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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
17/11/2006 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

O Céu de Suely
O Céu de Suely

Dirigido por Karim Aïnouz. Com: Hermila Guedes, Georgina Castro, Maria Menezes, Cláudio Jaborandy, Marcelia Cartaxo, Zezita Matos, João Miguel, Flávio Bauraqui.

Há algo de inegavelmente real na existência miserável dos personagens vistos em O Céu de Suely – e o fato do talentoso elenco ser basicamente composto por rostos desconhecidos contribui para tornar esta sensação ainda mais intensa, já que não temos relações prévias estabelecidas com nenhum deles. Além disso, quando consideramos que os personagens são batizados com os primeiros nomes de seus intérpretes, a fronteira entre Cinema e Realidade torna-se ainda mais tênue, fortalecendo nossa ligação com o que transcorre na tela.


Quando o filme tem início, testemunhamos um pequeno momento de felicidade na vida de Hermila, uma jovem que, ao lado do namorado, abandonou a pobre cidadezinha nordestina em que morava para tentar algo supostamente melhor na capital paulista: em uma cena granulada e mergulhada em cores quentes, vemos a protagonista abraçada ao rapaz, com um largo sorriso que servirá de contraponto a todos os problemas que ela virá a enfrentar no restante da projeção. É um instante breve de alegria; mal começa e já acabou, ficando num passado que se tornará quase idealizado na mente insatisfeita da moça. Logo em seguida, já reencontramos Hermila carregando um bebê enquanto viaja em um ônibus, retornando à sua cidade natal. Mal cuidada e sozinha, ela volta a morar com a avó e a tia, passando a vender rifas para se sustentar enquanto o namorado não retorna – e como eventualmente ela percebe que este dia não chegará jamais, decide tomar uma atitude extrema para conseguir o dinheiro necessário para abandonar novamente a cidade: rifar a si mesma, oferecendo “uma noite no paraíso” ao ganhador do sorteio.

É importante dizer, no entanto, que Hermila não se considera uma prostituta – não que tenha algo contra estas (uma de suas melhores amigas cobra 20 reais por transa; rifar-se é, para a garota, uma mera extensão de suas atividades na economia informal, embora lhe falte, talvez, a bagagem intelectual para colocar em palavras sua percepção instintiva do que está fazendo. Inicialmente, seus planos ao lado do namorado incluíam comprar um gravador de DVD e CD que permitisse a comercialização ilegal de filmes e músicas – e sortear o próprio corpo para uma única transa não lhe parece, assim, algo tão absurdo. Aliás, esta sua forma curiosamente natural de lidar com o assunto resulta em uma das melhores cenas do longa, quando transforma uma paquera aparentemente casual com um feirante (Flávio Bauraqui, excelente) em uma oferta da rifa que o sujeito encara com frustração e revolta – e a condução da cena pelo diretor Karim Aïnouz é absolutamente impecável, oscilando com segurança do flerte descompromissado a um confronto constrangedor.

O cineasta, aliás, freqüentemente opta por longos planos que permitem que a cena transcorra com naturalidade e realismo, embora, em um momento ou outro, o resultado estético não seja dos mais agradáveis (a discussão entre Hermila e João é um exemplo). Da mesma forma, os quadros compostos por Aïnouz freqüentemente revelam um cuidado que transcende a estética, preocupando-se principalmente com o significado das composições ou mesmo com a sensação pura e simples transmitida ao espectador: no primeiro caso, há o plano em que vemos Hermila e seu bebê à beira da estrada, ao chegarem a Iguatu, no qual a personagem torna-se pequena em comparação ao restante da paisagem (num símbolo de sua posição social, emocional e econômica naquele instante; enquanto, no segundo, há a cena em que a protagonista e uma de suas amigas se reclinam contra a geladeira aberta, levando o público a quase sentir o calor sufocante da região. E há, é claro, o belo plano que encerra o filme, que, além de dar vida ao título do longa, transforma-se em uma representação (impossível, como discutirei adiante) de esperança e liberdade para Hermila.

Encarnando sua personagem-xará com intensidade inquestionável, a atriz Hermila Guedes cria um retrato tocante de uma mulher jovem, imatura e, conseqüentemente, confusa, que se torna encantadoramente real ao longo da trama. Capaz de atos de apavorante egoísmo (como seu descaso ao ouvir o filho chorar durante a noite), Hermila vive em um mundo vazio de prazeres mínimos e momentâneos – até mesmo a blusa que compra, em certo momento, já sai da loja parecendo uma coisa velha e usada. Aliás, mesmo o conceito de vaidade é algo curiosamente contraditório para a personagem, que, apesar de bonita, usa roupas mínimas que, embora busquem a sensualidade, apenas expõem os defeitos de seu corpo (e, da mesma maneira, a mecha colorida de seu cabelo funciona mais como manifestação patética de um orgulho bobo por ter vivido na “capital” do que como algo supostamente atraente). Finalmente, Hermila demonstra sua fragilidade psicológica também ao apreciar o valor do dinheiro conquistado com a rifa ao mesmo tempo em que obviamente ressente a obrigação de ter que entregar o “prêmio” ao ganhador, que ganha olhares raivosos da moça.

Escrito por Aïnouz, Felipe Bragança e Maurício Zacharias, O Céu de Suely não deixa muitas promessas de felicidade para sua protagonista – e nem poderia. Em certo instante, Hermila diz que o dinheiro a ajudará a se manter enquanto “descobre o que fazer”. Infelizmente, o fato é que não há grandes probabilidades de que ela realmente descubra seu lugar no mundo: limitada por uma Sociedade que não lhe abre muitas alternativas, Hermila pode buscar seu céu e sua liberdade eternamente; para onde quer que vá, é mais do que provável que seu futuro seja tão opressor e insatisfatório quanto seu passado.

22 de Novembro de 2006

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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