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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/02/2007 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Duração do filme
82 minuto(s)

Borat
Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan

Dirigido por Larry Charles. Com: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell, Pamela Anderson.

Embora não tenha sido o primeiro longa a investir no gênero mockumentary (em 1970, o australiano The Naked Bunyip já brincava com o formato), foi This Is Spinal Tap que consagrou o “falso documentário” como algo não apenas artisticamente válido, mas também comercialmente promissor. Investindo no improviso a partir de uma estrutura pré-delineada por seus criadores, o filme de Rob Reiner permanece ainda hoje como uma comédia extremamente eficiente ao mesmo tempo em que oferece um olhar ácido sobre a indústria musical. E ainda que Christopher Guest permaneça como o mestre indiscutível  do mockumentary, o ator britânico Sacha Baron Cohen se apresenta como um possível sucessor em Borat, que leva para o Cinema o personagem – e a lógica narrativa – que ele criou para seu programa de tevê há quase dez anos.


Ao contrário de This Is Spinal Tap, A Mighty Wind e Waiting for Guffman (para citar apenas três obras geniais de Guest e sua trupe), Borat não traz um grupo de atores experientes num “duelo” de improvisações em um ambiente controlado – em vez disso, Cohen, encarnando o jornalista cazaquistanês Borat Sagdiyev, interage com pessoas que não fazem a menor idéia de que estão lidando com um ator, e não com um estrangeiro excêntrico. Anti-semita declarado (ele acredita que os judeus planejaram o 11 de Setembro) e machista irrecuperável, “Borat” viaja para os Estados Unidos com o intuito de realizar um documentário sobre os costumes dos norte-americanos em um trabalho encomendado por seu governo, mas, ao assistir a um episódio de Baywatch na televisão de seu hotel, apaixona-se pela atriz Pamela Anderson e decide viajar para a Califórnia a fim de pedi-la em casamento. Durante o trajeto, realiza diversas entrevistas para agradar ao seu produtor Azamat Bagatov (Davitian, que merecia ter sido mais reconhecido por sua performance genial), que não conhece o verdadeiro objetivo do jornalista.

Como não poderia deixar de ser, o principal atrativo de Borat reside nas reações desconcertadas daqueles entrevistados pelo personagem-título: sem parecer conhecer o conceito de “politicamente correto”, Borat se comporta de maneira sempre imprevisível, agindo e fazendo comentários que, curiosamente, acabam levando seus interlocutores a manifestarem seus próprios preconceitos – e é ridículo que muitas destas pessoas, numa exibição de tremenda hipocrisia, tenham tentado processar os realizadores do longa sob a alegação de que haviam sido informadas de que ele não seria exibido nos Estados Unidos (ou seja: não há problema em ser um imbecil desprezível, desde que esta faceta seja apresentada apenas a platéias estrangeiras). Neste sentido, aliás, Borat acaba, sim, funcionando como documentário ao ilustrar de maneira chocante um lado pavoroso de um país que jamais se cansa de alardear a “igualdade” de sua Sociedade.

Mas não é só isso: o próprio fato de acreditarem que Borat é uma pessoa real, e não um personagem, indica uma arrogância alarmante por parte daquelas criaturas – cegados pela crença na própria superioridade cultural, econômica e política, os entrevistados por Cohen simplesmente encaram as atitudes do “jornalista” como algo típico de um estrangeiro bárbaro, de alguém oriundo de um país que tem a infelicidade de não se chamar Estados Unidos da América. Quando uma mulher da alta sociedade (alguém que se orgulha da própria sofisticação cultural!) aceita que Borat, um homem de 30 anos de idade, poderia não saber como se limpar após usar o banheiro, a conclusão é clara: para ela, o mundo fora da “América” (sim, eles são donos de todo o continente) é dominado por selvagens – e sua condescendência ofensiva é estabelecida com veemência ainda maior através da conclusão de que Borat poderia ser facilmente “americanizado”.

