Dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Com: Gabriel Faryas, Henrique Barreira, Cirillo Luna, Ivo Müller, Kaya Rodrigues, Larissa Sanguiné, Gabriela Grecco, Antônio Czamansky.
Durante a cobertura da Berlinale de 2018, um dos filmes que discuti com maior empolgação foi Tinta Bruta, dirigido pelos brasileiros Marcio Reolon e Filipe Matzembacher e que construía uma atmosfera densa, carregada e pontuada pela sexualidade, pela sensualidade e pelo tesão, explorando a maneira como os personagens lidavam com o desejo e as tensões que surgiam a partir disso. Todos esses elementos, talvez não por acaso, estão presentes também em Ato Noturno, novo trabalho da dupla - e que é sem dúvida um dos melhores longas que vi no festival deste ano.
Roteirizado pelos próprios diretores, o filme inicialmente nos apresenta a dois atores teatrais: Matias, interpretado pelo estreante Gabriel Faryas, e seu colega de apartamento e de palco Fábio, vivido por Henrique Barreira. Prestes a estrearem um espetáculo teatral que, em sua concepção, investe pesadamente na tensão entre os atores em cena – uma receita fadada ao desastre, já que a diretora da peça estimula constantemente o conflito entre eles por acreditar que isso irá se transferir para as performances -, Matias e Fábio ainda assim mantêm uma relação de amizade e apoio mútuo e sem qualquer envolvimento romântico ou sexual (Matias é gay, enquanto Fábio é retratado como um típico mulherengo). Aliás, é a fama de conquistador deste último que atrai a atenção de uma produtora de elenco em busca de um ator com esse perfil para uma grande série a ser filmada em Porto Alegre (onde a história se passa), resultando em um convite para um teste – o que desperta ciúmes nos colegas de elenco do sujeito, incluindo Matias, que também desejava uma oportunidade na produção.
E é então (e não se preocupem, não há spoilers: tudo isso representa a base da trama) que Matias conhece Rafael (Luna) através de um aplicativo de encontros e o que inicialmente seria uma noite de sexo casual evolui para uma semente de relação romântica bem no instante em que suas carreiras públicas começam a deslanchar. Isto, claro, pode trazer inconvenientes profissionais, já que Rafael é candidato à prefeitura de Porto Alegre e um relacionamento homossexual seria visto com preconceito por seus apoiadores.
Assim como em Tinta Bruta, Ato Noturno é hábil ao mergulhar o espectador em uma atmosfera pesada, incorporando elementos de neo-noir particularmente através de sua trilha sonora instrumental, que constantemente evoca a sugestão de um desastre iminente, e da ambientação predominantemente noturna, com cenas em parques e ruas escuras de Porto Alegre. Neste sentido, há uma sequência particularmente notável que, situada em um parque no qual vemos vários homens fazendo sexo publicamente, emprega a trilha e a fotografia para criar um tom quase fantasmagórico, uma sugestão de algo ao mesmo tempo idílico e assustador. A atração pelo sexo em público, diga-se de passagem, se estabelece como um fetiche crescente entre Matias e Rafael, combinando tesão e tensão diante da possibilidade de serem flagrados a qualquer momento.
Mais uma vez demonstrando uma habilidade admirável em transportar o espectador para o estado mental e emocional dos personagens, os cineastas criam, por exemplo, um inteligente plano aéreo que inicialmente mostra, à distância, o prédio em que Matias mora e o revela dançando na sala – e à medida que a câmera se aproxima, os sons da cidade (sirenes policiais, o caos urbano) invadem a trilha sonora, até então dominada pela música diegética que Matias ouvia, ilustrando como o personagem, mesmo em um momento de prazer solitário e introspectivo, está inserido em um universo que pode, a qualquer instante, invadir sua vida trazendo violência e desordem. Já em outro momento, durante uma apresentação da peça, Reolon e Matzembacher têm o cuidado de salientar o olhar de Rafael que, da plateia, encara o parceiro no palco com uma expressão que transmite toda a complexidade de seus sentimentos, do afeto à percepção de que aquele envolvimento pode trazer a ruína de ambos. Graças a passagens como estas e às atuações excelentes do elenco, a relação entre os personagens, embora turbulenta (devido ao contexto em que se encontram e aos riscos inerentes ao fetiche que compartilham), torna-se algo com que o espectador passa a se importar, lamentando a possibilidade de que possam vir a perder um ao outro.
Enquanto isso (e também como em Tinta Bruta), o sexo é tratado com franqueza e abertura pelo filme, não chegando a ser explicitamente gráfico, mas ainda assim demonstrando ousadia para os padrões do cinema comercial. Isso é fundamental para que o espectador perceba a dimensão da atração que aqueles dois homens sentem um pelo outro – e que, somada ao seu fetiche por exposição, se intensifica progressivamente à medida que os riscos se tornam maiores e eles passam a ter mais e mais a perder.
Para completar, o uso de cores no filme – seja pela fotografia, pela direção de arte ou pelos figurinos – é outra prova da inspiração dos realizadores. É fascinante, por exemplo, observar a associação consistente de Matias com a cor vermelha, que surge em suas roupas e em seus objetos pessoais (casaco, camisa, fone de ouvido, capa de celular e por aí afora): ligada universalmente ao sexo, ao tesão e, paradoxalmente, ao perigo (uma dualidade que, como sempre ressalto em meus cursos, revela muito sobre a natureza humana), a cor permite que o filme faça jogos semióticos brilhantes – e em determinado momento, quando uma produtora de elenco aconselha o protagonista a não se expor tanto, sugerindo que o mistério beneficia a carreira de um ator, Matias comparece a um teste vestindo um casaco branco acinzentado, mas, ao deixar o local, imediatamente o retira, revelando o vermelho por baixo que, claro, representa sua essência real.
E se Tinta Bruta demonstrava também o talento invejável da dupla de diretores para encerrar seus filmes, trazendo um dos melhores planos finais que o cinema viu em 2018, proeza similar é repetida aqui, já que Ato Noturno certamente traz uma das melhores imagens de encerramento que veremos em 2025.
Obra fascinante sobre obsessão, tesão, paixão e, talvez, sobre a excitação inerente a um desejo de autodestruição que raramente associamos ao prazer, este é um filme que mantém Filipe Matzembacher e Marcio Reolon como dois dos mais instigantes realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
21 de Fevereiro de 2025
(O Cinema em Cena é um site totalmente independente cuja produção de conteúdo depende do seu apoio para continuar. Para saber como apoiar, conhecer as recompensas - além do acesso gratuito a todo nosso conteúdo -, basta clicar aqui. Precisamos apenas de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Críticas Relacionadas

