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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
20/11/2009 01/01/1970 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Deixa Ela Entrar
Låt den rätte komma in ou Let the Right One In

Dirigido por Tomas Alfredson. Com: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Peter Carlberg, Per Ragnar, Karin Bergquist, Henrik Dahl.

(Atenção: por abordar pontos específicos do filme, esta crítica é recomendada para aqueles que já assistiram a Deixa Ela Entrar.)

Desde que o irlandês Bram Stoker publicou seu espetacular e seminal clássico Drácula em 1897, os vampiros vêm sendo utilizados por escritores de todo o mundo não apenas como protagonistas de histórias de cunho sombrio, mas como metáforas das mais diversas, desde as óbvias inferências sexuais (com as presas servindo como símbolos fálicos) até conotações políticas mais sutis (como aquelas presentes no Nosferatu de Herzog, de 1979). No entanto, talvez a explicação mais comum para a fascinação despertada pelos vampiros seja aquela que o define como uma representação de nossos impulsos mais sombrios; como o instinto primitivo que todos temos e que finalmente ganha vazão através destas criaturas. E por mais que julgue Stephenie Meyer uma escritora medíocre (e ela é; basta ler uma dúzia de páginas de Crepúsculo para constatar isso), ela não deixa de ter seus méritos por inverter a natureza sensual dos vampiros para seus próprios propósitos de mensageira mórmon, usando-os como apologia da abstinência sexual.

Aliás, não deixa de ser curioso que o novo longa inspirado na obra de Meyer, Lua Nova, chegue aos cinemas brasileiros na mesma semana em que o sueco Deixa Ela Entrar é lançado em várias praças: infinitamente superior como narrativa cinematográfica (e igualmente baseado em um livro – que também não li), o filme de Tomas Alfredson surge como um drama sobre duas crianças que, com problemas próprios que as transformam em indivíduos à margem da sociedade, aprendem a combater a solidão e também suas fragilidades particulares ao se tornarem próximas uma da outra. A diferença é que, enquanto o pequeno Oskar (Hedebrant) é vítima dos abusos de seus colegas de escola, a jovem Eli (Leandersson) precisa beber sangue para sobreviver.

Evitando mergulhar no tom fantástico que normalmente cerca tantas tramas envolvendo personagens fantasiosos, o roteiro de John Ajvide Lindqvist (baseado em seu próprio livro) combina de maneira efetiva os elementos da mitologia clássica relativa aos vampiros com um universo realista no qual a existência destas criaturas seria tão inconcebível quanto no nosso mundo, conferindo, com isso, maior peso dramático à situação dos protagonistas ao estabelecer que estes poderão enfrentar conseqüências graves caso expostos. Para isto também contribui a ambientação da história em uma cidade que aparenta ser relativamente pequena, tornando as ações de Eli e seu servo mortal, Håkan (Ragnar), ainda mais arriscadas (aliás, a decisão da dupla de se mudar para um local como este representa, para mim, a única grande falha da narrativa). Empregando com eficácia o inverno sueco em vários planos nos quais a noite coberta de neve parece simultaneamente ocultar e expor tudo o que ocorre, o diretor Tomas Alfredson também é bem sucedido ao investir, com a designer de produção Eva Norén e o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, num contraste perfeito entre o apartamento escuro, triste e sufocante de Oskar e a brancura dos espaços abertos (ainda que melancólicos) nos quais ele estabelece sua amizade com Eli.

A dinâmica entre os dois jovens intérpretes, diga-se de passagem, confere imensa força a Deixa Ela Entrar – e é notável, por exemplo, constatar como Oskar tropeça em seu diálogo em uma de suas primeiras interações com a menina, antecipando uma fala e interrompendo-a ao notar o erro, naquilo que me pareceu um equívoco real do pequeno Kåre Hedebrant e que foi acertadamente mantido por Alfredson. Interpretando Oskar como uma criança reprimida que parece sempre estar tentando se manter invisível, Hedebrant encanta, nestas cenas iniciais, ao exibir um sorriso satisfeito ao dar uma resposta atravessada em sua nova amiga (já que isso contrasta com sua postura normalmente passiva) e ao se abrir para a garota, confessando coisas que oculta de sua própria mãe. Enquanto isso, Lina Leandersson confere um surpreendente peso a Eli, remetendo ao igualmente impressionante trabalho de Kirsten Dunst em Entrevista com o Vampiro ao parecer carregar sobre os ombros o peso de uma longa existência disfarçada por sua aparência juvenil.

