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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/02/2008 01/01/1970 4 / 5 3 / 5
Distribuidora

Os Indomáveis
3:10 to Yuma

Dirigido por James Mangold. Com: Russell Crowe, Christian Bale, Peter Fonda, Alan Tudyk, Dallas Roberts, Logan Lerman, Ben Foster, Vinessa Shaw, Gretchen Mol, Kevin Durand, Luke Wilson.

 

Em seu ótimo Cop Land, realizado em 1997, o cineasta James Mangold batizou o sofrido e desprezado personagem de Sylvester Stallone como Freddy Heflin – uma referência não apenas ao ator Van Heflin, mas ao papel que este interpretou em Galante e Sanguinário, de 1957, quando surgiu como um homem que, determinado a provar o próprio valor, assume a tarefa de conduzir sozinho um perigoso bandido até o trem que o levará à prisão de Yuma, partindo às 3:10 da tarde. Pois a admiração de Mangold por aquele western é agora comprovada por esta refilmagem que traz Christian Bale no papel que pertenceu a Heflin e Russell Crowe como o cínico pistoleiro Ben Wade originalmente encarnado por Glenn Ford.

 

Funcionando simultaneamente como homenagem e releitura daquele longa dirigido por Delmer Daves, Os Indomáveis (que, no original inglês, manteve o título da obra de 57, 3:10 to Yuma) faz várias referências explícitas ao seu antecessor, como alguns diálogos idênticos; o plano sobre os cavalos que puxam a diligência que será assaltada; e a cena em que os capangas de Wade se enfileiram num balcão de bar - além, é claro, da brincadeira com um notório erro de continuidade no terceiro ato daquele filme, quando um cavaleiro sumia misteriosamente entre um plano e outro (aqui, o filho do personagem de Bale, quando indagado acerca do número de bandidos que se aproximam, responde: “Sete ou oito, não sei”.). Mas o mais importante é que, aqui, roteiro e direção se encarregam de refinar elementos pouco satisfatórios daquela produção, como o assalto inicial à carruagem (que se torna bem mais violento e difícil) e, principalmente, a maneira com que os capangas de Wade descobrem que seu chefe está sendo levado para Contention.

 

E mais: a própria jornada rumo àquela cidade ganha contornos muito mais ameaçadores em sua nova versão, introduzindo obstáculos que ressaltam as enormes dificuldades enfrentadas pelo pequeno grupo ao longo do caminho. Da mesma maneira, o violento incidente que se passa ao lado de uma fogueira, durante a noite, funciona não apenas para ilustrar o caráter imprevisível de Wade, mas também como lembrete claro de que, apesar de suas maneiras aparentemente sofisticadas, o sujeito é terrivelmente cruel e não dá grande valor à vida humana – e, embora Ford exibisse carisma no original, seu bandido era excessivamente simpático, o que comprometia a narrativa. Aliás, Os Indomáveis insiste em ser um filme bem mais cínico do que seu antecessor, o que o enriquece, tornando-o mais tenso e impactante (algo refletido também em seu desfecho).

 

Como tantas outras produções realizadas nos últimos 3 ou 4 anos, Os Indomáveis também não se furta de estabelecer um paralelo curioso entre elementos de sua história e o atual quadro político norte-americano: aqui, o passado de seu improvável herói, o fazendeiro Dan Evans, remete aos soldados norte-americanos contemporâneos que são abandonados pelo país quando retornam da guerra (e até mesmo seu alistamento “acidental” lembra o envio da Guarda Nacional para o Iraque). Felizmente, o filme não exagera na dose, empregando sua referência crítica ao governo Bush de maneira orgânica, como forma de desenvolver o protagonista, sem permitir que ela se torne uma distração ou ganhe mais importância do que deveria.

 

Contando com uma montagem que remete constantemente aos clássicos do gênero na maneira com que a narrativa vai ganhando intensidade e urgência à medida que se aproxima do fim (a comparação com Matar ou Morrer é particularmente difícil de evitar), o longa também é enriquecido pela trilha sonora excepcional de Marco Beltrami, que oscila entre elementos dramáticos e de ação de forma impecável – e (melhor) cedendo espaço para que os efeitos sonoros contribuam de maneira interessante e inesperada para elevar a tensão: reparem, por exemplo, como o som da locomotiva estabelece o ritmo da cena final, acompanhando a raiva crescente de determinado personagem.

 

Ator sempre competente, Russell Crowe cria, como já dito, um antagonista autêntico, evitando a composição excessivamente simpática de Ford no original – e ainda que tenha seu código de honra particular, isto não significa que seja seguro adormecer ao seu lado: ele pode se recusar a atirar em um homem já caído, mas golpear o pescoço de um inimigo durante o sono é estranhamente aceitável. Além disso, Wade está longe de ser o prisioneiro passivo da versão de 57, não sendo poucas, suas tentativas de escapar. Para finalizar, Crowe exibe uma segurança absurda no momento em que dispara suas armas sem aparentemente fazer muito esforço, como se nem pensasse no que está fazendo, surgindo totalmente convincente como um pistoleiro famoso por sua habilidade no gatilho.

 

Christian Bale, por sua vez, não renega sua fama de method actor e se entrega completamente ao papel, surgindo sujo e cansado como se realmente tivesse saído diretamente do impiedoso Velho Oeste norte-americano. E se o fazendeiro de Van Heflin era adorado por sua família, aqui Dan Evans é um sujeito que percebe claramente o desprezo crescente de sua esposa e de seu filho mais velho, que o condenam por não enfrentar seus inimigos com mais energia. Ainda assim, torná-lo deficiente físico (ele tem, literalmente, uma perna de pau) acaba soando como alegoria desnecessária – isto para não mencionar que a agilidade exibida por Bale no terceiro ato acaba parecendo implausível em função disso, surgindo como o único problema de mais uma excelente performance deste jovem ator. Fechando o elenco, vêm Peter Fonda (esquecível em algo que é pouco mais do que uma ponta), Alan Tudyk (cada vez melhor) e Ben Foster, estranho e intenso como de hábito.

 

Exagerando no falatório que ocorre no terceiro ato, quando Mangold parece sentir necessidade escancarar os temas até então desenvolvidos de maneira sutil (a “confissão” de Bale/Evans acerca de seu histórico militar é particularmente ruim), Os Indomáveis ainda assim se estabelece como a melhor das duas versões desta envolvente história. E não sei se o cineasta pretendia homenagear um de seus filmes favoritos ao empalidecê-lo, mas, para o bem ou para o mal, foi isto que acabou fazendo.

 

15 de Fevereiro de 2008

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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