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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
08/07/2011 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

Cilada.com
Cilada.com

Dirigidopor José Alvarenga Jr. Com: Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme, Serjão Loroza,Augusto Madeira, Karla Karenina, Fúlvio Stefanini, Thelmo Fernandes, MarcosCaruso, Milhem Cortaz, Aramis Trindade.

Apesar dejamais ter assistido a um episódio de Cilada,programa que deu origem a este longa, o DNA televisivo da produção está tãoestampado em cada quadro que negar suas raízes seria um exercício fútil, semsentido. Como o próprio filme, por sinal.

Escrito por Bruno Mazzeo e RosanaFerrão, o roteiro, óbvio do início ao fim, nos apresenta ao protagonistaenquanto este, bêbado em uma festa de casamento, agarra-se a uma loira enquantosua ingênua namorada o elogia para as amigas – e desde o primeiro segundo jásabemos que a cena terminará com a exposição pública da traição. Humilhada eraivosa, a agora ex não hesita em publicar um vídeo embaraçoso de Bruno(Mazzeo) no YouTube, expondo sua fraca performance na cama – e a vergonha oleva a tentar restaurar sua reputação através de várias estratégias malsucedidas.Enquanto isso, ele ainda deve lidar com a pressão exercida por seu chefe paraque consiga criar uma campanha de sucesso para um grande cliente de sua agênciade publicidade, o que se torna um desafio ainda maior se considerarmos que osujeito, ao lado de seu parceiro de criação, é um dos piores profissionais domeio já retratados no Cinema – algo que o filme parece não perceber oureconhecer.

Concebido sem qualquer estruturavisível, limitando-se a saltar de uma sequência a outra como se estivesseconstruindo um programa baseado em esquetes independentes, Cilada.com num momento leva Bruno a um pai-de-santo apenas para, emseguida, ignorar aquela passagem e focar numa busca do rapaz por depoimentoselogiosos de outras antigas namoradas – o que eventualmente também é descartadopara abrir espaço para suas tentativas de gravar um novo vídeo erótico queprove sua virilidade. O desespero do filme em encaixar gags nada orgânicas ao longo da narrativa é tão grande que, emcerto momento, o protagonista sonhacom uma situação potencialmente divertida na qual se encontra em uma “clínicade reabilitação para ejaculadores precoces” – mais um conceito, aliás,desperdiçado pelo roteiro, já que o desfecho do “esquete” (porque é um esquete) é fragilíssimo.

Ideias mal aproveitadas, vale dizer,são uma constante no projeto: já no início, quando vemos o pai da noivaapresentando um vídeo sem saber que o contexto de suas palavras está sendodistorcido pelo que está ocorrendo às suas costas, percebemos que Cilada.com é melhor em criar situaçõesdo que em desenvolvê-las, já que a conclusão da cena não permite sequer que opersonagem perceba o que ocorreu. Neste aspecto, outro bom (ou melhor:terrível) exemplo é aquele envolvendo uma transa de Bruno com uma mulhermisteriosa: ao assistir à gravação, o sujeito percebe algo estranho, mas antesque a comicidade da situação se desenvolva ele explode numa série de ofensas aoamigo Marconha (Loroza), que a registrou, transformando algo que poderia serdivertido em um confronto desconfortável e grosseiro. Isto, porém, é umpecadilho se comparado ao esquete (não, não “cena” ou “sequência”, mas esquete) do remédio tomado por enganopelo herói – uma situação cuja apresentação (“Pegue a pílula aqui na minha gaveta,que se encontra ao meu lado, mas que não abrirei por algum motivo absurdo”) sónão é pior do que seu desfecho.

Surgindo como o tipo de comédia quese vê obrigado a apostar em penteados “engraçados” para fazer rir (pobre FúlvioStefanini), Cilada.com tampoucohesita em investir numa trilha sonora que faz sempre questão de sublinhar comtrês traços cada piada ou momento “dramático” (entre aspas mesmo). E mesmojamais tendo se estabelecido como um cineasta particularmente competente, jáque dirigiu alguns dos piores longas dos Trapalhões (além de produções da Xuxae os dois Os Normais), José AlvarengaJr. já deveria ser capaz de ao menos intuirque uma cena como a da discussão de Bruno e Fernanda (Paes Leme) sob a chuva,com intervenções feitas por silhuetas de vizinhos nas janelas do prédio, estavafadada ao fracasso desde sua concepção.

Com a montagem frenética típica dosprogramas de humor da tevê brasileira, que parecem acreditar que cada falamerece um corte próprio, o filme ainda é daqueles que se limitam, por vícioprovocado pelas necessidades da telinha, aos quadros mais fechados queraramente se aventuram além de um plano americano – e quando Alvarenga tentasoar “cinematográfico”, acaba criando composições absurdas e deselegantes aoempurrar sem razão ou bom senso os personagens para os extremos da tela. Comose não bastasse, o trabalho de direção dos figurantes é patético, bastandoobservar as reações da “família” na cena do restaurante para constatar queninguém parecia estar reparando naqueles atores para conferir se estavam aomenos tentando interpretar. Parafinalizar, a direção de arte concebe cenários que parecem próprios para a televisão,jamais surgindo convincentes na tela grande – e o elevador que inclui luzinhasna parede do fundo para indicar seu movimento é uma síntese desta abordagem.

E isto é uma pena, pois Cilada.com tem seus (raros) bonsmomentos que surgem sempre graças à inspiração de alguns atores: como Marconha,por exemplo, Sérjão Loroza se estabelece como uma criatura surpreendentementevulnerável e doce para alguém com uma aparência tão bruta, ao passo que o habitualmenteconfiável Milhem Cortaz arranca boas risadas em sua única cena e praticamentesem abrir a boca ao encarnar com perfeição o típico troglodita (com direito aprognatismo e tudo mais) que ameaçaria a masculinidade de alguém como Bruno. Eisto, claro, nos traz ao protagonista: ator carismático e com bom timing cômico, Mazzeo claramente estudouna escola Luiz Fernando Guimarães de atuação, já que repete suas inflexões etrejeitos à perfeição - mas, longe de ser um defeito, isto apenas permite queele explore com eficiência seu personagem, divertindo, por exemplo, através dedecisões inspiradas como ao gritar “Perder o foco não é legal!” em certo instante da projeção. Certamentehá lugar no Cinema para um ator como Mazzeo, mas não em veículos que sugam seutalento em vez de explorá-lo ou desafiá-lo.

Afinal, um filme que desde o iníciodeixa claro que seu grande conflito será resolvido assim que o protagonistadecidir dizer três palavras não merece muito crédito – e Cilada.com nem mesmo parece tentar conquistá-lo.

E, com isso, faz jus ao seu título.

11de Julho de 2011

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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