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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/01/2008 24/08/2007 5 / 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
113 minuto(s)

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
4 luni, 3 saptamini si 2 zile

Dirigido por Cristian Mungiu. Com: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Alexandru Potocean.

 

Uma obra-prima do primeiro ao último plano”. Foi assim que iniciei meu comentário sobre 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias durante minha cobertura da última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – e, não por acaso, também elegi o filme do romeno Cristian Mungiu como o melhor do evento, ficando um fio de cabelo acima de Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen (o único outro longa da Mostra que chamei de “obra-prima”). Composto por longos planos-seqüências que levariam André Bazin à loucura e que rivalizam com aqueles criados pelos irmãos Dardenne em seus espetaculares projetos, o trabalho de Mungiu é um filme que se torna fascinante graças à observação metódica das ações de seus personagens, atingindo um realismo ímpar justamente graças a esta sua abordagem narrativa que, apesar de antiga como o próprio Cinema (e que, não por acaso, atingiu seu auge com o neo-realismo), revela-se verdadeiramente hipnótica ao longo de seus 113 minutos de projeção.

 

Ambientado na Romênia de 1987, a dois anos do fim do governo ditatorial de Nicolae Ceausescu, o filme tem início no dormitório de uma faculdade e surpreende suas duas personagens principais já no fim de uma conversa sobre algum tema delicado que demoramos a desvendar. A partir daí, acompanhamos a jovem Otilia (Marinca) enquanto esta tenta reservar um quarto de hotel e confirmar um encontro com um homem mais velho, ao passo que sua amiga Gabriela (Vasiliu) se prepara para, aparentemente, ficar alguns dias longe da faculdade. Gradualmente, percebemos que o tal homem (Ivanov) é um especialista em abortos e que Gabriela está prestes a se submeter aos “cuidados” do sujeito – que não é médico.

 

E é isso. Sem depender de uma trama elaborada e cheia de reviravoltas, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias ainda assim constrói uma narrativa tensa e dramática a partir simplesmente de sua capacidade de abrir uma janela para que o espectador possa observar o mundo daquelas pessoas (olha aí Bazin novamente) de maneira realista, sem quaisquer intervenções aparentes dos realizadores (o que obvimente não é o caso, comprovando o talento de Mungiu). Aliás, ele divide esta caracteristica com outra obra-prima produzida recentemente na Romênia, A Morte do Sr. Lazarescu, e não é à toa que ambos compartilham o mesmo diretor de fotografia, Oleg Mutu. Mas há, também, outra similaridade curiosa entre os filmes: a importância de seus títulos, que, como uma presença divina dotada de onisciência, fornece ao espectador uma informação importante que todos os personagens desconhecem.

 

Mergulhado numa fotografia dessaturada e triste que transforma a decadente Romênia de Ceausescu em algo ainda mais velho, feio e sem vida, o longa recria o esforço da população em conseguir algum luxo, por mais trivial que este seja, na compra de produtos do mundo capitalista no mercado negro – e, assim, a quase obsessão das personagens com marcas de cigarro, café e sabonete revela mais um lado deprimente de um país destruído por décadas de totalitarismo e de uma economia fechada para o restante do planeta (algo que, em mais um exemplo de sincronia no Cinema, também surge com destaque na recente e maravilhosa animação francesa Persépolis).

 

Descartando a trilha sonora com o propósito claro de ressaltar o realismo de sua narrativa (afinal, a vida não tem trilha), Mungiu evita também qualquer tipo de convenção cinematográfica que possa soar minimamente formulaica. Assim, quando Otilia rouba uma faca da mala do sr. Bebe, imediatamente o espectador-acostumado-com-Hollywood dentro de nós faz uma anotação mental aguardando o momento em que esta se tornará importante – uma expectativa que o filme se orgulha de frustrar. Da mesma forma, quando Otilia visita a família do namorado apesar de sua preocupação com o estado da amiga, Mungiu e Mutu mantém a garota no centro do quadro enquanto os demais personagens conversam animadamente à sua volta – e é o silêncio angustiado da garota que confere o tom de ansiedade à cena, que chega a se tornar insuportável tamanho o incômodo despertado no espectador (e que é compartilhado pela protagonista). Aliás, todos os indivíduos vistos ao longo de 4 Meses parecem se recusar a agir como coadjuvantes (afinal, somos todos protagonistas de nossas vidas) e, assim, quando Otilia tenta conversar com  a recepcionista de um hotel, esta trata a garota com impaciência e mau humor, mais preocupada com os próprios problemas do que com os interesses daquela que seria a estrela da narrativa e mereceria, portanto, mais atenção.

