Dirigido por Walter Salles, Daniela Thomas. Com: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique Jesus Santos.
Cineasta inquestionavelmente bem-sucedido e com uma carreira internacional promissora, Walter Salles demonstra possuir, em Linha de Passe, uma admirável humildade artística (traço que divide com o irmão, o excepcional documentarista João Moreira Salles) ao não hesitar em voltar a dividir os créditos de direção com Daniela Thomas, sua parceira nos ótimos Terra Estrangeira e O Primeiro Dia – algo pouco comum em uma área dominada pelo egocentrismo desenfreado. Ainda assim, o filme não deixa de investir em temas recorrentes na carreira solo do diretor, como a sentida ausência da figura paterna (Central do Brasil, Água Negra) – e é notável observar que, sem qualquer indício de pieguice ou maniqueísmo, Linha de Passe não apenas comove profundamente como ainda nos leva a torcer desesperadamente por um final feliz para os complexos indivíduos aos quais nos apresenta.
Escrito por Thomas ao lado de George Moura e Bráulio Mantovani, o longa inicialmente nos apresenta de maneira fragmentada aos seus personagens, permitindo que os acompanhemos em momentos de seu cotidiano nada cinematográfico: Dênis (Baldasserini) é um motoboy que mantém uma relação distante com o filho que teve com a namorada; Dinho (Rodrigues) se esforça para abandonar o passado de garoto-problema ao abraçar a religião; Dario (Oliveira) tenta emplacar uma carreira como jogador de futebol; e Reginaldo (Santos) passa os dias andando de ônibus em busca do pai motorista. Levando existências humildes, os quatro irmãos moram com a mãe, a empregada doméstica Cleuza (Corveloni), que, grávida do quinto filho (mais um que não contará com o pai), se esforça para manter a família unida.
Adotando uma abordagem que, assim como em Central do Brasil, remete ao neo-realismo, os cineastas inserem esta pequena ficção em um grande contexto quase documental, realçando-o através da utilização de figurantes não-profissionais que, assim como aqueles que ditavam suas cartas para a Dora vivida por Fernanda Montenegro, aqui emprestam seus rostos marcantes e expressivos a seqüências como a que traz dezenas de aspirantes a jogador apresentando seus comoventes sonhos de grandeza diante de uma minúscula janelinha enquanto um funcionário sem rosto anota seus nomes e posições no campo. Da mesma maneira, o elenco principal do longa é composto por atores desconhecidos do grande público, o que imediatamente confere maior autenticidade aos personagens, que surgem na tela sem a bagagem das performances anteriores de seus intérpretes – e é mais do que apropriado que, servindo como centro emocional da narrativa, a atriz Sandra Corveloni tenha surpreendido ao sair premiada de Cannes em função de sua composição absurdamente eficaz em sua simplicidade. Mulher humilde e direta em seus medos e paixões, Cleuza é uma mãe carinhosa e preocupada que não hesita em fumar e beber durante a gravidez (o que, longe de ser um paradoxo, é apenas um atestado da ignorância conseqüente de uma vida sem recursos). Capaz de administrar uma surra com as mesmas boas intenções com que expressa seu apoio aos filhos, Cleuza é uma mulher absolutamente comum – e isto (aí, sim, paradoxalmente) a transforma numa figura profundamente cinematográfica.
Enquanto isso, os quatro jovens atores que completam aquela conturbada família se destacam por suas abordagens diferenciadas, mas igualmente apropriadas a cada um dos personagens: ainda que “trabalhador”, o Dênis de Baldasserini é um rapaz imaturo que encara as necessidades do filho pequeno como um inconveniente à sua vida de farra e falta de compromissos – o que, curiosamente, não deixa de fazê-lo sentir culpa por sua negligência como pai. Assim, ao investir numa opção arriscada que se contrapõe à forma com que foi criado, ele mergulha num conflito interno que o imobiliza num momento particularmente inconveniente. Já José Geraldo Rodrigues encarna a fé de Dinho de maneira autêntica, sem transformá-la numa piada ou crítica ao personagem ou à religião de forma geral (e mesmo seu pastor é representado de maneira digna, preocupando-se com dinheiro, sim, mas também com seus fiéis – embora exiba uma crueldade ímpar ao atribuir o fracasso de suas “curas” à suposta falta de fé de seus seguidores). E se Vinícius de Oliveira reflete a distância de Central do Brasil em seu tamanho e no rosto marcado por espinhas – algo que o torna ainda mais autêntico num universo dominado por faces irretocáveis -, sua performance em Linha de Passe faz jus à promessa apresentada naquele filme, apresentando Dario como um garoto que aposta nos pés como meio de escapar de um futuro nada atraente (e sua angústia ao perceber que o prazo para se estabelecer como jogador profissional está se esgotando é um dos elementos mais eficazes do longa). Finalmente, o pequeno Kaíque de Jesus Santos reprisa a estréia promissora de Oliveira ao emprestar imensa naturalidade e inquestionável carisma a Reginaldo, cujo sonho de se tornar motorista de ônibus nada mais é do que um tocante esforço de aproximar-se do pai que não conhece. Aliás, seria fácil gastar mais três ou quatro longos parágrafos elogiando a força do elenco de Linha de Passe, já que até mesmo as menores participações surgem com homogênea eficácia (observem, por exemplo, o hilário cinismo da vizinha de Cleuza ao dizer: “Nós vamos ver desenho animado na televisão!” – num momento que só funciona graças ao timing preciso da atriz cujo nome, infelizmente, não consegui anotar).