Da mesma forma, a xenofobia cada vez mais arraigada dos habitantes dos Estados “vermelhos” (leia-se: eminentemente Republicanos, conservadores) fica patente quando Cohen visita um rodeio e, de cara, é aconselhado por um dos organizadores do evento a raspar seu bigode, que o faria parecer “muçulmano”(!). (E isto para não mencionarmos sua homofobia declarada.) Além disso, o jingoísmo norte-americano é ilustrado numa cena particularmente brilhante (e simultaneamente chocante e hilária) na qual Borat faz um discurso para centenas de pessoas e, manifestando apoio a Bush na invasão ao Iraque, é recebido com aplausos ao fazer desejos absurdamente sanguinários com relação à população daquele país (aliás, o discurso já começa de maneira espetacular, quando, numa simples troca de preposição, Cohen elogia a “guerra de terror” do governo republicano, criticando-a escancaradamente diante de uma platéia que ignora sua ironia). Da mesma forma, mais adiante o filme expõe a imbecilidade flagrante dos cristãos fanáticos que, em sua cegueira dogmática, negam a Evolução – e, como espécie de “bônus”, o longa também critica, mesmo que incidentalmente, a péssima qualidade do jornalismo praticado em grande parte do país (a Fox News vem fazendo escola), quando Borat consegue entrar no ar em um telejornal local como se realmente fosse um estrangeiro em visita aos Estados Unidos.

Porém, o filme não emprega apenas a crítica e o humor de situação para provocar o riso: a comédia física clássica é elevada a níveis absurdos em certos pontos da projeção, comprovando que Cohen é, também, um mestre neste tipo de gag, como evidencia a cena na loja de antiguidades (ainda assim, o ápice é atingido na instantaneamente clássica seqüência que traz uma briga coreografada com genialidade entre Borat e seu produtor Azamat). Além disso, o longa demonstra segurança suficiente para incluir piadas bem mais sutis em vários pontos da narrativa, como aquela que revela o destino do urso que acompanha o protagonista durante parte de sua viagem (quem piscar na hora errada perderá a revelação).

Exibindo um comprometimento com o papel que faria inveja ao mais aplicado dos method actors, Sacha Baron Cohen demonstra profunda concentração em todas as suas cenas – algo fundamental em um projeto que, afinal de contas, o obriga a contracenar com pessoas reais e, por definição, imprevisíveis (observem sua reação inspirada quando, ao conversar com um grupo de feministas, escuta a afirmação de que mulheres e homens são iguais: seguindo a lógica machista de Borat, ele não consegue conter um pequeno riso que é imediatamente percebido por uma das entrevistadas, resultando em outro grande momento do filme). Mas o elemento mais inteligente de sua composição diz respeito à ingenuidade que confere ao jornalista do Cazaquistão: apesar de todos os seus preconceitos, Borat desarma nossas reservas com seu charme quase infantil, o que permite que gostemos de um indivíduo que, de outra forma, seria repulsivo (como resistir a um sujeito que, sem mais nem menos, diz a um outro adulto: “Eu gosto de você. Você gosta de mim?”).

Concebendo uma comédia não apenas engraçadíssima (algo cada vez mais raro), mas também inteligente e repleta de observações importantes sobre a Sociedade norte-americana contemporânea, Cohen e seus três co-roteiristas conseguem criar uma estrutura narrativa que, através de vasta preparação prévia (eles procuraram antecipar todas as respostas possíveis dos entrevistados), evita que Borat se torne excessivamente episódico, apresentando uma história com começo, meio e fim, permitindo, assim, que o personagem se torne ainda mais eficaz por seguir uma trajetória mais tradicional em seu desenvolvimento.

Sacha Baron Cohen é uma revelação extremamente promissora e Borat é, desde já, uma referência absoluta para futuros projetos do gênero.

Observação: Não deixe de conferir todos os avisos que surgem durante os créditos finais e após o término destes.

23 de Fevereiro de 2007

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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