Igualmente eficaz, aliás, é a abordagem de Alfredson ao revelar apenas gradualmente a natureza bestial de Eli, exibindo inicialmente as unhas sujas de sangue da garota em um rápido plano-detalhe e permitindo que escutemos o som pesado de sua respiração e os animalescos estalos de sua língua – partindo, mais tarde, para momentos mais surpreendentes como o da garota escalando a fachada do hospital e aquele em que vemos o brilho de suas retinas no escuro e a rápida contração de suas pupilas oblíquas como as de um gato. Mas ainda assim Alfredson jamais perde de vista o fato de estar comandando aquela que pode ser interpretada como uma tocante história de amor – e é admirável notar, por exemplo, a sutileza com que ele emprega as batidas crescentes de coração na cena em que Eli e Oskar se encontram deitados juntos (o som é tão discreto que pode passar despercebido para muitos espectadores). Ainda assim, isto não o impede de criar quadros mais chamativos, como aquele – belíssimo – em que vemos uma serra elétrica cortar o gelo no qual um corpo se encontra encerrado ou (o meu favorito) aquele que retrata um verdadeiro massacre a partir de uma câmera que jamais deixa o fundo de uma piscina.

Porém, o que eleva Deixa Ela Entrar a um nível surpreendente é a coragem e a inteligência com que Alfredson e Lindqvist desenvolvem uma narrativa que certamente poderia ser considerada polêmica ou mesmo repulsiva por muitos – e, portanto, é fantástico que muitos nem mesmo percebam o que de fato acontece ao longo da projeção. Pois a verdade é que, em última análise, o filme gira em torno do recrutamento de um futuro psicopata em potencial para substituir o posto de assassino da jovem vampira depois que esta percebe que seu velho servo (e possível amante) já não se encontra mais em condições de desempenhar suas funções apropriadamente. Mais do que um Renfield para Eli, Håkan age diante da vampira como um verdadeiro apaixonado, desde o sorriso carinhoso que dá ao vê-la cantando sozinha, em sua primeira aparição, até a expressão claramente sofrida ao sentir o toque da garota na cozinha, passando, claro, por seu óbvio ciúme ao vê-la com Oskar e por seu pedido para que ela não veja o menino em uma certa noite. Aliás, não é preciso muito esforço para imaginar que possivelmente Håkan foi, algum dia, um garoto igualmente seduzido pelo mistério representado por Eli, devotando sua vida a esta e envelhecendo ao seu lado – o que torna sua extrema devoção ainda mais compreensível.

E se digo que Oskar é um “futuro psicopata em potencial”, isto se deve à sua natureza reprimida e à observação de que, vítima constante de bullying, ele nutre sonhos secretos e violentos de vingança – o que, somado aos recortes de jornais que guarda (e que giram em torno de crimes e armas), pinta o claro retrato de um destes indivíduos que, certo dia, explodem e executam dezenas de pessoas em sua escola ou local de trabalho. Neste sentido, é interessante observar como Deixa Ela Entrar ilustra a passagem de bastão de Håkan para Oskar de forma quase literal, já que é ao encontrar a vara usada pelo primeiro para empurrar um cadáver para o fundo de um lago que o garoto executa seu primeiro inquestionável ato de violência, golpeando seu velho algoz na cabeça. E se o sorriso de vitória e satisfação que ele exibe ao ver o outro sangrando não é o retrato claro de uma semente de psicopata, não sei o que mais poderia ser.

E é então que retornamos à natureza simbólica do gênero e percebemos que, ao ilustrar a transformação do ingênuo Oskar, Deixa Ela Entrar acaba funcionando também como uma contundente alegoria sobre a imprevisibilidade da natureza humana, que traz, em sua imensa diversidade, monstros infinitamente piores do que aqueles com longos caninos.

22 de Novembro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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