 

Surgindo como uma das grandes revelações do Cinema internacional em 2007, a jovem atriz Anamaria Marinca retrata Otilia como uma garota forte e determinada que se esforça para encontrar soluções para todos os problemas que surgem em seu caminho. Amiga dedicada, ela faz imensos sacrifícios pessoais por Gabriela que, vivida também com talento por Laura Vasiliu, surge com uma personalidade diametralmente oposta: frágil até em seu tom de voz, a moça não apenas entrega a própria sorte a um total estranho como ainda depende terrivelmente da amiga para solucionar empecilhos que ela própria deveria contornar – e sua insistência em atribuir a culpa a terceiros por seus erros apenas salienta sua imaturidade.

 

Mas num ano que viu Ruby Dee ser indicada ao Oscar de atriz coadjuvante basicamente por uma única cena em O Gângster, torna-se triste perceber como o trabalho absolutamente fenomenal do ator romeno Vlad Ivanov pode ter sido tão ignorado, já que, apesar de uma participação relativamente pequena, ele protagoniza a cena mais forte e dramática de todo o filme, quando, num monólogo cuidadosamente ensaiado pelo personagem (que já deve ter feito discurso semelhante para dezenas de moças frágeis), atribui uma lógica perversa à situação vulnerável das duas garotas, explorando friamente a imaturidade e a inocência de suas vítimas ao convencê-las de que não têm outra opção a não ser submeterem-se às suas condições. Da mesma maneira, a casualidade com que age posteriormente reforça sua falta de caráter, transformando-o num dos grandes monstros a surgirem na telona no ano passado (e o fato de ser tão verossímil torna-o ainda pior).

 

E chegamos, enfim, ao aborto propriamente dito: contendo uma imagem perturbadoramente gráfica, o processo é retratado em todos os seus horripilantes detalhes, transformando o longa em um libelo anti-aborto apenas por retratar a brutalidade que representa. Neste sentido, o trabalho de Mungiu faz aquilo que todo grande filme deveria fazer: leva o espectador a uma reflexão profunda sobre o tema que discute. Particularmente, sempre fui pró-escolha – e ainda defendo que o aborto legalizado é a melhor maneira de evitar que jovens sofram nas mãos de açougueiros que podem matá-las ou torná-las estéreis (e é ingenuidade acreditar que elas deixarão de abortar apenas porque não podem fazê-lo de forma legal; são inúmeros, os relatos de adolescentes que foram parar no hospital depois de se submeterem a procedimentos de grande risco com o objetivo de perderem seus bebês).

 

Dito isso, meu amor colossal por crianças me leva a olhar com reprovação inquestionável (e mesmo revolta) o aborto, o que me coloca numa posição irremediavelmente contraditória e para a qual não consigo encontrar uma saída, por mais que reflita sobre o assunto (e o abrangente documentário Lake of Fire, dirigido por Tony Kaye e injustamente ignorado no Oscar deste ano, só me deixou mais confuso sobre meus próprios sentimentos). Assim, um filme como 4 Meses torna-se ainda mais bem-vindo por contribuir com o debate, já que retrata a dificuldade da jovem mãe sem perder de vista as conseqüências de seu ato – e duvido que algum dia eu consiga esquecer a imagem do chão do banheiro visto no longa. Neste aspecto, o longo e duro silêncio que se segue entre as garotas é absolutamente perfeito e demonstra a maturidade do filme: afinal, o que mais poderia ser dito àquela altura?

 

Emocionante, impactante e incômodo, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias me mandou para fora da sala abalado e angustiado. E aos poucos comecei a encarar seu título de uma maneira ainda mais devastadora: se a notícia da morte de alguém é sempre publicada com as datas de nascimento e falecimento ao lado do nome do indivíduo, este longa nos lembra que tudo se torna ainda mais trágico quando estas duas datas são as mesmas, transformando seu título em um estranho e inquietante obituário.

 

25 de Janeiro de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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