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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/12/2013 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora
Warner Bros.
Duração do filme
161 minuto(s)

O Hobbit: A Desolação de Smaug
The Hobbit: The Desolation of Smaug

Dirigido por Peter Jackson. Com: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Aidan Turner, Dean O’Gorman, John Callen, Adam Brown, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Lee Pace, Luke Evans, Sylvester McCoy, Stephen Fry e Benedict Cumberbatch.

Continuando a conferir uma escala épica a uma história essencialmente infantil, Peter Jackson volta, neste A Desolação de Smaug, a provar ter se tornado um diretor aparentemente incapaz de rodar um plano que julgue necessário cortar. Depois de ter torturado o espectador com as três aborrecidas horas em Uma Jornada Inesperada (e digo isso como fã incondicional da trilogia que criou a partir de O Senhor dos Anéis), o cineasta desta vez cria um filme que ao menos consegue ser menos chato que o anterior – o que, sejamos sinceros, não quer dizer muita coisa, já que se tivesse feito algo pior acabaria sendo acusado de tentar promover um suicídio em massa.

Escrito por Jackson ao lado de suas colaboras habituais, Philippa Boyens e Fran Walsh (além de Guillermo del Toro), o roteiro desta segunda parte resulta em uma narrativa que leva basicamente outras três horas para conduzir seus heróis através de basicamente três novos cenários: o reino élfico de Thranduil (Pace), a cidade de Esgaroth e, claro, a Montanha Solitária. Neste meio tempo, o filme novamente falha em transformar os 13 anões em figuras minimamente individualizadas – por mais que estes berrem com frequência os nomes uns dos outros -, concentrando-se basicamente no aborrecido rei Thorin (Armitage) e em seu conselheiro Balin (Stott). E se Gandalf (McKellen) ao menos costuma tornar tudo mais interessante graças à sua personalidade forte capaz de oscilar entre momentos divertidos e outros de intensa seriedade, desta vez o longa é prejudicado por mantê-lo afastado da tela durante a maior parte do tempo (e pior: prendendo-o, durante algumas de suas já escassas cenas, ao descartável e ridículo Radagast), o que acaba depositando sobre os ombros do carismático Martin Freeman a tarefa de tentar salvar o filme - uma tarefa mais difícil do que enfrentar um dragão.

Demonstrando um desespero óbvio para justificar a divisão do breve livro de Tolkien em três capítulos, A Desolação de Smaug constantemente investe em longas cenas que, analisadas objetivamente, acabam se revelando completamente descartáveis, nada acrescentando à trama ou ao desenvolvimento dos personagens. Em certo momento, por exemplo, vemos os anões se entregando a um plano arriscado para roubar armas em Esgaroth – e, em retrospecto, constatamos que as tais armas sequer faziam parte da estratégia que adotariam ao chegar à Montanha Solitária, que consistia em enviar Bilbo para roubar um objeto. Da mesma maneira, somos forçados a acompanhar uma extensa sequência na qual um complexo mecanismo é acionado para (spoiler sem importância) disparar um jato de ouro (algo que registrei em meu caderno de notas como ouro ex machina) – e se mencionei que trata-se de um spoiler que nada revelará, é porque depois de longos minutos investidos nesta ideia, vemos Smaug sacudir o líquido do corpo como um cachorro molhado, continuando em seu voo sem maiores problemas.

Infelizmente, Peter Jackson não parece perceber que sua insistência em tentar conferir um tom épico ao filme acaba, paradoxalmente, levando-o a soar ainda mais tolo: da trilha sonora incessante de Howard Shore (que aparentemente jamais compôs uma nota que julgasse necessário cortar) aos movimentos de câmera constantes que acabam anestesiando o espectador e perdendo o impacto, este segundo capítulo de O Hobbit é a representação física do conceito de “excesso” – algo do qual Jackson claramente se orgulha, já que insiste em incluir inúmeros planos aéreos que trazem a câmera se afastando enquanto revela a dimensão dos cenários.

