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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 5 / 5 / 5
Distribuidora

A Culpa é Sua
Por tu Culpa

Dirigido por Anahí Berneri. Com: Erica Rivas, Nicasio Galán, Zenón Galán, Rubén Viani, Marta Bianchi, Omar Núñez, Carlos Portaluppi.

Em seus primeiros 15 minutos de projeção, A Culpa é Sua, magnífico filme dirigido pela argentina Anahí Berneri, se concentra em acompanhar a jovem Julieta (Rivas) enquanto esta brinca com os dois filhos pequenos, Valentín e Teo (vividos pelos irmãos Zenón e Nicasio Galán). Recém-divorciada, ela recebe uma ligação do marido, informando-a de que perdeu um vôo e demorará um pouco mais a chegar, e tenta trabalhar um pouco enquanto as crianças brincam no quarto ao lado – até que, durante uma discussão entre os pequenos em função de um brinquedo, Teo cai da cama, batendo a cabeça e motivando sua mãe a levá-lo a um pronto-atendimento.

E é isso. A partir daí, Berneri simplesmente acompanha os três personagens enquanto se deslocam para o hospital, são atendidos e um diagnóstico é feito, construindo uma narrativa minimalista que fascina justamente por prestar uma atenção belíssima aos mínimos detalhes – especialmente quando percebemos que o pediatra responsável pelo atendimento repara em alguns hematomas nos dois irmãos e imediatamente passa a desconfiar de que estejam sendo vítimas de maus-tratos por parte de Julieta, convocando a presença de seu superior e envolvendo a polícia.

Ora, nós vimos o acidente acontecer e sabemos que a mãe não agrediu o filho. Ou não sabemos? O fato é que, no momento preciso da queda, a câmera da cineasta se movimenta de maneira um pouco mais brusca e, embora tenhamos realmente testemunhado o incidente, não podemos nos colocar como testemunhas das mais confiáveis – algo que, em retrospecto, Berneri já havia indicado que faria já nos primeiros segundos de projeção, quando acompanhamos Julieta e as crianças rolando na cama e, por alguns instantes, não sabemos dizer se estamos vendo uma briga ou uma brincadeira inocente. Assim, seria realmente possível que a moça tivesse puxado o filho caçula com um pouco mais de força do que o necessário, provocando a queda? E por que, afinal, ela não protesta diante das acusações e da desconfiança dos médicos? Qual é a causa de sua apatia repentina ao perceber o que está ocorrendo? E por que seu ex-marido, ao chegar ao hospital, imediatamente pergunta “O que você fez?”?

São todas perguntas válidas – e, além disso, Valentín e Teo realmente exibem hematomas em seus pequenos corpos. No entanto, como qualquer pai de crianças pequenas pode atestar (e Julieta chega a mencionar), elas se machucam constantemente, o que poderia explicar os ferimentos. Certo? Mas, então, por que o pai dos meninos ressente a ex-esposa, dizendo que ela sempre “devolve os filhos assim”? Será que poderíamos ter acompanhado toda a interação da mãe com as crianças por quase uma hora sem percebermos os sinais de uma mulher violenta? Sim, nós vimos Valentín ferir o rosto na briga com o irmão e também testemunhamos todo o carinho de sua mãe quando os três se encontravam sós – e mesmo quando ele a desafia ou mesmo a chama de “babaca”, a mulher se comporta com firmeza, mas um óbvio carinho. Seria possível que isto ocultasse uma personalidade abusiva?

É justamente por inspirar perguntas como estas que Por sua Culpa se revela tão fascinante: embora jamais esconda qualquer informação do espectador, o filme parece sempre encontrar uma maneira de nos manter em dúvida acerca do que está realmente ocorrendo, tornando-se ainda mais forte em função da forma extremamente verossímil com que desenvolve sua narrativa – em muitos momentos, a impressão que temos é a de estarmos assistindo a imagens captadas por uma câmera escondida em um apartamento qualquer, tamanha a naturalidade com que a atriz Erica Rivas contracena com as crianças. Neste sentido, aliás, a diretora e sua equipe merecem todos os aplausos do mundo por criarem condições para que os pequenos (especialmente Nicasio Galán, que deve ter cerca de dois anos) se mostrem completamente à vontade em cena – e é óbvio que, em determinados instantes, o menorzinho da dupla realmente acreditou estar em um hospital, já que, ao ver uma enfermeira, por exemplo, imediatamente começa a protestar com um “Não, não” antes mesmo que esta se aproxime.

Uma espécie de primo argentino da igualmente maravilhosa obra-prima romena A Morte do Senhor Lazarescu, este A Culpa é Sua propõe uma discussão importante acerca da violência contra crianças, desafiando nossa percepção e surgindo como um projeto fabuloso não só do ponto de vista artístico, mas também social.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.

08 de Outubro de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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