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Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Mary Bronstein. Com: Rose Byrne, Delaney Quinn, Mary Bronstein, A$AP Rocky, Ivy Wolk, Mark Stolzenberg, Christian Slater e Conan O´Brien.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é o título perfeito para um filme cuja protagonista experimenta ao mesmo tempo uma profunda exaustão e uma frustração crescente diante das pressões de seu cotidiano. Funcionando como um estudo de personagem que leva o espectador a sentir a ansiedade de uma personagem que só não desiste de tudo por ter ciência de suas responsabilidades, este longa escrito e dirigido pela atriz Mary Bronstein (que faz uma pequena participação como uma médica que contribui para as tensões da protagonista) é intenso, claustrofóbico e sustentado por uma performance magistral de Rose Byrne, que desde já se torna uma das favoritas ao prêmio de atuação desta edição do Festival de Berlim*.

Trazendo o público para perto da personagem desde o primeiro segundo, já que a projeção abre com um primeiríssimo plano do rosto de Linda (Byrne) enquanto participa de uma sessão de aconselhamento psicológico ao lado da filha pequena, o filme amplifica cada uma das microexpressões da atriz, que transmite uma variedade de sentimentos - frustração, cansaço, irritação, vulnerabilidade – em questão de poucos minutos. Sem jamais incluir a criança ou a terapeuta no campo, Bronstein já estabelece assim a abordagem geral da obra, ressaltando o sentimento de isolamento de uma mulher à beira de um colapso.

Mãe de uma filha que há um bom tempo encontra-se doente (a natureza da doença nunca é totalmente esclarecida, mas exige cuidados intensivos que incluem um tubo de alimentação), Linda precisa cuidar da criança ao mesmo tempo em que lida com o trabalho, com a reforma de sua casa (o teto de seu quarto desabou de uma hora para outra) e com a ausência do marido, um militar que está em uma longa viagem e faz ligações constantes para cobrar informações sobre a situação da filha e da casa (o bem-estar da esposa aparentemente é irrelevante). Assim, ao optar por não mostrar a filha ou o marido — apenas ouvimos suas vozes —, a diretora evita a empatia imediata que sentiríamos diante da imagem de uma criança com um tubo de alimentação e permite que sejamos confrontados apenas com o trabalho e a carga emocional e física que ela representa, ao passo que o marido se estabelece como uma presença-ausência que em vez de companheirismo oferece somente tensão adicional.

Enquanto isso, a câmera inquieta e os quadros fechados do diretor de fotografia Christopher Messina contribuem para a sensação angustiante que permeia a projeção, ao passo que o desenho de som desempenha um papel crucial ao salientar o nervosismo de Linda através do bipe constante da máquina que monitora a filha, do ruído da babá eletrônica, da estática que aumenta à medida que a protagonista se afasta do quarto de hotel para respirar um pouco e da vibração grave que por vezes toma conta do ambiente, reforçando seu desconforto e sua ansiedade.

Evocando a exaustão física e emocional da personagem com uma intensidade que é ao mesmo tempo dolorosa e divertida, Rose Byrne cria uma ligação tão grande com o espectador que, ao testemunharmos seu alívio ao chegar em casa e tirar os sapatos, praticamente sentimos a sensação de descompressão de seus pés. Ao mesmo tempo, a ironia representada por sua profissão - como psicóloga, ela precisa projetar segurança e controle aos pacientes enquanto sua vida pessoal desmorona - é explorada com humor à medida em que ela vai se mostrando cada vez mais irritada diante do descaso de todos para com sua situação. Aliás, suas pequenas explosões, ainda que justas, também são capazes de provocar risos, o que é instrumental para aliviar ao menos a carga emocional do espectador, já que esta trégua jamais é oferecida à protagonista . Vale ressaltar também a excelente presença no elenco secundário do (ótimo) comediante e apresentador Conan O’Brien, que, como o psicólogo da protagonista - em uma performance contida e surpreendente na qual até seu topete tradicional foi domado -, adiciona uma camada de ironia ao filme ao demonstrar uma impaciência que reforça como ninguém (nem seu psicanalista!) parece empatizar com sua situação.

Tocando ainda em questões importantes sobre a maternidade e as expectativas sociais em torno desta, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria questiona, através de Linda, a ideia de que toda mulher nasceu para ser mãe e deveria aceitar isto, destacando como a sociedade desconsidera as necessidades, sonhos e frustrações individuais das mulheres em favor de um ideal maternal.

Vitrine mais do que merecida ao talento de Rose Byrne, já dona de uma carreira longa e repleta de belas performances, não será surpresa caso este filme resista à distância da qual se encontra da temporada de premiações 2026 e transforme sua protagonista em uma das favoritas às principais estatuetas do próximo ano.

* Byrne de fato acabou vencendo o prêmio de Melhor Atriz

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025

16 de Fevereiro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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