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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 3 / 5 / 5
Distribuidora

Aurora (I)
Aurora

Dirigido por Cristi Puiu. Com: Cristi Puiu, Clara Voda, Catrinel Dumitrescu, Luminita Gheorghiu, Valentin Popescu.

Depois de já ter me decepcionado com o retorno do dinamarquês Christoffer Boe ao cinema com o irregular Tudo Vai dar Certo depois de quatro anos de ausência, agora é a vez de experimentar um imenso desapontamento com uma grande promessa da Romênia: o cineasta Cristi Puiu, que, depois de ter passado cinco anos longe dos sets após o sucesso de seu maravilhoso A Morte do Senhor Lazarescu, volta à função com este frustrante Aurora, que não apenas dirigiu e roteirizou, como também protagonizou, em sua estréia como ator.

Adotando a mesma lógica narrativa de boa parte das obras da cinematografia romena contemporânea (4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias, Polícia, Adjetivo, Se Eu Quiser Assobiar, Assobio e o próprio Sr. Lazarescu), este Aurora se constrói a partir da observação cuidadosa do cotidianos de seus personagens, que tornam-se mais reais e multidimensionais ao surgirem em atividades prosaicas com as quais qualquer espectador poderá se identificar com facilidade. Já empregando longos planos praticamente estáticos desde o primeiro segundo de projeção, Puiu não demonstra pressa alguma em levar a história adiante – e, assim, as três horas de projeção são gastas, quase em sua totalidade, em cenas que enfocam conversas triviais, extensas caminhadas e assim por diante. Isto é, até que, em dois momentos específicos, o protagonista se entrega a chocantes atos de violência que expõem, assim, a estratégia do diretor.

Pois o fato é que a história é o que menos interessa em Aurora; é a forma com que os acontecimentos são desenvolvidos que interessa a Puiu. Buscando representar a banalidade da violência e também sua natureza muitas vezes indecifrável, o cineasta concebe uma diegese extremamente realista a fim de nela inserir um assassino – que, com isso, foge do caráter cinematográfico, glamuroso, dos criminosos de Hollywood e surge como uma das criaturas complexas, mas também patéticas e triviais, que podem ser encontradas diariamente nas páginas policiais dos jornais.

Trazendo poucos diálogos e insistindo num tom de voz sempre baixo, Puiu, como ator, encarna o protagonista como um homem inseguro e não muito brilhante que, caminhando com passos infantis e com o hábito de se repetir para conferir ênfase às suas afirmações, é obviamente um indivíduo perturbado. Com isso, o espectador começa a se perguntar o que há por trás das ações do sujeito – justamente a intenção do diretor, que, no entanto, nos reserva uma última observação cruel ao demonstrar, em seu ato final, que aquele homem que passamos 180 minutos acompanhando não é importante nem mesmo em seu próprio filme, já que é tratado com total desinteresse pelos policiais com quem mantém uma conversa.

Dito tudo isso, a verdade é que, embora a estratégia de Cristi Puiu seja clara e inteligente em conceito, na prática acaba se revelando um irritante exercício de paciência. Ora, enquanto em A Morte do Senhor Lazarescu cada cena, por mais extensa e contemplativa que fosse, movia a história adiante e fascinava o espectador por sua própria lógica interna, aqui as trivialidades do protagonista soam justamente como isso: trivialidades – e passar três horas observando um sujeito antipático enquanto este aguarda numa fila para comprar um pedaço de bolo ou permanece parado em um semáforo esperando a luz verde é algo que expõe apenas a terrível auto-indulgência do diretor.

Com 90 minutos, Aurora poderia ser mais uma obra-prima do romeno; com o dobro deste tempo, é apenas o retrato de um cineasta que passou a acreditar na própria lenda.

04 de Novembro de 2010

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de SP 2010.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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