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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

Do Amor e Outros Dêmônios
Del amor y otros demonios

Dirigido por Hilda Hidalgo. Com: Pablo Derqui, Eliza Triana, Jordi Dauder, Joaquín Climent, Margarita Rosa de Francisco, Damián Alcázar.

Adaptação do admirado livro homônimo de Gabriel García Márquez e selecionado por seu país de produção, a Costa Rica, para buscar uma vaga no Oscar 2011, Do Amor e Outros Demônios é uma produção cujo maior equívoco reside em tratar seu material de origem com excessiva solenidade. Tornando-se enfadonho e fragilizado justamente por reconhecer a importância de converter um texto do Prêmio Nobel de Literatura para as telonas, o filme busca criar imagens que façam jus às palavras de Márquez – e mesmo se tornando esteticamente admirável, falha ao não equilibrar esta beleza com uma narrativa mais fluida e envolvente.

Escrito e dirigido pela estreante Hilda Hidalgo, o longa gira em torno de Sierva Maria (Triana), uma jovem de longuíssimos cabelos ruivos que, em certo dia do século 18, é mordida por um cão raivoso no mercado de sua cidade. Mergulhando num estado febril e desenganada pelos médicos, ela finalmente é entregue por seu pai, o rico Marquês de Casalduero, a um convento depois que o bispo local determina que a doença nada mais é do que uma “artimanha do demônio”, delegando o exorcismo ao jovem padre Cayetano Delaura (Derqui), que acaba se encantando pela garota. A partir daí, no entanto, a abordagem de Hidalgo passa a remeter mais a Abelardo & Heloísa do que ao Márquez (com a diferença de que a castração aqui é religiosa, não literal).

Outro detalhe problemático reside na caracterização de Servia Maria, que, embora constantemente tratada por todos como sendo uma criança, aqui surge como uma adolescente já bastante desenvolvida, quase adulta, e cujos desejos e fantasias sexuais se tornam perfeitamente naturais e esperados. Representando fisicamente a tentação do sexo com sua vasta cabeleira ruiva, a moça é encarnada com inexpressividade pela estreante Eliza Triana, que aposta apenas em seu físico para compor a personagem. Por outro lado, se Pablo Derqui se sai melhor ao retratar a tortura emocional e psicológica experimentada pelo padre Cayetano, ainda assim acaba falhando ao não conseguir justificar como um homem tão inteligente como aquele pode se tornar tão frágil diante de todas as opiniões do bispo – um homem cuja especialidade parece ser recriminar e condenar todos ao seu redor.

Construído a partir de cenas longas cujos diálogos são ditos pelos atores sempre em tom baixo e com pausas extensas, Do Amor e Outros Demônios se converte num verdadeiro teste de paciência, tornando-se ainda mais frustrante em função da omissão da cineasta diante de questões relevantes da narrativa, como, por exemplo, a natureza exata da doença que aflige a mãe da garota ou os motivos que levaram seu pai a afastar-se durante a maior parte de sua vida.

Apesar destes graves problemas, o filme ao menos é beneficiado por uma fotografia belíssima de Marcelo Camorino, que concebe cada plano como uma pequena pintura que explora com brilhantismo as sombras duras da cela de Maria e o contraste da escuridão com cores mais fortes. Em contrapartida, a trilha sonora apela para o melodrama com freqüência, tornando-se irritante com o tempo.

Talvez Hidalgo devesse ter escolhido um projeto menos ambicioso para sua estréia como cineasta.

27 de Outubro de 2010

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de SP 2010.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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