História do Som, A
Dirigido por Oliver Hermanus. Roteiro de Ben Shattuck. Com: Paul Mescal, Josh O´Connor, Molly Price, Alison Bartlett, Michael Schantz, Raphael Sbarge e Chris Cooper.
Imagine uma versão de O Segredo de Brokeback Mountain em que, em vez de se conhecerem e se envolverem enquanto cuidam de ovelhas nas montanhas do Wyoming, os personagens estabelecessem sua conexão através do amor compartilhado pela música - esta comparação, embora redutiva, é um bom ponto de partida para compreender A História do Som, dirigido pelo sul-africano Oliver Hermanus e exibido na competição oficial do festival de Cannes 2025.
Escrito pelo estreante Ben Shattuck, o longa tem início em 1910, quando conhecemos o protagonista, Lionel, ainda na infância em uma fazenda miserável no Kentucky. Herdando a paixão musical do pai violinista, o garoto conquista uma bolsa para estudar música em um colégio em Boston, onde, agora interpretado por Paul Mescal, conhece outro estudante, David (O´Connor), com quem compartilha o interesse por música folclórica - expressões culturais frequentemente menosprezadas pela academia como sendo manifestações artísticas de categoria inferior. Não demora até que esta afinidade evolua para uma conexão romântica e sexual, ainda que um sinal preocupante ocorra na manhã seguinte à primeira transa, quando Lionel desperta e encontra a cama vazia – algo que no Cinema invariavelmente sinaliza qual dos personagens ocupará a posição de maior vulnerabilidade emocional na relação, seja por estar mais apaixonado ou por não enfrentar as mesmas barreiras psicológicas que o parceiro.
E é então que David é convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial, vivendo experiências que irão alterar profundamente sua percepção do mundo e sua capacidade de conexão emocional. A partir daí, a narrativa acompanha a trajetória de ambos ao longo de vários anos, ilustrando os obstáculos que dificultam qualquer relação, sejam estes impostos pelo destino ou por suas próprias limitações psicológicas e emocionais. Neste aspecto, é particularmente notável como Hermanus emprega não apenas o amor em comum pela música como elemento narrativo, mas também a harmonia entre eles – uma harmonia que transcende o sentido de convivência pacífica e se manifesta musicalmente em diversas cenas em que cantam juntos, criando uma metáfora sonora para a tranquilidade e o equilíbrio que cada um proporciona ao outro.
Mas enquanto Josh O´Connor evoca uma gentileza intrínseca através do olhar, tornando ainda mais trágica sua degradação psicológica, Paul Mescal, que ganhou reconhecimento internacional em Aftersun, confere ao protagonista certa distância emocional que prejudica o longa, fragilizando momentos de intensidade dramática que deveriam transmitir angústia ou melancolia e nos quais percebemos apenas uma presença desconectada, quase indiferente. Em vários momentos, a dor experimentada pelo sujeito acaba sendo comunicada mais através do diálogo do que por meio de sua expressão não-verbal, o que é frustrante de um ponto de vista dramático. Não se trata de uma performance necessariamente ruim, mas de uma abordagem equivocada que mantém o espectador à distância (e mesmo que haja certa justificativa para estas escolhas em certos contextos, já que Lionel parece estar sempre de partida e enfrentando dificuldades para formar novos vínculos, o distanciamento emocional permanece problemático quando presente em suas interações com o personagem de O'Connor).
Relegando a atração carnal entre os dois homens ao segundo plano ao sugerir uma ligação primordialmente emocional (e musical), A História do Som adota uma abordagem quase pudica com relação ao sexo, que é raro e encenado de modo conservador, como se evitando causar incômodo em um público mais resistente a histórias com temática LGBTQIA+. E este não é o único problema na estratégia narrativa de Hermanus, um cineasta que, depois de comandar o mediano Beleza Arrebatadora em 2011, alcançou um reconhecimento maior com sua refilmagem de Ikiru (uma das obras mais lindas de Akira Kurosawa), que ganhou em sua reinterpretação uma versão digna, tocante, com uma performance brilhante de Bill Nighy. Pois se em Viver a constipação emocional do protagonista era refletida pela austeridade estilística da direção, criando uma coerência narrativa notável, em A História do Som ocorre um equívoco grave: enquanto os personagens mantêm considerável reserva emocional, a direção busca intensidade expressiva, quase melodramática em determinados momentos, o que resulta em uma dissonância que compromete o resultado final. Para piorar, em vez de permitir que a música funcione principalmente como elemento de comunicação entre os personagens – algo central no filme -, o diretor frequentemente a emprega como atalho emocional em um esforço deliberado para forçar a resposta emocional do público.
O que me leva a concluir que a comparação que fiz inicialmente com O Segredo de Brokeback Mountain não é apenas inapropriada, mas herética.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
22 de Maio de 2025
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