação de “Finalmente!” – e é lamentável que o mesmo Peter Jackson que transformou O Senhor dos Anéis em uma experiência tão memorável tenha convertido O Hobbit em um decepcionante exercício de autoindulgência, esticando um fiapo de história ao longo de quase nove horas de projeção e constantemente perdendo-se entre o tom infantil da trama de Tolkien e seu impulso de conferir aos longas o mesmo tom épico da trilogia que comandou há uma década.

Escrito a oito mãos por Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens e Guillermo del Toro, A Batalha dos Cinco Exércitos tem início com o ataque de Smaug a Esgaroth e com a conquista da Montanha Solitária pelos anões liderados por Thorin (Armitage). Enquanto procura a pedra Arken que Bilbo (Freeman) mantém escondida, o rei anão é consumido pela “febre do ouro” e decide renegar seu acordo com os humanos liderados por Bard (Evans). Enquanto isso, o rei elfo Thranduil (Pace) decide atacar a Montanha para recuperar parte do tesouro que julga pertencer ao seu povo, ignorando a aproximação dos perigosos orcs comandados por Azog (Bennett) – uma confluência de interesses que acabará resultando no confronto do título e que domina a maior parte da projeção.

Aliás, do ponto de vista estrutural, este capítulo final da trilogia nada mais é do que um imenso terceiro ato, consistindo de um clímax cuja duração traria inveja a um praticante de sexo tântrico, mas arrepios a qualquer um que conheça o mínimo sobre dramaturgia, já que, como narrativa independente, A Batalha dos Cinco Exércitos é um óbvio fracasso. Neste aspecto, basta comparar O Hobbit a O Senhor dos Anéis para perceber como ali a estrutura era coesa, já que cada filme, mesmo contando apenas parte da história principal, trazia seus próprios três atos bem definidos e antagonistas e conflitos que conferiam uma sensação de desfecho a cada capítulo. Em contrapartida, nesta nova trilogia Jackson e seus companheiros investiram em passagens longas e descartáveis que claramente visavam justificar a existência de três filmes – e, assim, fomos forçados a acompanhar jantares regados a músicas intermináveis, o procedimento de ressuscitação de um ouriço, um extenso plano para roubar armas que para nada serviram e, claro, a luta entre um anão e um porco por algumas ervas medicinais.

Assim, se funcionaria bem melhor como um único longa (ou, ok, dois), O Hobbit frequentemente é levado a adotar uma estrutura que apenas o prejudica – e o fato de deixar o ataque de Smaug para este último episódio não só privou o filme anterior de um desfecho apropriado como ainda sabotou a urgência do massacre de Esgaroth, já que, ao abrir a projeção, surpreende o espectador ainda “frio”: há tensão na situação apresentada, mas não na narrativa. Sim, a sequência é intensa e grandiosa, mas teria sido mais impactante e urgente caso houvesse sido beneficiada pela continuidade da história em vez de prejudicada por uma interrupção arbitrária com propósitos financeiros.

Não que o trabalho do quarteto de roteiristas já não tenha outros graves problemas, como o excesso de diálogos expositivos: “Precisamos de água!”, “Não sobreviveremos três dias!”, berram os cidadãos de Esgaroth fora de campo enquanto Bard passa pela tela, num momento só rivalizado por outro no qual certo personagem diz “A batalha pela Montanha está prestes a começar!” e aquele que traz Tauriel (Lilly) exclamando “Gundabad!” ao chegar no destino ao qual se dirigira com Legolas (Bloom). E se Peter Jackson mantém o hábito de incluir inúmeros planos aéreos e de manter sua câmera sempre em movimento, tirando qualquer impacto que estes recursos poderiam trazer, a trilha de Howard Shore segue seu exemplo ao praticamente evitar qualquer segundo de silêncio, esforçando-se para comentar cada passagem da ação.

É incrivelmente frustrante, diga-se de passagem, perceber como “sutileza” é um conceito esquecido por Jackson: Alfrid (Gage), por exemplo, não é apenas um covarde, mas a caricatura de um (e o fato de Bard conferir-lhe várias tarefas nos leva a questionar a inteligência do sujeito), ao passo que a transformação de Thorin, além de abrupta, é acompanhada de alterações digitais no tom de sua voz enquanto seu rosto passa a ser mergulhado em sombras.

O que nos traz àquele que talvez seja o maior problema de O Hobbit: o fato de, além de transformar o personagem-título num coadjuvante ao longo dos três filmes, acabar apostando em uma galeria de criaturas que jamais se definem claramente mesmo com quase nove horas de projeção. Chega a ser inacreditável que os anões se mantenham como uma massa de figuras não individualizadas e que – como se não bastasse – o principal deles seja um sujeito tão antipático na maior parte do tempo. Aliás, antipatia dividida com Thranduil – e, se considerarmos que os humanos vistos aqui são um povo sem carisma algum, resta a constatação de que a batalha que serve de clímax à trilogia é disputada por um bando de personagens cujos destinos não importam de fato, já que torcemos apenas para que Bilbo escape vivo (o que já sabemos que acontecerá).

Impressionante como de hábito em seu design de produção (a cachoeira congelada que serve de cenário para um dos confrontos finais é arrebatadora) e nos efeitos visuais (embora a maquiagem digital de Legolas e Elrond seja pavorosa), A Batalha dos Cinco Exércitos funciona de fato graças à intensidade do confronto-título, que oferece a Jackson a oportunidade de criar imagens fabulosas como aquela que traz os anões formando uma barreira com seus escudos enquanto soldados elfos saltam por cima desta rumo aos orcs. Sim, o diretor irrita na insistência com que emprega a câmera lenta nos planos que enfocam os vilões prestes a desferirem seus golpes finais (o que é uma vantagem para os mocinhos, que ganham tempo extra para reagirem), mas estes tropeços são compensados por conceitos divertidos como o de Legolas saltando em pedras que se encontram em queda livre.

No entanto, por melhores que sejam estes instantes, acabam se apresentando como exemplos de ação sem emoção, já que não há envolvimento real com os personagens que os protagonizam. Se em O Senhor dos Anéis experimentamos diversos nós na garganta com o confronto entre Gandalf e o Balrog ou ao testemunharmos a Terra-média em peso se ajoelhando diante dos diminutos hobbits, aqui os momentos supostamente emocionantes falham em produzir efeito similar, soando apenas artificiais.

Depois de 18 horas investidas no universo concebido por Tolkien e de termos ido lá e de volta outra vez algumas vezes, a sensação de saudade imediata deixada por O Retorno do Rei acabou se evaporando. E se ao escrever sobre A Sociedade do Anel comentei que “às vezes, 5 estrelas não são o suficiente”, desta vez posso dizer que Peter Jackson me convenceu de que seis filmes são mais do que o bastante.

11 de Dezembro de 2014

Clique nos links a seguir para ler os textos sobre A Sociedade do Anel, As Duas Torres, O Retorno do Rei, Uma Jornada Inesperada e A Desolação de Smaug

 

Videocast sobre o filme:


Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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