Não que o filme não tenha seus bons momentos: a ideia de trazer a silhueta de Sauron como pupila de seu Olho é engenhosa e a sequência dos barris nas corredeiras é repleta de energia (além de conter um extenso e divertido plano que acompanha a ação de um dos anões – e que Jackson imediatamente tenta repetir com Legolas, claro), mas eventualmente estes instantes pontuais de energia e inventividade são afogados por extensas cenas que se concentram nos bastidores políticos de Esgaroth e em elogios fora de hora às virtudes da medicina élfica, chegando ao cúmulo de incluir, no clímax do filme, cenas que acompanham um anão que tenta tomar ervas de um porco. Como se não bastasse, o roteiro insiste em tentar criar suspense através da relação entre Bilbo e o Anel, chegando a fazê-lo quase perder o objeto – quando já sabemos perfeitamente como isto acabará, posto que já havíamos investido quase dez horas em acompanhar sua destruição na trilogia anterior.

Sempre impecável e impressionante em seus quesitos técnicos, A Desolação de Smaug no mínimo é uma experiência visual bacana, destacando-se especialmente em seu belíssimo design de produção, que cria cenários magníficos – da Veneza de madeira representada por Esgaroth ao reino élfico escavado em rochas, passando pela escadaria esculpida ao longo de uma estátua colossal. De forma similar, os efeitos visuais são geralmente convincentes, ainda que, aqui e ali, os bonecos digitais que substituem os atores se apresentem artificiais e arruínem a suspensão da descrença por parte do público.

Prejudicado por um anti-herói antipático, mal-humorado e com graves problemas de caráter, o roteiro não percebe que, ao pedir que torçamos para que Thorin recupere seu trono, faz uma exigência excessiva, já que o sujeito jamais se revela digno da coroa, sendo tão insuportável quanto seu colega de profissão Thranduil, que é vivido por Lee Pace como um esnobe egoísta e nada confiável. Por outro lado, Martin Freeman traz leveza à narrativa, mostrando-se sempre simpático – ao menos, quando o filme permite pontualmente que ele assuma a importância que o personagem-título deveria ter. E se Benedict Cumberbatch é desperdiçado por ter sua voz marcante completamente alterada pelo desenho de som, soando como um vilão genérico de animação, Ian McKellen praticamente rouba o filme sempre que aparece, o que já se tornou um hábito. Finalmente, embora a ideia de adicionar uma guerreira élfica (Lilly) seja interessante, o fato é que os roteiristas acabam prendendo a garota à mais batida e redutiva subtrama possível: um triângulo amoroso, o que é uma imensa decepção.

Comprovando mais uma vez que não faz a menor ideia de como usar o 3D como um recurso de linguagem em vez de como uma tecnologia que serve apenas para tornar os ingressos mais caros, Peter Jackson volta a empregar os famigerados rack focus do início ao fim, além de se render ao hábito infantil de constantemente fazer algo saltar em direção ao espectador, comprovando estar interessado apenas no espetáculo, não na história que tenta contar. Além disso, o cineasta usa uma profundidade de campo tão reduzida (algo fatal no 3D) que, em sua primeira aparição, Bilbo surge quase como um recorte na tela, como se fosse uma silhueta de papelão.

Tolo ao exigir que o espectador aceite a resignação imediata dos anões diante de um obstáculo depois de uma jornada tão extensa e perigosa, O Hobbit 2 ainda peca ao transformar Smaug em um vilão caricatural que se entrega a longos discursos – e o bate-papo entre a criatura e Bilbo, além de desnecessária, ainda faz o filme parar completamente quando deveria estar justamente acelerando rumo ao desfecho.

Um desfecho que, por sinal, Peter Jackson nem mesmo se preocupa em incluir.

Considerando o que o diretor se tornou nos últimos anos, é um alívio que O Senhor dos Anéis tenha sido adaptado quando ele ainda era capaz de exibir alguma autodisciplina. Temo que, caso fosse produzida hoje, a obra resultaria em nove filmes.

Que acompanhariam a Sociedade do Anel em tempo real.

Observação: Jackson surge numa ponta idêntica àquela vista no primeiro capítulo de O Senhor dos Anéis logo nos primeiros segundos de projeção.

 

14 de Dezembro de 2013

 

Videocast sobre A Desolação de Smaug:


Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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