Auxiliados pelo ótimo diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr. (também responsável pelo ótimo A Casa de Alice, similar em vários aspectos a este Linha de Passe), Walter Salles e Daniela Thomas mantêm a câmera sempre próxima de seus atores, capturando as menores mudanças em suas expressões e salientando, no processo, o tom intimista que nos torna ainda mais ligados aos personagens. Além disso, a fotografia triste e urbana estabelece, ao lado da trilha melancólica de Gustavo Santaolalla, um clima sufocante que só é aliviado nos instantes determinantes em que pequenas vitórias são conquistadas. E se a montagem se mostra surpreendentemente fluida ao manter uma alternância perfeita entre os vários personagens, elogios também devem ser feitos à sutileza dos detalhes com que o universo daquelas pessoas é apresentado ao público – desde a jaqueta jeans puída que Cleuza veste na festa do filho até o tênis cuja sola precisa ser amarrada com o cadarço para não se soltar durante um jogo.
Incluindo planos recorrentes de uma pia entupida cujo ralo, ao finalmente permitir a passagem da água, indica também a transição para o ato final da projeção e suas “resoluções”, Linha de Passe é particularmente fascinante em suas várias e significativas rimas visuais, como os quadros, similares em composição, que trazem Dinho rezando e se masturbando em instantes distintos ou os planos em que vemos Dario observar a cidade através das janelas do ônibus e do carro dirigido por supostos amigos que o encaram mais com curiosidade (como um bicho estranho de um universo distante) do que com afeto. Mas talvez o exemplo mais impactante da estratégia visual e narrativa dos cineastas seja aquele que diz respeito às inúmeras mãos estendidas ao céu que contrapõem (e equiparam) duas atividades coletivas que envolvem, à sua própria maneira, emoções intensas e fé cega: a religião e o futebol - que, claro, também se cruzam com certa freqüência e que funcionam, para aqueles personagens, como uma fuga de suas realidades e uma promessa vaga de felicidade futura (assim como o crime, para Dênis e, numa idealização humilde, a carreira de motorista de ônibus para Reginaldo).
Numa narrativa guiada por pais ausentes (nem mesmo a patroa de Cleuza parece ter marido), Linha de Passe é inteligente e corajoso o bastante para compreender que a única maneira de fazer jus à complexidade de seus personagens é permitir que estes continuem a levar suas vidas independentemente do desfecho do filme – e é na ambigüidade de suas resoluções e (re)começos possíveis que o filme de Walter Salles e Daniela Thomas oferece, depois de 108 minutos, seu último grande presente ao espectador.
05 de Setembro de 2008
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São Paulo. 22 milhões de habitantes. 200 quilômetros de engarrafamentos. 300 mil motoboys. No coração da cidade em transe, quatro irmãos tentam se reinventar. Reginaldo - o mais novo e único negro na família - procura seu pai obsessivamente; Dario sonha com uma carreira de jogador de futebol, mas, aos dezoito anos, se vê cada vez mais distante dela; Dinho se refugia na religião e o mais velho, Dênis, pai involuntário de um menino, tem dificuldade em se manter. Sua mãe, Cleuza, empregada doméstica que criou sozinha os quatro filhos, está grávida novamente de mais um pai desconhecido. O futebol e as transformações religiosas pelas quais passa o Brasil, o exército de reserva de trabalhadores que alimenta a cidade, a questão da identidade e da ausência do pai estão no coração da história de “Linha de Passe”.
